Establishment x Lulismo

Com a debandada do centrão (DEM, PP, PR, PRB, SD) para candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB), ganha sobrevida a candidatura do tucano com 40% do tempo do horário eleitoral na TV. Queiram ou não os puritanos, o horário eleitoral é peça chave em eleição presidencial e mais ainda em uma eleição imprevisível como a de 2018. Não se ganha eleição apenas com engajamento em rede social ou caravanas em aeroportos, como planeja Jair Bolsonaro (PSL).

Ciro Gomes (PDT) sai dessa disputa com sabor amargo da derrota que ele mesmo provocou ao falar demais e pode ser pior caso o PSB e PCdoB não fechem com ele. Ciro tanto sabe disso que já virou a chave desistindo de moderar seu tom e plano de governo para mais ao centro. Passou a moldar a sua fala para atrair partidos e eleitores à esquerda.

Sem o centrão, o candidato do PDT vai ter que disputar contra o candidato do PT/Lula o eleitorado de esquerda para chegar ao segundo turno. É muito difícil. Confesso que estava com a sensação de fim da polarização entre PSDB-PT, mas o curso do rio começa a ir para o mesmo lugar que vai desde 1994.

Bolsonaro, Ciro e Marina Silva (Rede), os três líderes nas atuais pesquisas, podem sucumbir ao establishment político capitaneado por Alckmin e a força eleitoral do lulismo.

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Eleições em São Paulo – Doria abre 10 pontos para Skaf na liderança

João Doria (PSDB) aparece 10 pontos percentuais a mais que Paulo Skaf (MDB), pelo governo de São Paulo. O atual governador Márcio França (PSB) ficou com 8% na pesquisa divulgada na quinta-feira, 19. Luiz matinho (PT), 5%, é o último entres os principais nomes.

A folga que Doria tem nesta pesquisa, diferente da pesquisa Ibope de semanas atrás que mostrou empate técnico, não é motivo para festa. Com o início das convenções partidárias nesta sexta, 20, a campanha eleitoral aquece os motores para largada. Especificamente em São Paulo, confirmando o segundo turno entre Doria e Skaf, a tendência é França apoiar o candidato do MDB após trocas de acusações das campanhas e dos próprios candidatos tucano e socialista, inclusive atrapalhando votações do interesse do governo do peessedebista na Assembleia. E Skaf tem uma rejeição menor que o ex-prefeito.

Em um provável segundo turno, Doria vai precisar trabalhar muito, principalmente na capital, para reverter sua imagem desgastada por abandonar a prefeitura mesmo se comprometendo a ficar os 4 anos durante a eleição de 2016.

Mas o que chamou atenção na pesquisa do Paraná Pesquisas é a disputa para o Senado Federal. Sem o apresentador José Luiz Datena, Covas Neto (Podemos) e Major Olimpio (PSL) subiram e encostaram na segunda colocada, Marta Suplicy (MDB). Eduardo Suplicy assumiu a liderança disparada. Lembrando que o eleitor vai votar duas vezes para senador. Ou seja, vai ter mais votos que eleitor e torna mais difícil prevê os vencedores.

Mara Gabrilli e Joice Hasselmann (caso confirme candidatura ao cargo) podem arrancar no sprint final e surpreender.

Ciro Gomes e a usina de dejetos

Ciro Gomes já tinha desistido até da política não disputando cargos em 2010 e 2014, quando no primeiro ano foi preterido por Eduardo Campos preferindo apoiar Dilma Rousseff para presidente. Em 2015, o ex-ministro, prefeito e governador foi trabalhar no setor privado na construção da ferrovia transnordestina quando apareceu o convite de Carlos Lupi para tentar pela terceira vez chegar na presidência da República.

Claro que Ciro não pensou duas vezes. É a última chance do líder do clã dos Gomes e veio no momento em declínio do lulismo com o impeachment de Dilma e problemas jurídicos de Lula. A aposta de Ciro Gomes era ser o discípulo e sucessor de Lula. O problema é que o ex-presidente não confia em Ciro ao ponto de apostar nele uma candidatura presidencial e, assim como em 2010, o relegou em 2018.

Conformado que não teria o apoio petista no primeiro turno, Ciro apostou suas fichas em uma frente de esquerda (PDT, PSB, PCdoB) sem o PT. Mas sabendo que não bastaria só chamar o presidente Temer de “golpista”, PMDB de “quadrilheira” e falando em revogar suas reformas que chegará ao segundo turno, agora buscar uma flexibilidade no discurso e plano de governo para atrair partidos do blocão – Democratas, PRB, PP, PR, Solidariedade – alguns deles que faziam oposição ao governo PT e apoiaram em massa o impeachment que Ciro chama de “golpe”.

Mas Ciro Gomes é especialista em chutar o leite que a vaca ordenhou. Ciro Gomes é um fenômeno da natureza que mesmo tudo conspirando a seu favor consegue estragar tudo ao abrir a boca. Mesmo que ele tenha razão ao dizer que o Ministério Público está abusando de suas prerrogativas legais, um presidenciável não pode chamar uma autoridade de outro poder como ele se referiu e pior ainda afirmar que vai “cortar as asinhas’ em tom de ameaça. Ciro é a personificação do deixa que o tempo resolve. E nem esperou a campanha oficial começar para abrir sua tradicional usina de dejetos verbais que nem o João Santana neutralizaria com seu mundo encantado da TV e desconstrução de adversários.

PS: Ciro ainda deu o azar de ser uma promotora o alvo de sua ira verbal…

Bolsonaro x Sônia Racy (caiu na armadilha)

O presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) lidera todas as pesquisas para presidente, sem o nome de Lula (PT), ele não é bem visto pela grande imprensa que o tenta atingir de todas as formas com matérias e notas carregadas na tinta. A última polêmica de Bolsonaro vs imprensa é envolvendo a jornalista Sônia Racy. Racy divulgou no Estado São Paulo uma nota que diz que Bolsonaro teria respondido a quem perguntou como conheceu seu conselheiro econômico Paulo Guedes: “como se chega em mulher gostosa tentando até pegar”.

Obviamente que o deputado não gostou e a frase é muito de mau gosto mesmo (para ficar no mínimo). Bolsonaro ligou para Sônia e questionou sua informação pressionando que ela contasse suas fontes da nota. Por sua vez, a jornalista divulgou o áudio da conversa e o teor é muito ruim para a imagem de Jair Bolsonaro.

Fora essa dele querer saber a fonte da jornalista que ela não tem a obrigação de revelar, Bolsonaro diz no vídeo que responde a matéria com todas as letras que Sônia Racy é empregada de João Doria e do PSDB, por ser apresentadora do programa Show Business desde 2016, substituindo Doria ao deixar a apresentação do programa para ser candidato a prefeito de São Paulo.

Como resposta, a jornalista colocou uma imagem de seu contrato com o Grupo Bandeirantes (programa é exibido na TV Bandeirantes) anexado ao áudio da conversa que teve com o candidato.

Se tivesse ficado só na nota da jornalista e uma resposta mais moderada, certamente o estrago seria menos danoso a Jair Bolsonaro. Ficaria sendo mais uma das notícias envolvendo seu nome nos arquivos da grande imprensa. Ao confrontar a jornalista como fez ampliou a polêmica fazendo ganhar destaque ainda maior. O ponto fraco de Bolsonaro nas pesquisas é o eleitorado feminino, justamente o maior do Brasil. A suposta declaração de que chegou em Paulo Guedes como “se chega em uma gostosa” ganha verossimilidade com o passado de Bolsonaro e ameaçando a jornalista (de processo) caso publicasse a notícia confirmando a imagem de autoritário.

A estratégia

A estratégia de Paulo Teixeira, Paulo Pimenta e Wadih Damous é clara ao provocar esse impasse e jogo de liminares solta ou não solta Lula. É simples: Objetivo não é a liberdade do ex-presidente, até porque é difícil acontecer, mas provocar um fato novo e reforçar a narrativa de prisão política, perseguição, lawfare.

Tudo foi calculado. Dia, o plantão do desembargador “certo”, a mobilização de políticos do partido e aliados, da militância na rede e nas ruas.

PT sabe que o TSE não vai deferir o registro da candidatura de Lula, mas sabe que não pode lançar o substituto do nada. É preciso criar uma bolha em torno do escolhido que faça o eleitor lulista fiel imediatamente associar o candidato substituto ao Lula.

O petismo não aguenta ficar mais tempo sem o Estado – sindicatos-amigos perderam a boquinha do imposto sindical obrigatório complicando a situação – e não dispensa meios para vencer a eleição, mesmo que os meios usados esgarcem o tecido institucional já esgarçado. E o PT conta com membros do Judiciário colocados lá pelos governos petistas, como o desembargador Rogério Favreto. A eleição está chegando e não há tempo a perder.