Marina fez o que Alckmin ainda não fez: encarou Bolsonaro

Segundo debate presidencial mostrou uma dinâmica interessante para os candidatos ficarem frente a frente, mas poucos aproveitaram a oportunidade de confrontar o adversário. Por isso, acho que o problema dos debates não são os formatos, mas os candidatos mais preocupados em fazer propaganda de propostas muitas vezes vazias do que confrontar os adversários.

Apenas no final Marina Silva, aproveitando uma pergunta de Jair Bolosnaro sobre armas de fogo, usou a ferramenta disponível pela RedeTV para questionar a fala do candidato de que “mulheres tem ganhar menos que homens mesmo”, fazendo Bolsonaro perder a tranquilidade que vem desde o primeiro debate e respondendo para Marina “você não sabe o que uma mãe sente quando seu filho se entrega às drogas” por a candidata defender plebiscitos sobre descriminalização de drogas e aborto. Marina retrucou dizendo que o Estado é laico. Sem mais o direito a palavra, Bolsonaro disse para ela ler o apóstolo Paulo.

Não acho que o duelo atraiu voto para Marina ou tirou voto de Bolsonaro, ou vice-versa. Mas foi péssimo para Bolsonaro na conta simples da busca dele por voto de indecisos e, principalmente, pelo voto feminino, categoria que ele tem dificuldade. Não pegou bem ele dizer que Marina não sabe o que é ser mãe.

Marina fez o que Geraldo Alckmin não teve coragem de fazer, de ir para o embate para tentar tirar votos de Bolsonaro. Se estratégia de Alckmin for atacar Bolsonaro apenas no horário eleitoral, pode ser suicida.

Ciro Gomes foi bem. Guilherme Boulos, de novo, fez o dever de casa e falou para o seu público muito bem. Alvaro Dias melhorou bastante em relação ao debate anterior. Henrique Meireles tentou, assim como Marina, desafiar Bolsonaro sem o mesmo sucesso. Cabo Daciolo, a fábrica de memes, deu outro espetáculo e deve somar mais uns pontinhos nas pesquisas.

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Lula é o chefe do tabuleiro eleitoral

Nova rodada da pesquisa XP/Ipespe mostra que a tendência de migração de votos de Lula para Haddad começa acelerar e o atual vice que vai ser alçado como titular da chapa do PT encosta no trio Alckmin, Ciro e Marina. Pesquisa anterior já mostrava o ex-prefeito com mais de um dígito quando seu nome é associado diretamente ao de Lula aos pesquisados.

No cenário que Fernando Haddad é apresentado sendo “o candidato de Lula”, ele chega a 15%, bem a frente dos 9% de Marina Silva e Geraldo Alckmin, dos 7% de Ciro Gomes e 6% do Alvaro Dias. Só perder para Jair Bolsonaro e seus 21%. Mesmo com Haddad sem ser associado a Lula, o petista não vai mal. Fica colado em Alckmin e Ciro e não muito longe de Marina.

Em uma eleição de tiro curto e pesquisas não mostrando muita variação, quem está na frente leva vantagem. Já aconteceu o primeiro debate, na BAND. Hoje tem o segundo debate, na REDETV. No dia 31 começa o horário eleitoral da TV. A eleição está sendo pautada por Lula direto de uma sala da Polícia Federal. É ele que dita a imprensa impondo narrativas, dita o caminho que partido vai seguir e a hora de tirar o balão de ensaio que é a sua fake candidatura e (des)articulando alianças partidárias.

Lula articulou esvaziamento da candidatura de Ciro tirando o PSB dele e articulou até para o “centrão” ir para a chapa de Alckmin, porque sabe que não vai ter espaço para duas candidaturas de direita ou esquerda no segundo turno. A ideia é forçar a continuidade da polarização PSDB vs PT. Só tem um obstáculo para o Mainstream: creio que a candidatura de Bolsonaro dificilmente desidratará, não como o analistas políticos estão apostando.

Os principais cenários da pesquisa XP/Ipespe

Candidatura da Lava Jato

No debate da Band, na quinta passada, Alvaro Dias (Podemos) bateu, até demais, na tecla anticorrupção, no lema de sua campanha “refundar a República” e falando que convidaria Sérgio Moro para chefiar o Ministério da Justiça. E o nome do candidato foi muito procurado nas buscas do Twitter e Google pela galhofa dos internautas comparando o candidato com personagem Coringa do filme Batman, mas também por curiosidade daquele que mais falou do tema corrupção.

Alvaro Dias pode aglutinar o voto do pessoal antissistema que é um contingente muito grande fruto dos escândalos de corrupção das últimas décadas e uma campanha fortíssima antipolítica de membros do Ministério Público. O candidato do Podemos tem justamente duas características que pesquisas qualitativas apontam: renovação com experiência.

Apesar de já na casa dos 70 anos de idade, já foi governador (Paraná – 1987-1990), de está em seu quarto mandato de senador e trocar de partido constantemente, Alvaro Dias nunca foi próximo do establishment político de Brasília. Ele já foi até expulso do PSDB por ter apoiado uma CPI para apurar denúncia de corrupção no governo de FHC.

Pesquisa Real Time Big Data realizada alguns dias depois do debate Band, Alvaro Dias aparece empatado com Fernando Haddad (PT), com 6% das intenções de voto, atrás de Ciro Gomes (PDT), 8%, Geraldo Alckmin (PSDB), 9%, Marina Silva (Rede), 11%. O líder é Jair Bolsonaro (PSL), com 21%. Com o nome de Lula, o ex-presidente lidera com 29%. Lula também lidera no quesito rejeição com 54%, seguido por Bolsonaro (51%). Alvaro Dias tem, segundo essa mesma pesquisa, a menor rejeição: 36%.

Tudo embolado e indefinido. Com poucos segundos no horário eleitoral vai explorar que não fez aliança com partidos por tempo de TV e vai prometer não lotear a administração pública, o que é um dos principais desejos da população no ovo governo.

Se falta um outsider na eleição depois que Luciano Huck e Joaquim Barbosa não tocaram para frente uma candidatura de fora do sistema, um inside pode representar a “Candidatura da Lava Jato”, já que a de Bolsonaro não entusiasma muito procuradores pelo radicalismo em alguns temas sensíveis.

Casta da Toga

A matéria primorosa do jornal Folha de São Paulo neste domingo, 12, sobre o Judiciário sendo o único dos Poderes da República a furar o teto de gasto imposto pela Emenda Constitucional 95, de 2016. É o jornalismo clássico – e bom – dando mostras que ainda respira. O jornalismo prestativo à sociedade.

Na matéria, o desprestigiado Legislativo e o Executivo cumprem a regra. Por exemplo, achincalhado pela opinião pública e pela imprensa, o Legislativo cumpre o teto em quase 7%; Poder Executivo em quase 2%.

O brasileiro elegeu os poderes Executivo e Legislativo como o grande mal do Brasil. Há razões para tanto fastio, desencanto, revolta e desejo de mudança. Todavia, tudo é consequência de sintomas de disfunções que podem ser corrigidas com reformas cirúrgicas e bem feitas. O grande problema do Brasil está no terceiro poder: Judiciário. Lá é que se encontra a âncora pesada impedindo o navio de navegar para um mar mais calmo.

Não é de agora que o Judiciário atrapalha o desenvolvimento do país, mas piorou muito a partir em que procuradores e juízes viraram pop-stars nas redes sociais. O Poder Judiciário passou a palpitar como devem agir os Poderes Executivo e Legislativo em muitos casos passando por cima de decisões que cabem exclusivamente a últimos dois interferindo e quebrando a separação de poderes, quando não atentando contra o Estado de Direito com falas ou decisões em nome de um suposto combate à corrupção.

O pessoal de toga não tem a mínima vergonha de protestar na defesa de penduricalhos que consomem rios de dinheiro em um país miserável com pessoas dormindo em viadutos e uma crise que levou a uma fila gigante de desempregados. Pior: mesmo ganhando muito bem e acima da média da população, eles querem mais. Se sentem injustiçados por não ter aumento no salário – 30 mil reais fora auxílio-moradia, auxílio-paletó, auxílio disso e daquilo – desde 2015.

O maior orçamento do Judiciário brasileiro é a Justiça do Trabalho, são 17,5 bi/ano em um órgão que só existe em países “exóticos” como o Brasil. A média salarial de um magistrado na JT em 2016 foi de quase 40 mil. É uma aberração injustificável. E os ministros do Supremo Tribunal Federal, que deveriam dar o exemplo, propõem aumentar os próprios salários em “modestíssimos 16%“, o que levou o Ministério Público Federal a aprovar aumento semelhante.

Se o Congresso ou presidente Michel Temer não vetar, esse generoso aumento fazer “efeito cascata” generalizado fazendo mais pressão sob as contas públicas e o arrocho sobrando para você, caro contribuinte, principalmente o mais pobre. O brasileiro pagador de imposto vive para sustentar castas de privilégios, poderes ineficientes, perdulários e, às vezes, corruptos. E a pior está no Poder Judiciário.

Primeiro debate presidencial (BAND)

Aconteceu o tradicional primeiro debate dos candidatos a presidente, sempre na TV Bandeirantes. O primeiro debate indica tendência para o início da campanha.

Resumão

Jair Bolsonaro está jogando na retranca, tentando segura o placar e consolidar o eleitorado que se mostra fiel a ele; Geraldo Alckmin vestiu a camisa da política sem medo de ser feliz e tentar   impor pela experiência de quatro mandatos no governo do maior estado do Brasil; Marina Silva preferiu estrategicamente confrontar Alckmin no lugar de Bolsonaro, de olho em uma possível campanha para desidratar ela e por saber que suas chances de vitórias são maiores no segundo turno contra Bolsonaro, pela alta rejeição do deputado; Ciro Gomes tentou imprimir um tom mais moderado sem deixar de mirar no eleitorado de centro-esquerda.

Destaque

Guilherme Boulos foi o que melhor soube aproveitar a oportunidade de se mostrar ao público mirando o eleitorado de Lula; Cabo Daciolo é tendência e passou a ser conhecido – mal ou bem pouco importa, conseguiu ser “visualizado” pelos 500 mil eleitores que votaram em Levy Fidelix depois do “aparelho excretor não reproduz”, em 2014.

Perdedor

A estratégia do PT, de peitar a lei e a Justiça levando a candidatura Lula até as últimas consequências. Fora do debate por Lula está em reclusão cumprindo pena por corrupção e lavagem de dinheiro, o partido insistiu em colocá-lo na marra ou mandar um representante para o debate, mas não foi atendido por não ter respaldo na lei uma coisa nem outra. Fora Boulos mandar “boa noite” protestando pela exclusão do nome do ex-presidente no debate e uma menção e outra aos governos petistas em quase três horas, o PT foi esquecido e Lula ignorado. Se continuar assim, o próprio PT facilitará a tarefa dos adversários.

Análise individual

Jair Bolsonaro (PSL) levava o debate em uma zona de conforto até Ciro puxar o assunto da “pílula do câncer”, em que Bolsonaro foi um dos autores de um PL tornando a fosfoetanolamina lei, o que desestabilizou o candidato. Bolsonaro mostrou nervosismo no início e tranquilidade no decorrer do debate. Verdade que os adversários não foram muito em cima dele em temas como racismo e homofobia, falta de experiência em cargos de administração e controvérsias nos seus 27 anos de Parlamento. Tirando Boulos, que Bolsonaro não quis muita conversa até pedir um direito resposta, o único do debate, sobre um suposto enriquecimento de sua família na política. Para quem acha que Bolsonaro vai perder votos nos debates, muito difícil ser por esse.

Marina Silva (Rede Sustentabilidade) não é boa de debates justificando sua perda de gás na reta final das eleições. Explorou demais sua inspiradora e difícil infância e adolescência. Marina passa impressão que é a candidata para transformar o Brasil no País das Maravilhas de Alice e que vai governar com apoio do Saci Pererê, Curupira, Chapeuzinho Vermelho e o Lenhador contra os lobos mau da “velha política”.

Ciro Gomes (PDT) por sua vez mostrou propostas, como ajudar os inadimplentes a limpar o nome no SPC sem entrar em muito detalhe. Brilhou ao soltar “custo da democracia” ironizando a presença de Daciolo no debate após levar um susto – literalmente (eternizado nos memes) – quando o candidato disse que ele era do Foro de São Paulo, uma organização criada para “transformar a América da Sul em uma grande URSAL – União das Repúblicas Socialistas da América Latina”. Bateu nos privilégios dos políticos e do Judiciário, inclusive lembrando que Moro faz uso do auxílio-moradia sem precisar – comeu bola ao colocar a mulher do juiz de Curitiba como beneficiária desse penduricalho se confundido com a mulher do juiz Marcelo Bretas. Ciro tenta mostrar que evoluiu, está mais equilibrado emocionalmente e na parte econômica defende reformas, mas criticando as de Temer para tentar seduzir o eleitorado de esquerda. Erra ao querer propor fórmulas mirabolantes e difíceis de explicar.

Geraldo Alckmin (PSDB) e seu jeito calmo tentava passar seriedade e reafirmando que pretende fazer a reforma do Estado para desburocratizar a economia. Não ficou com medo de elogiar a reforma trabalhista do atual governo, não fugiu de perguntas sobre o apoio do “centrão”. Alckmin se mostra o mais preparado politicamente e administrativamente. O seu problema é a sua já sabida falta de carisma e às vezes suas falas muito técnicas para a maior parte do eleitorado. Vai ter que trabalhar muito estrategicamente para driblar a desconfiança de sua candidatura em uma época que a política está em ruínas e ela representando o establishment.

Alvaro Dias (Podemos) ficou o debate todo repetindo que vai “institucionalizar a Lava Jato”, falando de Sérgio Moro e que o vai convidar para Ministro da Justiça. Com um populismo policialesco tenta se viabilizar eleitoralmente explorando o combate contra a corrupção, com chance de fisgar os eleitores antissistema, mas fica limitado ao bater repetidamente na tecla da “Refundação da República”.

Guilherme Boulos (PSOL) tentou polarizar com Bolsonaro no início, ficou meio sumido e tentou surfar na impopularidade do governo de Michel Temer. Não entrando no mérito da ideologia de Boulos, ele fala até que bem e parece que estuda para falar com propriedade dos assuntos que aborda. Lembrou o Lula jovem e a antiga bandeira da ética na política do PT, o que pode entusiasmar muita gente “órfão” do lulismo.

Henrique Meirelles (MDB) inexplicavelmente se aventurou em um habitat completamente fora do seu. Visivelmente perdido e sob ataque por ter sido ministro de Temer, candidato do MDB e por ser banqueiro, Meirelles até se mostra com vontade de trabalhar pelo país agora sendo chefe e não ministro ou presidente do BACEN (Banco Central). Só que esbarra justamente que é melhor em uma função técnica do que um líder político. Pode aprender como funciona durante a campanha, mas será muito difícil evitar que seja a pior votação de um candidato do partido em uma disputa presidencial na qual não participa com candidatura própria desde 1994, com Quércia.

Cabo Daciolo (Patriota) sem dúvida roubou a cena e tirou de Bolsonaro o título de “radical”. Não sei se é tática do candidato do PSL, Daciolo sai candidato pelo partido que Bolsonaro sairia. Animou o debate com seu “culto-show”. Tentado atrair eleitores devotos de Éneas Carneiro, o deputado federal eleito pelo PSOL encampou a bandeira do nacionalismo de Éneas. Aproveitando que Bolsonaro está com um discurso menos agressivo, Daciolo pode até tirar uns votos de Bolsonaro no eleitorado mais radical e fundamentalista religioso que trocaria o capitão pelo cabo.