Ciro Gomes e a usina de dejetos

Ciro Gomes já tinha desistido até da política não disputando cargos em 2010 e 2014, quando no primeiro ano foi preterido por Eduardo Campos preferindo apoiar Dilma Rousseff para presidente. Em 2015, o ex-ministro, prefeito e governador foi trabalhar no setor privado na construção da ferrovia transnordestina quando apareceu o convite de Carlos Lupi para tentar pela terceira vez chegar na presidência da República.

Claro que Ciro não pensou duas vezes. É a última chance do líder do clã dos Gomes e veio no momento em declínio do lulismo com o impeachment de Dilma e problemas jurídicos de Lula. A aposta de Ciro Gomes era ser o discípulo e sucessor de Lula. O problema é que o ex-presidente não confia em Ciro ao ponto de apostar nele uma candidatura presidencial e, assim como em 2010, o relegou em 2018.

Conformado que não teria o apoio petista no primeiro turno, Ciro apostou suas fichas em uma frente de esquerda (PDT, PSB, PCdoB) sem o PT. Mas sabendo que não bastaria só chamar o presidente Temer de “golpista”, PMDB de “quadrilheira” e falando em revogar suas reformas que chegará ao segundo turno, agora buscar uma flexibilidade no discurso e plano de governo para atrair partidos do blocão – Democratas, PRB, PP, PR, Solidariedade – alguns deles que faziam oposição ao governo PT e apoiaram em massa o impeachment que Ciro chama de “golpe”.

Mas Ciro Gomes é especialista em chutar o leite que a vaca ordenhou. Ciro Gomes é um fenômeno da natureza que mesmo tudo conspirando a seu favor consegue estragar tudo ao abrir a boca. Mesmo que ele tenha razão ao dizer que o Ministério Público está abusando de suas prerrogativas legais, um presidenciável não pode chamar uma autoridade de outro poder como ele se referiu e pior ainda afirmar que vai “cortar as asinhas’ em tom de ameaça. Ciro é a personificação do deixa que o tempo resolve. E nem esperou a campanha oficial começar para abrir sua tradicional usina de dejetos verbais que nem o João Santana neutralizaria com seu mundo encantado da TV e desconstrução de adversários.

PS: Ciro ainda deu o azar de ser uma promotora o alvo de sua ira verbal…

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Bolsonaro x Sônia Racy (caiu na armadilha)

O presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) lidera todas as pesquisas para presidente, sem o nome de Lula (PT), ele não é bem visto pela grande imprensa que o tenta atingir de todas as formas com matérias e notas carregadas na tinta. A última polêmica de Bolsonaro vs imprensa é envolvendo a jornalista Sônia Racy. Racy divulgou no Estado São Paulo uma nota que diz que Bolsonaro teria respondido a quem perguntou como conheceu seu conselheiro econômico Paulo Guedes: “como se chega em mulher gostosa tentando até pegar”.

Obviamente que o deputado não gostou e a frase é muito de mau gosto mesmo (para ficar no mínimo). Bolsonaro ligou para Sônia e questionou sua informação pressionando que ela contasse suas fontes da nota. Por sua vez, a jornalista divulgou o áudio da conversa e o teor é muito ruim para a imagem de Jair Bolsonaro.

Fora essa dele querer saber a fonte da jornalista que ela não tem a obrigação de revelar, Bolsonaro diz no vídeo que responde a matéria com todas as letras que Sônia Racy é empregada de João Doria e do PSDB, por ser apresentadora do programa Show Business desde 2016, substituindo Doria ao deixar a apresentação do programa para ser candidato a prefeito de São Paulo.

Como resposta, a jornalista colocou uma imagem de seu contrato com o Grupo Bandeirantes (programa é exibido na TV Bandeirantes) anexado ao áudio da conversa que teve com o candidato.

Se tivesse ficado só na nota da jornalista e uma resposta mais moderada, certamente o estrago seria menos danoso a Jair Bolsonaro. Ficaria sendo mais uma das notícias envolvendo seu nome nos arquivos da grande imprensa. Ao confrontar a jornalista como fez ampliou a polêmica fazendo ganhar destaque ainda maior. O ponto fraco de Bolsonaro nas pesquisas é o eleitorado feminino, justamente o maior do Brasil. A suposta declaração de que chegou em Paulo Guedes como “se chega em uma gostosa” ganha verossimilidade com o passado de Bolsonaro e ameaçando a jornalista (de processo) caso publicasse a notícia confirmando a imagem de autoritário.

França não é africana

França conquistou a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, a segunda de sua história futebolística. Venceu com muitos méritos técnicos, tático e uma pitada de sorte durante a campanha na terra de Putin.

Mas algumas pessoas tentam diminuir o mérito da seleção francesa com a racista analogia de que seria uma “seleção africana”. É racista por negar a cidadania francesa aos jogadores filhos de imigrantes e descendentes de países africanos. Seguindo o raciocínio de quem defende fronteiras abertas, se a Croácia, uma “seleção de brancos”, tivesse sido a campeã, a culpa seria dos negros imigrantes e descendentes. Na ânsia de mandar aquele “lacre” e tentar ideologizar o título da França, essa turma não percebe essas incoerências.

Outro ponto é que a seleção francesa não é de imigrantes ou naturalizados. Apesar de muitos jogadores de origem não francesa no grupo de campeões, apenas 2 dos 23 convocados pelo técnico Didier Deschamps são nascidos em outros países.

Ter jogadores descendentes campeões o Brasil teve de baciada nas 5 conquistas nem por isso não tentam diminuir nossas conquistas. Até porque o imigrante migra para outro país para melhorar de vida ou fugindo de guerras, perseguições do seu país natural. Todos os jogadores com origem africana da França não teriam a menor chance de ganhar a Copa do Mundo se optassem por jogar pelo país de seus descendentes. A seleção da França oferece estrutura e tradição no futebol para os jogadores, o que ainda está longe se ser uma realidade para o futebol africano.

Não adianta levar a discussão sobre imigração para os extremos. A solução de qualquer problema não é levar para os extremos. Não criminalizando e sendo racista com os imigrantes ou criando teorias conspiratórias amalucadas, tampouco abrindo as fronteiras sem um mínimo de controle e sair em defesa da imigração ilegal. Eu não tenho a solução e sei que um debate racional em um ambiente tóxico é impossível.

Globo x Universal

O Grupo Globo foi pesadamente pra cima do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB). Nas últimas semanas uma bombástica matéria do jornal O Globo revelou uma reunião, segundo o jornal “reunião secreta”, que mostra Crivella prometendo facilidades para líderes religiosos da sua religião. Realmente, a fala de Crivella, na gravação, não é republicana e não é compatível com o cargo que ocupa que foi colocado lá pela maioria da população do Rio, não apenas pelos evangélicos ou pelo “tio” Edir Macedo.

Feita essa ressalva no parágrafo acima, o conglomerado de mídia da família Marinho já tinha usado todo seu aparato midiático para barrar a vitória do bispo licenciado da Universal, que controla a principal concorrente da TV Globo, a Record, inclusive tentando impulsionar a candidatura do adversário do Crivella, Marcelo Freixo (PSOL). Desde a eleição passando pelo anúncio da vitória de Crivella nas urnas e a posse a oposição global não deu trégua ao prefeito, bem diferente da relação com o antecessor Eduardo Paes e, em nível estadual, com Sérgio Cabral, uma relação muito próxima entre o poder público carioca e fluminense com o Grupo Globo.

Mas o adversário do Grupo Globo é a Universal e o avanço neopentecostal na sociedade brasileira, que contraria a agenda progressista da TV Globo, sendo Crivella apenas um representante que ousou cortar verbas gordas de publicidade da prefeitura que fluía para a conta bancária do Grupo Globo – detalhe que o corte deixou o repasse equilibrado entre as TVs e jornais e a Record continuou recebendo menos que a Globo.

Marcelo Crivella tentou ser prefeito e até governador do Rio e sempre parava na rejeição que seu nome tinha por ser bispo da Universal. Na campanha de 2016 tentou contornar essa rejeição prometendo não misturar seu governo na segunda maior cidade do Brasil – ex-capital do Império e da República e cidade mais conhecida do país no mundo – com sua religião. Falhou na promessa e viu sua rejeição pessoal voltar com força e junto com erros de comunicação e gestão afetou a popularidade de seu governo. Um episódio marcou negativamente o governo Crivella, o corte da subvenção do carnaval¹, que apesar de necessário, deixou o prefeito como “traidor” já que escolas de samba o apoiaram na eleição.

Muito provavelmente Crivella só se elegeu² por ter disputado o segundo turno contra Freixo³, um esquerdista radical que se passa por moderado. Apesar do Rio de Janeiro ser majoritariamente de esquerda e eleger figuras deste campo ideológico, o PSOL ainda não conseguiu penetrar com força nos redutos que elegem candidatos ao executivo municipal e estadual, principalmente a Zona Oeste do Rio, que é dominada por milícias e políticos ainda com influência. Por exemplo, Crivella firmou aliança com Anthony Garotinho para chegar nos redutos mais populosos.

O prefeito Crivella vai enfrentar um processo de impeachment na Câmara de Vereadores e um pedido de afastamento que o PSOL entrou no Ministério Público alegando improbidade administrativa e crime eleitoral resultando em crime de responsabilidade. Se o prefeito vai ser deposto depende da força política na Câmara. Improvável que a Justiça afastará o prefeito do Rio de Janeiro (não é cidadezinha do interior com 10 mil pessoas). Se bem que o ativismo judicial e a insensatez estão reinando no país.

Lembrando que o vice-prefeito Fernando Mac Dowell morreu em maio e o impedimento de Crivella provavelmente provocaria a realização de uma eleição suplementar para eleger um prefeito (e vice) tampão. A Justiça Eleitoral precisaria ser acionada para esclarecer a dúvida. Tudo pode acontecer na terra de Estácio de Sá. Se Crivella se segurar na cadeira de prefeito, a guerra só começou.

A estratégia

A estratégia de Paulo Teixeira, Paulo Pimenta e Wadih Damous é clara ao provocar esse impasse e jogo de liminares solta ou não solta Lula. É simples: Objetivo não é a liberdade do ex-presidente, até porque é difícil acontecer, mas provocar um fato novo e reforçar a narrativa de prisão política, perseguição, lawfare.

Tudo foi calculado. Dia, o plantão do desembargador “certo”, a mobilização de políticos do partido e aliados, da militância na rede e nas ruas.

PT sabe que o TSE não vai deferir o registro da candidatura de Lula, mas sabe que não pode lançar o substituto do nada. É preciso criar uma bolha em torno do escolhido que faça o eleitor lulista fiel imediatamente associar o candidato substituto ao Lula.

O petismo não aguenta ficar mais tempo sem o Estado – sindicatos-amigos perderam a boquinha do imposto sindical obrigatório complicando a situação – e não dispensa meios para vencer a eleição, mesmo que os meios usados esgarcem o tecido institucional já esgarçado. E o PT conta com membros do Judiciário colocados lá pelos governos petistas, como o desembargador Rogério Favreto. A eleição está chegando e não há tempo a perder.