A estratégia

A estratégia de Paulo Teixeira, Paulo Pimenta e Wadih Damous é clara ao provocar esse impasse e jogo de liminares solta ou não solta Lula. É simples: Objetivo não é a liberdade do ex-presidente, até porque é difícil acontecer, mas provocar um fato novo e reforçar a narrativa de prisão política, perseguição, lawfare.

Tudo foi calculado. Dia, o plantão do desembargador “certo”, a mobilização de políticos do partido e aliados, da militância na rede e nas ruas.

PT sabe que o TSE não vai deferir o registro da candidatura de Lula, mas sabe que não pode lançar o substituto do nada. É preciso criar uma bolha em torno do escolhido que faça o eleitor lulista fiel imediatamente associar o candidato substituto ao Lula.

O petismo não aguenta ficar mais tempo sem o Estado – sindicatos-amigos perderam a boquinha do imposto sindical obrigatório complicando a situação – e não dispensa meios para vencer a eleição, mesmo que os meios usados esgarcem o tecido institucional já esgarçado. E o PT conta com membros do Judiciário colocados lá pelos governos petistas, como o desembargador Rogério Favreto. A eleição está chegando e não há tempo a perder.

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Impeachment foi bom para o PT

Lula é líder com 30% na nova rodada de pesquisa do Datafolha, mesmo preso por corrupção. Jair Bolsonaro (17%) e Marina Silva (10%) são os adversários mais próximos do petista, mas aparecem bem atrás. Nada menos que 21% dos pesquisados dizem não ter candidato, esse número sobe para 33% sem Lula na disputa e para 34% sem candidato do PT. O impeachment da presidente Dilma Rousseff combinado com a ruína do governo do presidente Michel Temer ressuscitou o Partido Trabalhadores. Para ter uma ideia, Lula chegou a 17% na pesquisa Datafolha de março de 2016, praticamente o último mês do governo Dilma (o processo foi aceito em abril pela Câmara e o Senado a afastou do cargo no início de maio). Antes de Dilma ser afastada, Lula já assumiu a ponta e não saiu mais dela chegando a dobrar os 17% e quase chegando a 40%.

Muitos fatores levam a esses dados e os principais são a crise econômica que não tem fim e a crise ética na política. A popularidade do governo Temer bateu os 82% de rejeição, só 3% o aprovam. É pior que Sarney, Collor e Dilma. Essa rejeição vinha caindo depois do escândalo JBS e as denúncias criminais contra o presidente congeladas pela Câmara, até a “revolta dos caminhoneiros” e a demora do governo em fazer alguma coisa e quando fez foi desastroso, com tabelamento de preço, subsídio agravando o já complicado quadro fiscal no diesel e reserva de mercado. Teve até “Fiscais do Sarney” 2.

Toda a crise econômica começou em 2014 e teve seu agravamento em 2015 e 2016, mas o retrato de momento conta mais do que o passado recente na memória do brasileiro.

Com o impeachment e as denúncias diariamente na imprensa contra o atual presidente, contra o PSDB que era até o impeachment o principal partido de oposição, a memória de um país com inflação controlada, situação de pleno emprego, saindo do mapa da fome da FAO, crescimento de 7% no último ano de Lula para o caos de hoje prevalece a ideia de que a troca de governo foi ruim. Mesmo o TSE impedido a candidatura de Lula, ele dita o ritmo da eleição e a chance de fazer o eleito. É só transferir metade desses 30% para o candidato que escolher e o levar ao segundo turno. E, sim, a capacidade de transferência de votos do ex-presidente ainda é grande.

A criminalização da política também colaborou para o ressurgimento de Lula. Ao nivelar toda a classe política no degrau da corrupção, juiz de primeira instância anulando nomeação de ministro, derrubando decreto presidencial, vazamentos de investigação para imprensa, quem saiu perdendo foi o centro – não o corrupto e fisiológico “centrão” -, o centro político que fez a transição pacífica do regime militar para a redemocratização.

PT encurralado

Gleisi Hoffmann pode ser uma espécie de anticandidata do PT na eleição presidencial

O Partido dos Trabalhadores vive um dilema como nunca viveu em seus quase 40 anos de existência. A dependência ao Lula chegou ao limite do limite, sem ter para onde correr. PT chegou ao um beco sem saída e seus dirigentes vão ter que queimar todos os neurônios para uma saída ao menos digna para o partido que ficou mais tempo no poder em um período democrático.

Matéria do jornal O Globo diz que o PT discute se anuncia já um nome como pré-candidato a vice-presidente de Lula. Só que esse anuncio antecipado causa consequências gravíssimas. 1) Isola ainda mais o partido e empurra de vez antigos aliados para outros candidatos de esquerda e centro-esquerda. 2) “Prende” o partido na sala de Estado-maior junto com Lula em Curitiba, porque o PT quer levar a ferro e fogo a candidatura de Lula mesmo preso e sabendo que 99% (sempre tem aquele 1% maroto “jeitinho brasileiro”) de chance da candidatura ser impugnada pelo TSE.

Escolher o vice de Lula antecipadamente é confirmar que o PT não pretende abrir mão tanto dele como ser cabeça de chapa inviabilizando qualquer acordo de aliança para ter o vice em outra chapa e libera aliados históricos como PCdoB e PSB irem para chapa de Ciro Gomes (PDT). Também comenta-se que outra saída seria uma anticandidatura para “denunciar” a “perseguição” ao Lula na eleição, a presidente do partido Gleisi Hoffmann seria essa anticandidata de protesto. Há uma outra saída que seria a saída extrema que é o PT boicotar a eleição. Essas duas últimas seriam suicídio político.

Anunciar um “vice” como disfarce do substituto de Lula é a opção menos desastrosa. Essa pessoa representaria Lula tanto agora na pré-campanha e, caso ele não consiga deixar a prisão quando começar a campanha, o inscrever como titular da chapa petista já como titular ou como vice mesmo. Seria um caso inédito do nº 2 ocupar o lugar do nº 1 durante a campanha eleitoral pelo menos até que o TSE diga definitivamente que Lula não pode ser candidato pela Lei da Ficha Limpa.

Mas há um outro problema. Quem? Jaques Wagner? Fernando Haddad? Celso Amorim?

PT vive um dilema como nunca viveu e não vejo outra saída fora as expostas acima.

Vicente Cândido (PT) quer fechar TV Justiça

Deputado Federal Vicente Cândido (PT/SP) quer proibir a TV Justiça de transmitir sessões do STF e qualquer outro tribunal superior, ao vivo ou editadas, o que seria o fim da televisão criada em 2002 com o propósito de transparência absoluta do Judiciário brasileiro. Se virar uma TV apenas noticiosa perde o sentido de existir, não faz sentido bancar a estrutura da emissora do Poder Judiciário com dinheiro público sendo proibida mostrar atividades inerentes a ele.

O projeto em questão é de 2013, ou seja, no auge do julgamento do mensalão petista. Com a negativa dos ministros do STF em negar o habeas corpus ao ex-presidente Lula, o PT está querendo acelerar a tramitação e aprovar uma lei da mordaça para impedir que a população acompanhem julgamentos que decidem o rumo do país. As justificativas do Vicente Cândido – muito próximo ao presidente afastado da CBF e banido pela FIFA do futebol Marco Polo Del Nero – para esse projeto são cínicas.

Vamos as principais razões para o PL 7004/2013:

“A maior “transparência” implica muitas vezes cenas de constrangimento, protagonizadas pelos ministros em Plenário.”

Concordo neste ponto e as discussões acaloradas e muitas vezes brigas entre ministros, mais recentemente entre Gilmar Mendes e Luis Roberto Barroso, até que justificariam tal projeto. Só que esconder que o tribunal está dividido e que há ministros que não se suportam, não é a solução.

“Na verdade, as entranhas da Justiça é que estão sendo mostradas com sensacionalismo exacerbado por parte de alguns ministros em particular.”

Na verdade, as estranhas da Justiça precisam ser mostradas ou aí sim o total descrédito da população na Justiça brasileira estaria completo. Não é saudável esconder como um julgamento acontece e só mostrar os votos e o resultado no Diário Oficial. Se há desconfiança em ministros com votos longos transmitidos ao vivo, imagine a desconfiança sem esse acompanhamento em tempo real.

“Basta isso para que tenhamos uma espécie de desmoralização da nossa Corte Suprema.”

Ela já está desmoralizada e não é por causa de sessões transmitidas ao vivo pela TV Justiça.

“Nesse quadro, a melhor contribuição que se pode dar atualmente é impedir que as transmissões sejam ao vivo ou mesmo editadas.”

Aqui fica claro o verdadeiro propósito do deputado com esse projeto de lei. Censura. A ideia não é só impedir a espetacularização e o desgaste do tribunal, mas sim fechar as decisões tornando-as público apenas nos autos dos processos e muito depois de decidido. É tirar os ministros da pressão popular que sofrem atualmente e deixar mais fácil arranjos políticos de bastidor.

Bom lembrar que Vicente Cândido é o mesmo que propôs na reforma política de 2017 a “Emenda Lula”, que aumentaria até 8 meses a proibição de prisão de candidatos em ano eleitoral. Depois de forte repercussão negativa, o próprio Cândido retirou a emenda da reforma.

O detergente para política e derivados é transparência. Quanto mais, melhor. Esconder julgamentos de tribunais superiores seria um retrocesso brutal na busca por instituições fortes na qual só se chega lá com máximo de transparência, coerência nas decisões e pulso firme tanto para não se temer poderosos, quanto para não ter medo da reação popular.

O PL 7004/2013 é tão ruim como perigoso.

Capos do PT

Na longa entrevista de José Dirceu para Folha, o todo poderoso do PT falou da experiência da prisão, de arrependimento, disse que sua cada vez mais próxima volta para prisão é política e falou de futuro.

Dirceu disse que o PT não pode abrir mão da candidatura de Lula agora ou seria um haraquiri (suicídio) e o partido seria dividido em 3, 4 facções. Lula é elo que une as correntes petistas. Por outro lado, o cacique petista também deixou escapar que Lula dará seu ultimato em 60 dias. Provavelmente, será o anúncio de quem substituirá o ex-presidente na eleição, que esta pessoa, segundo Dirceu, conseguirá 14% a 18% do eleitorado lulista.

Dirceu também deixou nas entrelinhas que o momento é de pegar em armas e só assim para resistir a golpes. Força de expressão para manter a militância ativa ou ele fala em luta armada no seu tempo de guerrilheiro?

Dirceu também disse na entrevista que suspeita que Antonio Palocci possa envolver o sistema financeiro e a TV Globo em uma possível delação premiada.

Zé Dirceu foi o cérebro da eleição de Lula e o plano de poder do PT, ao assumir o partido em meados da década 1990. Dirceu e Lula são os “capos” do PT. Ninguém no partido dá um passo sem consultar um ou outro, quando não os dois. Dirceu é passional, revolucionário, sonhador da revolução via derramamento de sangue. Lula é o oposto: estrategista e conciliador. Suas decisões são sempre pensando em tirar o máximo de vantagem política possível. Não é por acaso que resistiu aos que queriam que ele resistisse e não se entregasse.

Dirceu e Lula comandarão o PT da prisão. Sem Lula, nem Dirceu, o PT se desintegra.