Eleição 2018 remember 2014

Chuvas de ações deixam a eleição presidencial com futuro incerto. Neste momento, de paixões exacerbadas que tornam a visão turva, você falar em lei será acusado de sacrilégio. Mas existe lei e somente ela é a porta de saída de confusões provocadas pelos homens.

O PT entrou com uma ação no TSE pedindo a cassação da candidatura de Jair Bolsonaro e que o deixe inelegível por 8 anos por abuso de poder econômico e doação de empresas (vedada pelo STF em 2015) via caixa 2. A Procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu para Polícia Federal investigar as empresas que a Folha de São Paulo diz que foram contratadas para impulsionar mensagens em massa no Whatsapp. Uma terceira ação protocolada pelo PDT, partido do terceiro colocado Ciro Gomes, no primeiro turno, pede uma nova votação sem Bolsonaro.

Das três ações a do PDT pode descartar que é sem o menor fundamento jurídico e de lógica. Já a ação do PT e o inquérito da PF renderão muitas manchetes e já adianto que não tem a menor chance de a votação do dia 28 não acontecer ou acontecer sem Jair Bolsonaro.

Porque é impossível julgar uma ação no TSE faltando uma semana para o segundo turno. O ministro-corregedor Jorge Mussi aceitou com ressalvas o pedido do PT e deu os 5 dias de prazo para o denunciado se defender. Depois, o ministro decidirá se precisa de mais tempo para colher provas para ao final da coleta de provas despachar a ação e a presidente Rosa Weber marcar a data do julgamento. Não tem prazo. É o mesmo trâmite na ação que pedia a cassação da chapa de Dilma Rousseff e Michel Temer, pelo mesmo motivo da ação do PT: abuso de poder econômico na eleição. Aécio Neves entrou contestando a chapa vencedora de 2014 após a diplomação dos eleitos, em dezembro de 2014, só em junho de 2017 que o tribunal julgou e por 4 a 3 inocentou Dilma e Temer.

A acusação que pesa contra o candidato do PSL é de que empresários contrataram empresas de marketing digital para impulsionar menagens em massa contra o PT. O que o tribunal eleitoral vai investigar é se (1) houve de fato o que a Folha trouxe, (2) comprovando a denúncia se há conexão com a campanha do candidato Bolsonaro (3) e se interferiu no curso da eleição. Atenção: os itens 2 e 3 são os principais para o julgamento do TSE.

Comprovada a denúncia e comprovado que o candidato sabia – por partícipe da trama ou por omissão -, a lei determina a cassação do registro da candidatura e, caso os componentes já diplomados, uma nova eleição é convocada independente se os eleitos já tomaram posse. Os perdedores – presidente e vice – do segundo turno não assumem no lugar dos cassados.

O jornalista Reinaldo Azevedo, que tem trânsito nos corredores do STF, disse no RedeTV News que ministros acham que essa ação é o “freio” que as instituições precisavam em um governo Bolsonaro. Dependendo de como ele governará, respeitando a Constituição e não incitando guerras contra grupos opositores ou/e a imprensa, ela pode dormir na gaveta do TSE por todo mandato.

Caso contrário, o julgamento aconteceria antes da metade do mandato para, em caso de condenação, realizar eleição direta. Na vacância da presidência e da vice-presidência nos dois primeiros anos de mandato a Constituição determina realização de eleição direta e nos dois anos finais eleição indireta no Congresso Nacional.

Independente do que acontecer, com a redemocratização foram 6 eleições presidenciais sem contestação do resultado. Vamos para a segunda que o seu resultado será decidido nos tribunais.

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Nordestino não é submisso, é grato

Matéria muito boa da Folha de S.Paulo mostra que realmente Lula deixou de ser uma pessoa e virou uma ideia, um Antonio Conselheiro da era moderna. Você pode questionar se é errado – e até um crime contra a humanidade – políticos usufruírem da ignorância e pobreza de um povo inculto e tem obrigação de questionar os 8 anos que Lula ficou na presidência mais 5 do PT não resolvendo esse grave problema. Pelo contrário, se aproveitou para cativar um eleitorado fiel se tornando um mártir para essa gente.

Mas é preciso ver também o outro lado. Sim, tem um outro lado. O lado do descaso dos governantes por anos e anos com essa população sofrida principalmente do Nordeste brasileiro, que teve uma melhora de vida com Lula e seus programas assistenciais. Uma melhora de vida saindo do extremo de não ter nem o que comer e não ter como alimentar os filhos para ter comida, água, luz, uma geladeira para guardar o pouco que tem e uma televisãozinha para assistir a novela, o jornal e programas de domingo.

A adoração divina de equiparar Lula a Deus por parte dessa população dos rincões do sertão nordestino pode ser fanatismo religioso. Quando, porém, você faz o exercício de empatia e se coloca no lugar dessas pessoas, lá no fundo você entende o motivo. Chame de gratidão ou o que quiser, apenas não negue o fato. O nordestino além de forte para encarar os grandes desafios de sua vida sofrida, ele tem gratidão. Já pensou não ter o básico, de presenciar os filhos dormir com fome e na última década passar a experimentar um pouco de cidadania? Milhões se sentem assim.

O culpado do PT usar essa população eleitoralmente é da nossa elite rastaquera, mesquinha, fútil, preconceituosa, nossa elite só se preocupa em si próprio e o resto que se exploda. E quando falo de elite engloba tudo: elite política, empresarial, financista, high society. Ou de uma elite muito preocupada com questões de gênero, LBGTQ+ e erva verde. Na parte política uma elite que deu de costas para essa população e governou só olhando para Avenida Paulista.

A curiosidade do eleitorado lulista ter Jair Bolsonaro como opção de voto faz todo o sentido quando esse eleitor não é ideológico do Leblon, ele está mais preocupado com questões mais objetivas e palpáveis que afetam a sua vida, como segurança, por exemplo.

Chamar esse eleitor de “curral eleitoral”, de “bovinos”, só mostra que você não passa de um insensível coração de pedra e ressentido que vive numa bolha cercada de preconceitos.

PT ressurgiu pelas mãos da Lava Jato

Primeira pesquisa Datafolha após o registro dos candidatos no TSE mostra um quadro de terra arrasada muito pelo “combate à corrupção” de setores do Judiciário. Um candidato condenado em segunda instância que está preso há quatro meses lidera com quase 40% de intenções de voto e quase vencendo no primeiro turno, além de liderar todas as simulações de segundo turno, o que mostra que esse “combate à corrupção” resultou em uma desconstrução da política.

Uma ala do Judiciário teve êxito na desconstrução de partidos e seus líderes que lideraram o impeachment de Dilma Rousseff. A delação da JBS é o símbolo. Para pegar o atual presidente Michel Temer e o ex-líder da antiga oposição que conseguiu na última presidencial mais de 50 milhões de votos, com benefícios para delatores que estupraram a lógica e revoltou a população. Forjarem provas para incriminar Michel Temer e Aécio Neves, paralisando o governo, fazendo os donos da empresa lucrarem com a bomba explodindo do nada em uma manchete deturpada, paralisando reformas como da Previdência deixando o rombo nas contas públicas cada vez maior para preservar os privilégios dos magistrados até na hora da aposentadoria. O PT e, principalmente, Lula foram os grandes beneficiados dessa pantomina.

Jogaram a política na vala comum da corrupção. Na ânsia de desmantelar um sistema corrompido autoridades do Judiciário saíram caçando políticos indistintamente, como jacobinos, destruindo reputações de políticos e partidos com delações capengas, provas insuficientes, apenas com base em indícios fracos e com excesso de abuso de autoridade, prenderam o grande líder de massa do país em um processo com base em provas por ato de ofício indeterminado pensando que assim liquidariam com sua imagem. O efeito foi o contrário do esperado. Graças a um trabalho intenso por uma rede coordenada na internet, pelo mundo acadêmico, cultural e jornalismo em grande parte dominado pelo PT e de esquerda. Conseguiram desconstruir a prisão de Lula a transformando em uma prisão política para ele não voltar a ser presidente nos braços do povo. Fizeram o mesmo com o processo de impeachment o transformando em “golpe”.

Mas procuradores e juízes ajudaram no projeto petista. Como dito parágrafos acima, uma ala do judiciário apelidada de “Red” tinha esse objetivo de desconstruir o impeachment e recuperar a imagem muito abalada do Partido dos Trabalhadores, que na eleição de 2016 perdeu 400 prefeituras em todo país. Sabotaram o governo Temer o quanto foi possível e ainda sabotam vazando informações sigilosas de investigações para a imprensa, arrastando investigações para sangrar o governo em praça pública e decisões questionáveis constitucionalmente como anulações de indicações para ministros, decretos e o ativismo jurídico de juiz de primeira instância até ministros do STF.

O Mercado está em pânico com a provável volta do PT ao governo, com ou sem Lula, e o dólar voa para mais de 4 reais. O partido já deixou claro que pretende radicalizar na parte econômica e vai governar com amargura contra o Judiciário. A ideia petista é convocar constituinte para reforma política – que não é cabível no ordenamento jurídico -, pretende governar com plebiscitos e referendos sem moderação, mudança nas indicações aos tribunais superiores entregando a missão para conselhos de classe, ou seja, sindicalizar as instituições igual Lula fez com a Procuradoria Geral da República e a inconstitucional lista tríplice que deu em Rodrigo Janot.

Uma vitória do PT em outubro não fechará a fissura que divide a nação desde 2013 como vai agravar podendo levar a conflitos igual na Venezuela, a unidade que D. Pedro II construiu está seriamente ameaçada e a integridade territorial do Brasil pode desaparecer em breve se despedaçando em várias secessões.

A frase célebre de Eduardo Cunha, ao votar no impeachment de Dilma, foi precisa e nunca fez tanto sentido: Que Deus tenha misericórdia desta nação.

Lula atrapalha planos de Ciro Gomes

A articulação que Lula fez direto da superintendência da Polícia Federal do Paraná, de onde está preso, praticamente selou o fim do sonho de Ciro Gomes chegar ao segundo turno da eleição de 2018 e, finalmente, virar presidente do Brasil. Ciro almejou aglutinar o polo progressista da esquerda brasileira em torno de seu projeto nacional-desenvolvimentista ocupando o espaço do PT. Estava claro que Lula não deixaria e faria (fez) de tudo para atrapalhar os planos de seu ministro da integração nacional.

Ajudou o tucano Geraldo Alckmin a levar o apoio do “blocão” chamado de “centrão” – DEM, PRB, PR, PP, SD – ao convencer o velho aliado Waldemar da Costa Neto a desistir da aliança com o PDT e fazer de Josué Alencar o vice-presidente de Ciro ou Alckmin; mandou Gleisi Hoffmann acenar para Manuela D’ávila a possibilidade de ser a vice da chapa petista esfriando o namoro entre PDT e PCdoB; faltava afastar o PSB, o partido usou a candidatura de Marília Arraes, em Pernambuco, e apoio em outros estados para evitar a aliança com quem Lula acredita que vai disputar com o PT quem vai ser o representante da esquerda no segundo turno. Assim, Ciro está isolado e vai para o horário eleitoral com os 33 segundos que o seu partido tem direito, sem densidade e capilaridade partidária.

Tudo foi calculado para sobrevivência política do PT, a um custo de sacrificar o surgimento de novas lideranças mais uma vez. Além da eleição presidencial, o PT reforçou a difícil candidatura de reeleição de Fernando Pimentel, em Minas Gerais, com o PSB, a disputa mais importante nos estados do partido. Para o PSB, não restava outra saída à neutralidade nacional e o acordo com PT nos estados após Joaquim Barbosa refugar e desistir da candidatura, mas é um retrocesso pensando que cinco anos atrás Eduardo Campos rompeu com o petismo para o PSB ter vida própria e romper a polarização PSDB x PT.

Não é a primeira vez. Em 2010, Lula boicotou Ciro o preterindo na sua sucessão e apostou (vitoriosamente) suas fichas em Dilma Rousseff (se arrependeu depois, mas funcionou naquela eleição), que nunca havia disputado cargo eletivo algum na vida. E ainda fez Eduardo Campos matar o desejo de Ciro ser candidato do PSB apoiando Dilma. Mas Ciro vai continuar dizendo que a condenação imposta ao ex-presidente foi injusta para não desagradar uma parte do eleitorado que disputa com o petismo.

‘Candidato fantasma’ do PT

Pesquisa estampada na última edição da Revista Veja mostra o cenário eleitoral sem modificação na véspera do início oficial da corrida eleitoral de 2018. A pesquisa, porém, mostra dois dados importantes e neles que focarei. O primeiro dado é o cenário que tem o candidato sem rosto do PT, indicado e apoiado por Lula. Esse é o cenário mais factível e o que interessa. Este candidato “fantasminha” abocanha 9% e empata tecnicamente com Marina Silva (11%) e Ciro Gomes (7%). Geraldo Alckmin (6%) e Alvaro Dias (4%) dividem o mesmo eleitorado. O principal obstáculo de Alckmin crescer nas pesquisas é o Dias.

A estratégia do Partido dos Trabalhadores é clara e batida: levar a candidatura de Lula até o dia 17 de setembro, ou seja, o ex-presidente faria praticamente toda a campanha, mesmo caso não consiga ser solto até lá. O nome dele continuaria falado e debatido com toda a popularidade que mantém e 30% do eleitorado.

Na hora que o TSE enterrar [PT vai levar a contenda para o STF e empurrar a decisão para mais tarde, mas dificilmente terá êxito] a sua candidatura com base na lei da Ficha Limpa, Lula apontará o dedo e dirá ao seu “rebanho”: Votem [candidato escolhido], que ele é Lula e eu sou ele”.

Se mesmo sem um rosto esse candidato já acumula quase dois dígitos [em outras pesquisas já passa de dois dígitos], a tendência é ele abocanhar no mínimo 15% a 20%, o que muito provavelmente colocaria no segundo turno pela pulverização de votos. O restante se dividiria em Marina, Ciro, branco/nulo/abstenção.

O outro dado importante na pesquisa IDEIA Big Data/Veja é o eleitorado masculino e feminino, é quase uma “guerra dos sexos”. Bolsonaro tem seu eleitorado na maioria absoluta entre os homens, enquanto Marina tem um desempenho melhor entre mulheres. Mas a maioria das mulheres está sem candidato e elas formam mais da metade do eleitorado brasileiro.