A “prensa” em Paulo Guedes e o alerta do establishment a Bolsonaro

sessao congresso

Com 41 votos favoráveis, 16 contrários e 1 abstenção, os atuais senadores aprovaram o reajuste do teto salarial do STF para quase 40 mil reais, com efeito cascata para todo Judiciário e podendo levar os parlamentares a pegar o trenzinho da alegria. A conta desse reajuste que os próprios ministros se auto concederam e foi ratificado pelo Congresso Nacional com anuência do governo pode chegar a 6 bilhões.

Como desculpa alegam que esse aumento não fura a EC 95 (teto de gasto) porque o Judiciário tem um orçamento próprio e esse aumento nos vencimentos de vossas excelências sairá de cortes com o fim do abjeto auxílio-moradia de juízes entre outros penduricalhos.

Mesmo com a promessa do presidente do STF, Dias Toffoli, de colocar em votação a liminar de 2014 em que Luiz Fux autorizou o auxílio-moradia até para juízes com casa na sua jurisdição, o aumento continua sendo um escárnio em um período que a ordem é cortar tudo que for possível e reformas até na Previdência para evitar a completa paralisia do Estado. Mais: é imoral do ponto de vista que amplia o abismo de uma casta para o grosso da população.

Mas já estava tudo combinado entre políticos e juízes/procuradores, inclusive com aqueles que perderam nas urnas e viram uma retaguarda para processos/denúncias que respondem. Só que essa pauta bomba também foi usada de modo pedagógico pelos parlamentares, como um recado ao presidente eleito Jair Bolsonaro e o Ministro da Economia, Paulo Guedes. Guedes falou em “prensa” nos políticos para aprovarem a reforma previdenciária. A resposta não demorou: não assim é que a banda toca.

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Bolsonaro e Haddad no #conexãoreporter

Roberto Cabrini fez uma dupla entrevista com Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL). Na falta de um debate, pela circunstância do atentado contra Bolsonaro que quase lhe tirou a vida, a ideia de um cara a cara indireto foi muito boa.

Foram boas perguntas do Cabrini e boas respostas dos candidatos. Senti o Bolsonaro mais confortável e com respostas mais diretas, sem muita enrolação. Haddad metia o adversário em quase toda resposta – muito pela enorme desvantagem do primeiro turno que não conseguiu diminuir nas pesquisas neste segundo turno – e fugia com respostas genéricas.

Roberto Cabrini, de novo, deu aula de jornalismo, com perguntas pertinentes e desconfortáveis aos entrevistados sem ser prolixo ou roubando protagonismo dos candidatos.

Encerrando o programa deixou a mensagem que agora está nas mãos do povo brasileiro a presidência do Brasil.

“Frente democrática” é salvo-conduto para o PT

O programa eleitoral de Jair Bolsonaro (PSL) levado ao ar na noite de terça-feira praticamente liquida a eleição a favor do capitão da reserva. A campanha de Bolsonaro levou para TV o famoso vídeo do Senador eleito Cid Gomes brigando com militantes do PT, inviabilizando qualquer engajamento mais incisivo de Ciro Gomes na campanha de Fernando Haddad e dinamitando o que restou da “frente pela democracia” que Haddad tanto defende por ser o último fio de esperança para uma improvável virada.

Ciro é contra Bolsonaro e logo após o resultado que mostrou ele fora do segundo turno disse “ele nunca” e se mandou para Europa. O presidente do PDT, Carlos Lupi, defendeu voto crítico ao petista contra Bolsonaro, disse que o partido será oposição independente quem ganhará e ainda lançou o nome de Ciro Gomes para 2022. Ninguém no clã dos Ferreira Gomes e no PDT esquece o que Lula direto da Superintendência da PF de Curitiba fez de tudo para desidratar a candidatura de Ciro, inclusive entregando a cabeça de Marília Arrares em Pernambucano para o PSB não fazer parceria com o PDT. E também queria que Ciro fosse o vice de araque de Lula até o TSE o barrar pela Lei da Ficha Limpa, papel que Fernando Haddad não pensou duas vezes para aceitar.

Petistas falam em “erros” quando o certo é “crimes”, sem fazer uma autocrítica de verdade. Falam em “frente democrática” que não passa de um eufemismo para limpar o nome do partido usando o fator Bolsonaro para Fernando Henrique e Marina Silva, entre outros que o PT passou anos sujando suas reputações pelo projeto de poder, para eles declararem voto no preposto de Lula em nome da democracia. Só que o programa de governo petista para a eleição de 2018 é revanchista e bolivariano, um programa pensando apenas em sustentar a farsa “eleição sem Lula é fraude”. E não é passando o corretivo em alguns pontos polêmicos que vai ficar um plano “em defesa da democracia”.

Mas o programa de Bolsonaro desta terça-feira não ficou só na fala arrasadora de Cid Gomes contra o PT. O programa, assim como outros do candidato no segundo turno, é redondo e bem feito. A apresentadora comparando as propostas dos candidatos parecia a Alemanha fazendo um gol atrás do outro no Brasil na Copa do Mundo de 2014, a Alemanha era as propostas de Bolsonaro. Propostas que convergem com o Brasil conservador e liberal dos últimos anos.

Quando chagou na parte do imposto sindical obrigatório que Haddad fala que vai retornar, foi o ápice. É quase unânime a reprovação desse tipo de contribuição que a reforma trabalhista derrubou e o candidato do PT fala em revogar.

As falas bélicas e abjetas de Bolsonaro no passado mais distante ou recente não podem ser um salvo-conduto para o PT voltar ao poder depois de tudo. As instituições têm ferramentas para colocar contrapesos em um futuro governo de Jair Bolsonaro. E também uma imprensa livre. Colocar na conta de Bolsonaro agressões e até morte que vem ocorrendo desde a eleição do dia 7 e esconder que há agressões contra eleitores dele também não passa de ativismo político-ideológico travestido de jornalismo.

Análise: No ringue dos programas eleitorais, Bolsonaro vence o primeiro round

Tendo alcançado a expressiva marca de 46% dos votos válidos no primeiro turno e 58% das intenções de voto de acordo com a última pesquisa do Datafolha para a disputa do segundo turno, Jair Bolsonaro impõe a seu competidor direto um cenário sombrio. Afinal, de acordo com cálculos elaborados pelo Cepesp/FGV, a probabilidade de Haddad reverter a distância de mais de 15 p.p. observada no primeiro turno é de meros 5%.

Não sendo um cenário já suficientemente sombrio, o reinício do horário eleitoral compele a Haddad um novo revés: a nítida superioridade em termos de eficiência e interlocução com o telespectador por parte do primeiro programa eleitoral da campanha de Jair Bolsonaro.

Dividido em duas partes, a primeira se destaca ao formular um duro e incisivo ataque ao PT, dando continuidade a uma estratégia reconhecidamente bem-sucedida e atestada pela expressiva votação obtida pelo candidato ainda no primeiro turno.

Começa relembrando eventos como a queda do Muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria e marco da presença do comunismo na Europa, enquanto associa ao PT, junto com Fidel Castro, o papel de liderança na organização de uma frente comunista voltada para a doutrinação e domínio político da América Latina. Associa esta frente de esquerda ao atraso de Cuba, a devastidão da Venezuela e a crise no Brasil. Violência, corrupção e desemprego, temas que marcaram forte presença nestas eleições, ganham destaque. A propaganda induz o eleitor a se ver na beira do abismo. A possibilidade de não dar o passo final rumo ao precipício, no entanto, ainda existe. A decisão cabe a si.

Seguindo etapas do roteiro da jornada do herói (tal como descrito por Joseph Campbell em “O Herói de Mil Faces”), o programa aborda o atentado sofrido por Bolsonaro como uma provação traumática cuja árdua superação o leva a uma célebre recompensa: a expressiva votação obtida no primeiro turno.

Entramos, enfim, na segunda parte do programa. A etapa destinada não apenas a apresentá-lo, mas principalmente, humanizá-lo. Os olhos marejados de lágrimas ao falar de sua filha caçula é o principal instrumento desta estratégia. A presença de sua esposa e enteada no discurso visa aproximá-lo do público feminino, procurando amenizar as desastradas falas proferidas tanto pelo próprio candidato quanto por seu vice.

O programa eleitoral de Haddad, por sua vez, é mais fracionado. Inicia explorando os casos de violência associados a polarização política no Brasil, vinculando-os ao discurso agressivo e falas desastradas de Bolsonaro, apresentado como um propagador do ódio e um risco ao estado democrático. Na segunda parte, Haddad é apresentado ao público. São enfatizados sua sólida formação acadêmica, vida pessoal e atuação em cargos públicos, com destaque para sua experiência no Ministério da Educação e na Prefeitura de São Paulo.

Posteriormente, o programa volta a reforçar sua candidatura como alternativa democrática. E por fim, apresenta brevemente suas propostas de governo, com ênfase para a geração de empregos, aumento do salário mínimo, investimentos públicos e educação.

Ainda que superior neste último ponto, o programa de Haddad carece da carga emocional necessária para lograr uma reversão na extensão que necessita. Enquanto a propaganda de Bolsonaro se comunica diretamente com anseios diretos da população, responsabilizando o PT pela “maior crise ética, moral e financeira da história”, Haddad ainda não encontrou um ponto fraco a ser explorado no sentido de desidratar efetivamente o seu oponente direto.

Seu tempo está se esgotando. Se quiser viabilizar sua candidatura, precisará usar melhor todas as ferramentas que tem. E rápido.

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Guilherme R. Garcia Marques – Cientista político. Mestre em Economia Política Internacional. É analista da Diretoria Internacional da Fundação Getulio Vargas e membro do Grupo Latino Americano para a Administração Pública (GLAP/IIAS).

As opiniões expressas são de caráter pessoal e não representam a posição da FGV. O autor publica opiniões, também em caráter pessoal, em sua conta no Twitter (@grgmarques).

Nova Ordem

Foi um verdadeiro tsunami no primeiro turno das eleições de 2018, com queda de verdadeiros impérios da política brasileira. Esse tsunami foi provocado pela onda de Jair Bolsonaro (PSL) levando consigo deputados, senadores, governadores para primeiras posições e votações consagradoras. A política brasileira não será a mesma depois desta eleição. Se a mudança será para melhor, só o tempo.

A “Onda Bolsonaro” que virou tsunami derrubou mais um pouco a credibilidade dos institutos de pesquisas, que erraram feio nas disputas locais de Rio de Janeiro e Minas Gerais. Também derrubou teses de analistas políticos e marqueteiros. Bolsonaro quase liquidou a fatura já no domingo dia 7 o deixando muito próximo da vitória no dia 28.

Mais do que a vitória no primeiro turno e quase ganhando a eleição, Jair Bolsonaro está quebrando paradigmas impressionantes no nanico PSL que não chega a ser uma novidade, Collor já tinha feito isso na lendária eleição de 1989. A diferença de Collor para Bolsonaro é que o segundo está conseguindo transferir sua enorme popularidade para seus aliados e quem está se aproveitando para surfar nessa onda.

Mesmo assim um governo de Bolsonaro não terá vida fácil em um Congresso ainda mais fragmentado. A utilização da cláusula de barreira pode diminuir o número de partidos no parlamento, mas ainda vai ser fragmentado. E vale se Fernando Haddad (PT) conseguir o milagre de reverter uma desvantagem de quase 20 milhões de votos. Ao contrário de muitos especialistas em análise política, segundo turno não é uma “nova eleição” e qualquer que seja o vencedor não será fácil costurar uma sólida base para um mínimo de governabilidade.

Mas antes de pensar em formar uma base parlamentar, Haddad vai precisar muito mais dos mais de 13 milhões de votos de Ciro Gomes (PDT). Mesmo que consiga esses votos do Ciro de forma integral e consiga os de Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB), Marina Silva (REDE), Guilherme Boulos (PSOL) e o pedaço progressista dos votos de João Amoêdo (NOVO), Haddad só vence se Bolsonaro não aumentar sua votação e torcer para ele até perder alguns. Seria uma repetição da eleição de 2006, em que Alckmin perdeu votos no segundo turno, só que em um cenário inverso. Naquela eleição de 12 anos atrás Lula buscava a reeleição e venceu o primeiro turno.

Os mapas eleitorais da eleição presidencial se dividem em azul e vermelho nas eleições de 2006, 2010 e 2014, com um estado e outro sendo a exceção da polarização PSDB e PT. EM 2018, o azul do PSDB foi substituído pelo verde do PSL. Mas a grande mudança é o PT perdendo espaço e ficando quase exclusivamente apenas com o Nordeste. Até o Norte, Minas Gerais, Rio de Janeiro e variando Rio Grande do Sul passaram a ser verde. É uma nova ordem impulsionada pelo fenômeno chamado Bolsonaro.