Alckmin e Meirelles disparam primeiras “balas” contra Bolsonaro

As campanhas de Geraldo Alckmin (PSDB) e Henrique Meirelles (MDB) divulgaram os primeiros spots mirando a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL), mas sem o citar. É uma fórmula encontrada para criticar falas e propostas de Bolsonaro e não ter o efeito contrário ao esperado impulsionando ainda mais suas intenções de voto. Me parece uma estratégia arriscada e acertada.

Toda vez que Bolsonaro é atacado nominalmente ele cresce, quando suas falas polêmicas são confrontadas junto com sua confessada falta de conhecimento econômico, sua rejeição também aumenta. O horário eleitoral na TV, principalmente as inserções de 30 segundos durante a programação quando o eleitor é pego de surpresa e fica sem reação, é a última tentativa de desidratar Jair Bolsonaro, que só terá a internet para se defender.

A eleição está entrando nos últimos 30 dias. Tiro curto. Um prova de 100 metros rasos e todas as cartas nas mangas terão que ser usadas.

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Análise: Jair Bolsonaro no Jornal Nacional

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Dando sequência à série de entrevistas com os candidatos à presidência da República mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais, o Jornal Nacional entrevistou nesta terça-feira Jair Bolsonaro do PSL. Assim como havia acontecido com o pedetista Ciro Gomes no dia anterior, os apresentadores William Bonner e Renata Vasconcellos optaram por perguntas voltadas mais para a polêmica do que para as soluções de cada programa.

O primeiro tema tratado foi a postura de Bolsonaro que se coloca como novo no cenário político mesmo estando no sétimo mandato e com os filhos ingressos na carreira. Como resposta, o ex-capitão disse que nunca fez parte do núcleo corrupto da política e que sempre foi “baixo clero” em Brasília e que seus filhos foram votados porque o povo acreditou neles. Na oportunidade, lembrou da fala de Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo, qualificando-o como um dos únicos parlamentares que não aceitou dinheiro do Partido dos Trabalhadores para votar em projetos na Câmara dos Deputados.

Permanecendo no tema, Renata Vasconcellos lembrou o patrimônio declarado por Bolsonaro, cerca de R$ 2 milhões, boa parte dele, conquistado durante os seus mandatos. Em sua defesa, Bolsonaro disse que não recebeu dinheiro de empresas, leia-se propina.

A seguir, no primeiro momento de tensão na sabatina, Bolsonaro se defendeu do recebimento de auxílio-moradia possuindo imóvel em Brasília, declarando que esse auxílio era tão legal quanto o recebimento na forma de pessoa jurídica, o “pejotinha”, da dupla de apresentadores. Aparentando irritação, Renata disse que eles não eram funcionários públicos, ouvindo de volta que as Organizações Globo recebem bilhões de reais em propaganda oficial do governo.

No curto espaço dado para economia, Bolsonaro falou sobre a relação de confiança com o economista Paulo Guedes e, questionado sobre eventuais desentendimentos futuros, o presidenciável protagonizou uma cena inusitada que deve ter arrancado risadas em muitos lares brasileiros ao lembrar que tanto ele quanto Bonner eram separados e que ninguém se casa pensando em uma “mulher reserva”. Neste instante, ficou bastante claro que Bolsonaro se defenderia das perguntas partindo para o ataque.

O clima quente permaneceu no estúdio quando Renata Vasconcellos relembrou a diferença salarial entre homens e mulheres, algo que, segundo o IBGE, está na casa dos 25%. Bolsonaro insistiu na tese que a igualdade já está prevista na CLT, mas que entende que cumpri-la não é tarefa do presidente da República. O candidato negou que concordasse com a diferença, contudo, há uma entrevista no programa SuperPop em que Bolsonaro diz isso claramente (5’32”).

Indo além, Bolsonaro indicou os jornalistas como exemplo de diferença salarial, sem dizer que Bonner recebia mais. Renata então afirmou que “nunca aceitaria receber menos que um homem para exercer a mesma função”. Neste caso, cabe informar que Bonner, além de apresentador, é editor-chefe do Jornal Nacional há 22 anos.

Quando o assunto passou a ser direitos trabalhistas, Bonner citou o comentário atribuído a Bolsonaro que os trabalhadores teriam que escolher entre ter mais direitos e ter emprego e perguntou quais direitos seriam retirados. Na defensiva, Bolsonaro disse que essa é uma fala de empresários, todavia, o apresentador lembrou que o presidenciável a repete como se concordasse com ela. Em seguida, mencionaram o voto contrário à “PEC das domésticas”, cuja justificativa seria o desemprego gerado pelos encargos, tese que, segundo dados do IBGE, não se sustentou posteriormente.

No entanto, o momento mais errático do candidato aconteceu no tema homossexualidade. Bonner e Vasconcellos citaram declarações de Bolsonaro ao dizer que ter um vizinho gay desvaloriza imóvel, que não queria ter um filho gay e associações entre homossexualidade e pedofilia. Apesar de negar ser homofóbico, Bolsonaro falou que “um pai não quer encontrar seu filho brincando de boneca” e se defendeu dizendo que age para proteger as crianças. Na sequência, ao citar o “9º Seminário LGBT Infantil”, que na verdade foi o “9º Seminário LGBT”, cujo tema era “Infância e Sexualidade” e apresentar um livro que não foi adotado pelo MEC como o “kit-gay”, Bolsonaro desinformou o público fazendo uso de dois episódios que não aconteceram como ele descreveu.

Quando o assunto passou a ser segurança pública, Bolsonaro relembrou que tanto ele quanto Bonner foram vítimas da violência urbana e que esta deve ser combatida à altura, com o policial de posse de armamento superior ao do bandido. Mencionou ainda o “excludente de ilicitude” para as mortes provocadas por policiais que, segundo o candidato, merecem ser condecorados e não processados.

O derradeiro momento de tensão aconteceu quando Bonner recordou as declarações do general da reserva, Hamilton Mourão, vice da chapa de Bolsonaro, que havia dito a um grupo de militares que se os poderes teriam que buscar solução, caso não conseguissem, chegaria a hora que o exército teria que impor a solução. Para Bolsonaro isso foi um alerta do seu vice, em caso de caos social e lembrou que isso já aconteceu no Brasil em 1964. Diante da tentativa de correção histórica de Bonner, o candidato citou Roberto Marinho, fundador das Organizações Globo, que em 1984 reafirmou o apoio o regime. Neste ponto, onde ninguém tem razão, o melhor resumo talvez seja o famoso refrão que diz “a verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”, mesmo tendo feito um mea-culpa tardio, 10 anos após a morte de seu fundador.

Após a mensagem de despedida de Jair Bolsonaro, quando este falou em Deus, que o país precisa de um candidato honesto e que é preciso união entre todas as classes e regiões do País, restou a impressão que seu discurso saiu fortalecido entre as pessoas que defendem seus posicionamentos, ao passo que aqueles que discordam enxergaram novamente o candidato que rechaçam. Quanto ao Jornal Nacional, pela segunda vez, a opção pelo confronto lamentavelmente esvaziou a entrevista deixando de lado as propostas do candidato.

Sem título

Bolsonaro na Globo News

Jair Bolsonaro, finalmente, ficou cara a cara com jornalistas da TV Globo News. O presidenciável foi o 5º presidencial de uma série de entrevistas. Antes, Alvaro Dias (podemos), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB). Como não poderia deixar de ser, foi a mais quente e polêmica.

Nos primeiros blocos os jornalistas não apertaram muito o candidato. Nos últimos é que a temperatura esquentou e houve momentos ríspidos. Gérson Camarotti foi o jornalista que mais deixou Bolsonaro visivelmente irritado na história do auxílio-moradia tendo casa em Brasília e com Andreia Sadi na questão da diferença de salário entre homem e mulher e a lei do “feminicídio”.

Diferente dos jornalistas do programa Roda Viva, até pela entrevista está fresca na memória, os da Globo News tentaram evitar levar a história para o passado. Só no penúltimo bloco é que entraram nessa seara e culminou com uma nota do Grupo Globo lida pela Miriam Leitão respondendo a fala de Bolsonaro sobre o artigo de Roberto Marinho, no final da ditadura militar, defendendo o apoio da empresa ao golpe que derrubou o presidente João Goulart. A nota de última hora lembrou do editorial de 2013 – 10 anos após a morte do patriarca da família Marinho – no mesmo jornal O Globo, na véspera dos 50 anos do golpe de 1964, reconhecendo que o apoio foi “um erro”.

No mais, Bolsonaro pode ter ampliado sua votação que está em torno de 20% nas pesquisas ou desabado. Apesar de ser um canal fechado a Globo News tem grande penetração na população, somando a segunda maior audiência da entrevista no Roda Viva, Bolsonaro nunca teve uma visibilidade tão grande na TV nesta semana, tendo a oportunidade que só vai ter durante a campanha e só nos debates além da cobertura diária dos telejornais televisivos, já que vai ter míseros segundos no horário eleitoral, de mostrar suas propostas e não-propostas.

Diria que o candidato foi aquilo que é normalmente evitando passar a imagem de autoritário. Talvez não tenha funcionado. Talvez tenha funcionado. Uma coisa tenho certeza: quem tem convicção o voto no Bolsonaro reafirmou e quem não tem também ficou com mais certeza que ele é despreparado para o cargo de tamanha importância ainda mais no momento que vivemos. Para quem não é eleitor do deputado capitão reformado do Exército sem descarta-lo das opções, fica a questão levantada no parágrafo acima: dispara pra cima ou desaba nas pesquisas antes mesmo do início da campanha.

A grande vantagem de Bolsonaro é ser como Lula: “gente como a gente”. A grande desvantagem é não ter a mínima ideia não só de economia como gerir um governo, o que ele estrategicamente usa isso a seu favor reconhecendo que não é doutor em economia. O grande ativo de Jair Bolsonaro é sua sinceridade e falar o que o cidadão médio quer ouvir, mesmo que em muitos casos não passe de populismo e exagerando nas palavras.

Bolsonaro no Roda Viva “jantou” a bancada

Jair Bolsonaro está longe de fazer parte de um grupo de intelectuais e têm propostas e ideias muito discutíveis. Também está longe de ser um candidato a presidente da República dos sonhos. Bolsonaro surfou e ainda surfa na onda antipetista e a saturação do domínio esquerdista que por anos dominou o Brasil muito por culpa dos 20 anos de ditadura militar, que o candidato enaltece e defende. Uma coisa, porém, não dá para negar que ele foi muito além da expectativa no centro do Roda Viva, da TV Cultura.

Bolsonaro tirou até com certa facilidade as “pedradas” que alguns jornalistas da bancada lançavam contra ele. Não vou afirmar que foram desleais com ele como seus apoiadores reclamaram nas redes sociais e a Manuela D’ávila fez na vez dela. Mas muitos ali estavam lá não para entrevistá-lo, o propósito era desestabilizar para ver se ele soltava alguma coisa para ganhar as manchetes dos jornais e sites de notícias que machucasse sua candidatura. Só que Bolsonaro não se desestabilizou ao ponto de cometer uma gafe grande – alguns deslizes aconteceram – e “jantou” a bancada formada pelo programa.

Bernardo Mello Franco (O Globo), um notório jornalista de esquerda, levantou muitas bolas involuntariamente para Bolsonaro marcar gols e correr para sua galera. Bernardo soltou a pérola da noite que Jesus Cristo seria um refugiado. Era visível o sangue na boca de Leonencio Nossa (Estadão) ao fazer suas perguntas. A única que não passava a impressão que estava lá para “fritar” o candidato era Daniela Lima (editora do Painel Folha), fez jornalismo com perguntas pertinentes sabendo explorar a história que a própria Folha trouxe em janeiro do auxílio-moradia mesmo Bolsonaro tendo casa em Brasília e privilégios de políticos. Maria Cristina Fernandes (Valor Econômico) também fez perguntas interessantes sobre economia e saúde, chegando a deixar ele sem resposta e tendo que mudar de assunto. Mas nem elas escaparam do desastre. Daniela cometeu um erro gigante sobre o voto impresso e Maria Cristina enfiou “dívida história” com negros na conversa.

No saldo geral, o desempenho de Bolsonaro foi muito melhor que imaginei que seria. E o “mérito” é dos jornalistas que foram dispostos a uma disputa ideológica do que participar de uma entrevista.

Janaína Paschoal deu o recado

Janaína Paschoal ganhou as manchetes ao discursar na convenção do PSL, que oficializou a candidatura de Jair Bolsonaro a presidente. Sem pedir aplausos, Janaína fez um discurso de aproximadamente 20 minutos contundente e a parte que ganhou as manchetes foi o alerta nos seguidores de Bolsonaro. Os mais fanáticos que excluem quem não declara apoio a Bolsonaro. Quem não está com Bolsonaro é “esquerdista”, “socialista fabiano” ou “isentão”.

Janaína Paschoal ganhou fama de amalucada ao criar um perfil no Twitter. Ela já recebia crítica e ofensas por ser co-autora do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Por seu jeito de usar a rede social virou chacota em alguns episódios. Mas de doida a Dra. Janaína não tem nada. O discurso foi lúcido, agressivo no tom certo com as mazelas das instituições brasileiras, coroando com o “puxão de orelha” nos mais fanáticos do fã-clube e apoiadores do candidato que deseja ter a doutora como companheira de chapa.

Obviamente, os fãs e apoiadores extremistas não gostaram e provavelmente acusarão Janaína de ser um “cavalo de troia da esquerda”, justo ela que se considera de direita, conservadora e cristã. Há uma turma que afasta quem tem divergências com Jair Bolsonaro, mas não descarta como uma futura alternativa de voto. Para os reacionários ou você é Jair acriticamente, ou não passa de um comunista que tem que ficar bem longe.

Janaína Paschoal seria uma vice que talvez deixaria Bolsonaro mais palatável para quem o considera extremista e ajudaria a tirar um pouco a imagem de machista entregando a vice-presidência a uma mulher. Resta saber se ela vai aceitar o convite e, mais importante, se Bolsonaro e sua trupe aceitarão o jeito da advogada.