Establishment x Lulismo

Com a debandada do centrão (DEM, PP, PR, PRB, SD) para candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB), ganha sobrevida a candidatura do tucano com 40% do tempo do horário eleitoral na TV. Queiram ou não os puritanos, o horário eleitoral é peça chave em eleição presidencial e mais ainda em uma eleição imprevisível como a de 2018. Não se ganha eleição apenas com engajamento em rede social ou caravanas em aeroportos, como planeja Jair Bolsonaro (PSL).

Ciro Gomes (PDT) sai dessa disputa com sabor amargo da derrota que ele mesmo provocou ao falar demais e pode ser pior caso o PSB e PCdoB não fechem com ele. Ciro tanto sabe disso que já virou a chave desistindo de moderar seu tom e plano de governo para mais ao centro. Passou a moldar a sua fala para atrair partidos e eleitores à esquerda.

Sem o centrão, o candidato do PDT vai ter que disputar contra o candidato do PT/Lula o eleitorado de esquerda para chegar ao segundo turno. É muito difícil. Confesso que estava com a sensação de fim da polarização entre PSDB-PT, mas o curso do rio começa a ir para o mesmo lugar que vai desde 1994.

Bolsonaro, Ciro e Marina Silva (Rede), os três líderes nas atuais pesquisas, podem sucumbir ao establishment político capitaneado por Alckmin e a força eleitoral do lulismo.

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Bolsonaro x Sônia Racy (caiu na armadilha)

O presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) lidera todas as pesquisas para presidente, sem o nome de Lula (PT), ele não é bem visto pela grande imprensa que o tenta atingir de todas as formas com matérias e notas carregadas na tinta. A última polêmica de Bolsonaro vs imprensa é envolvendo a jornalista Sônia Racy. Racy divulgou no Estado São Paulo uma nota que diz que Bolsonaro teria respondido a quem perguntou como conheceu seu conselheiro econômico Paulo Guedes: “como se chega em mulher gostosa tentando até pegar”.

Obviamente que o deputado não gostou e a frase é muito de mau gosto mesmo (para ficar no mínimo). Bolsonaro ligou para Sônia e questionou sua informação pressionando que ela contasse suas fontes da nota. Por sua vez, a jornalista divulgou o áudio da conversa e o teor é muito ruim para a imagem de Jair Bolsonaro.

Fora essa dele querer saber a fonte da jornalista que ela não tem a obrigação de revelar, Bolsonaro diz no vídeo que responde a matéria com todas as letras que Sônia Racy é empregada de João Doria e do PSDB, por ser apresentadora do programa Show Business desde 2016, substituindo Doria ao deixar a apresentação do programa para ser candidato a prefeito de São Paulo.

Como resposta, a jornalista colocou uma imagem de seu contrato com o Grupo Bandeirantes (programa é exibido na TV Bandeirantes) anexado ao áudio da conversa que teve com o candidato.

Se tivesse ficado só na nota da jornalista e uma resposta mais moderada, certamente o estrago seria menos danoso a Jair Bolsonaro. Ficaria sendo mais uma das notícias envolvendo seu nome nos arquivos da grande imprensa. Ao confrontar a jornalista como fez ampliou a polêmica fazendo ganhar destaque ainda maior. O ponto fraco de Bolsonaro nas pesquisas é o eleitorado feminino, justamente o maior do Brasil. A suposta declaração de que chegou em Paulo Guedes como “se chega em uma gostosa” ganha verossimilidade com o passado de Bolsonaro e ameaçando a jornalista (de processo) caso publicasse a notícia confirmando a imagem de autoritário.

Pesquisa desenha um provável segundo turno entre Jair Bolsonaro e Ciro Gomes

Pesquisa DataPoder360 coloca Bolsonaro e Ciro como provável duelo do segundo turno de 2018, mas nada é garantido em uma eleição tão imprevisível. E é a primeira sem o nome de Lula ser testado em nem um cenário. O ex-presidente está preso desde abril e inelegível pela Lei da Ficha Limpa.

Cenário 1
Jair Bolsonaro (PSL) 25%
Ciro Gomes (PDT) 12%
Fernando Haddad (PT) 8%
Geraldo Alckmin (PSDB) 7%
Alvaro Dias (PODEMOS) 6%
Marina Silva (REDE) 6%
Branco-nulo 28%
Não sabe 8%
Cenário 2 (com mais opções)
Bolsonaro 21%
Ciro 11%
Marina 7%
Haddad 6%
Alckmin 6%
Alvaro 5%
Manuela (PCdoB) 2%
Collor (PTC), Meirelles (MDB), Rocha (PRB) e Maia (DEM) 1%
Outros 0,8%
Branco-nulo 27%
Não respondeu 12%

Completa aqui

O ex-prefeito Haddad começou a receber votos como substituto de Lula, mesmo o PT não oficializando a troca. É natural que quando mais se chega perto da campanha as pessoas vão percebendo que Lula não poderá ser candidato e o eleitor fiel lulista vai para quem for seu representante. Alvaro Dias continua sendo a grande pedra no sapato de Alckmin, o ex-tucano pega boa parte do eleitorado do PSDB e não tem em mente se unir ao antigo correligionário. Mas Dias já disse que aceita negociar o apoio do ex-partido para sua candidatura – muito improvável. Ciro deu uma subidinha de leve e já é vice-líder em números absolutos fora a margem de erro da pesquisa. Marina tem o recall das duas eleições anteriores. Mas tem um teto e ele está cada vez menor.

Se Bolsonaro não desidratar e resistir os 45 dias de campanha com pouquíssimo tempo no horário eleitoral, fundo eleitoral não abundante, sem palanque forte nos estados, a chance dos candidatos de PDT e PSL no segundo turno é considerável. Seria uma disputa interessante entre um conservador (mais radical) contra um progressista (não menos radical), um mais liberal na economia, apesar das controvérsias de Bolsonaro ser liberal de verdade, contra um candidato que defende o nacional-desenvolvimentismo com intervencionismo estatal na economia de forma moderada.

Apesar de dois modelos opostos de candidaturas, Ciro e Bolsonaro não são orgânicos dentro da direita e da esquerda, nem necessariamente os dois candidatos representam fielmente o conservadorismo e o progressismo.

Ciro Gomes começou na política na Arena, o partido que dava sustentação política para o regime militar. Passou por PMDB, fundou o PSDB no Ceará, foi candidato duas vezes a presidente pelo PPS, saiu para o PSB, rompeu com Eduardo Campos e teve uma rápida passagem pelo PROS, até chegar no PDT pelas mãos de Carlos Lupi.

Jair Bolsonaro também acumula passagens por diversos partidos e é deputado federal desde 1990. Bolsonaro tinha uma atuação parlamentar mais voltada ao sindicalismo militarismo, antes de seu nome aparecer nacionalmente com declarações polêmicas e a luta contra o projeto chamado de “kit gay“, do Ministério da Educação na época comandado por Fernando Haddad, um dos seus prováveis adversários. Daí passou a combater a chamada ideologia de gênero e a doutrinação ideológica de esquerda nas escolas públicas. É acusado de não saber nada de economia e tenta desfazer essa imagem apresentando ao mercado financeiro o economista liberal Paulo Guedes, como Ministro da Fazenda em um governo seu.

Como ficaria o centro político? E os liberais que deixaram o partido com a ida de Bolsonaro ao PSL, votariam no intervencionista Ciro Gomes para impedir o Bolsonaro ou votariam tapando o nariz em Jair Bolsonaro para evitar o Ciro? Como ficaria o eleitor mais de centro que é quem decide uma eleição presidencial? São questões importantes sem respostas fáceis. De qualquer maneira, não é possível cravar um segundo turno entre Ciro e Bolsonaro ou qualquer outra disputa, por ainda ser pré-campanha e pela eleição de 2018 ser diferente de qualquer outra realizada recentemente.

Os Bolsonaro pecam pela boca

A Procuradora-geral da República, Raquel Dodge, denunciou o deputado Jair Bolsonaro (racismo) e o filho Eduardo Bolsonaro (ameça à jornalista). A denúncia envolvendo o pai é sobre uma palestra na Hebraica do Rio de Janeiro em abril de 2017. Contra o filho a denúncia é sobre uma ameaça em uma rede social contra a jornalista e ativista feminista Patricia Lélis. É óbvio que a família Bolsonaro e a trupe de seguidores já saíram acusando uma conspiração para tirar o deputado da eleição.

Mais cedo ou mais tarde, jacobino encontra jacobino. Eu me lembro muito bem Jair Bolsonaro nas votações das denúncias de Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer, dizendo que o Brasil precisa de um presidente “honesto, patriota e cristão”, votando para que as denúncias fossem analisadas imediatamente pelo STF.

Votou para derrubar um presidente impopular para agradar seus eleitores sem analisar o mérito das denúncias. O nome disso é populismo. E os “bolsominions” acusando de “micheleiros” quem criticava o “mito” por fazer o jogo da esquerda e da extrema-esquerda votando pela queda de Temer.

As denúncias contra Jair e Eduardo são graves. Dizer que os prints do Bolso Kid ameaçando a jornalista são falsos é apenas retórica para defesa dele. É preciso um mínimo lastro probatório e evidências para a PGR aceitar uma denúncia. Sobre Jair, a fala dele na Hebraica não foi piada nem discurso político. Imunidade parlamentar é para discursos políticos, chamar um grupo de pessoas de arroba não é discurso político nem piada de gordo. Lembrando que o patriarca da família responde a outro processo resultado daquela confusão com a petista Maria do Rosário. Mas sobre racismo é muito mais grave. Mesmo se não acelerarem esse novo processo, lá na frente Jair Bolsonaro pode ter problemas.

Globo e Globo News noticiaram as denúncias contra os Bolsonaro, a emissora global tem como diretriz não pronunciar o nome Bolsonaro nos telejornais da casa. É só a Globo sendo Globo. Manipular notícias pelo seu interesse. Porém, não diminui o impacto e gravidade das denúncias.

Bolsonaro avança em território tucano

Pesquisa do Instituto Paraná Pesquisas mostra Jair Bolsonaro (PSL) liderando no maior colégio leitoral do Brasil – São Paulo – ganhando do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e do ex-presidente Lula (PT).

Péssima notícia para Alckmin. O tucano além de não chegar em 10% nas pesquisas nacionais vê Bolsonaro arrancar também no “seu território”.

A candidatura de Bolsonaro está mais que consolidada e ameaça redutos históricos de PSDB e PT. O problema para o capitão do Exército é a ação contra ele no STF, por apologia ao estupro no entreveiro com Maria do Rosário em 2014. Se for condenado pela primeira turma do Supremo, ele pode perder a elegibilidade.

Com Haddad

Jair Bolsonaro (PSL) 23,4%

Geraldo Alckmin (PSDB) 22,1%

Marina Silva (REDE) 12,3%

Ciro Gomes (PDT) 6,5%

Fernando Haddad (PT) 6%

Álvaro Dias (PODEMOS) 3,8%

Com Jaques Wagner

Jair Bolsonaro 23,5%

Geraldo Alckmin 23,2%

Marina Silva 13,3%

Ciro Gomes 7,2%

Álvaro Dias 4%

Fernando Collor 1,5%

Rodrigo Maia 1,4%

Jaques Wagner 1,3%

Henrique Meirelles 1%

Com Lula

Jair Bolsonaro 22,3%

Geraldo Alckmin 20,1%

Lula 19,7%

Marina Silva 8,8%

Ciro Gomes 5,3%

Álvaro Dias 3,6%