Michel Temer: hoje, menor que Sarney; amanhã, maior que Itamar

presidente michel temer pronunciamento natal

O presidente Michel Temer fez seu último pronunciamento em cadeia nacional. Diferente dos natais anteriores, não fez promessas – seu mandato se encerra em uma semana – nem fez balanço dos dois anos e meio do seu mandato.

Presidente Michel Temer usou o espaço para desejar um feliz 2019 aos brasileiros e agradecer a oportunidade de ter comandado uma das maiores democracias do mundo em um gesto de humildade não visto para o cargo.

Um presidente que sai do cargo com a mancha de três denúncias e mais uma penca de pedidos de inquéritos nos quais terá que se defender na Justiça sem o protetor do foro por prerrogativa de função. Mas Temer deixa um país se não plenamente arrumado e um crescimento semelhante quando Lula deixou a presidência há 8 anos, vai deixar para seu sucessor a casa muito melhor que encontrou.

Sem Temer certamente o Brasil de hoje poderia estar a beira do caos semelhante a vizinha Venezuela ou em menor grau a Argentina, bem diferente do cenário que antecedeu o impeachment. Inflação dentro da meta, juros básicos abaixo de 7%, a sangria do desemprego controlada (apesar de caindo lentamente e por isso a aprovação ao governo em um dígito), crescimento econômico depois de dois anos com o PIB no negativo. Em suma, arrumou a casa e cumpriu o dever de um governo de transição do catastrófico governo anterior.

O destino do governo Temer foi selado naquele 17/05, quando o jornal O Globo via o jornalista Lauro Jardim maldosamente e premeditadamente colocou que o presidente tinha mandado Joesley Batista comprar o silêncio de Eduardo Cunha e quando apareceu o áudio não era o que o jornalista descreveu.

Toda aquela delação (super) premiada da JBS arquitetada com o propósito de interromper a reforma da Previdência Social. Depois das reformas do teto de gasto e trabalhista, a da Previdência aprovada talvez os rumos fossem outro. O mercado trabalha com projeções futuras e mercado otimista as empresas investem, contratam e a roda da economia volta a girar com força gerando emprego e sensação de bem-estar ao povo. Foi assim que Lula saiu da poltrona presidencial com quase unanimidade de aprovação e essa lembrança o faz ter força eleitoral mesmo preso.

Ferraram com a reforma para preservar privilégios. E de olho no calendário eleitoral também. Presidente Temer resistiu e escapou de duas votações na Câmara que poderiam ceifar seu curto mandato.

Michel Temer queimou os últimos cartuchos e chegou ao final como José Sarney e não como Itamar Franco. Mas, no futuro, os que hoje jogam pedra poderão estar agradecendo os dois anos e meio do governo de Michel Miguel Elias Temer Lulia.

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Futebol (esporte) e política

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Adenor Leonardo Bachi, o Tite pegou a seleção desacreditada e em uma situação delicadíssima nas eliminatórias para Copa de 2018 – sexto colocado e desempenho sofrível herdado de Dunga. Já no primeiro jogo, no Equador, um três a zero que deu início a uma sequência de invencibilidade tornando Tite herói nacional chegando ao ponto de seu nome ser lembrado em pesquisa para presidente do Brasil na frente de figurões da política brasileira. O clima era tão favorável que o obsessivo ouro olímpico veio no Maracanã em jogo dramático contra a Alemanha, o mesmo carrasco da Copa de 2014, com Tite sendo fundamental trabalhando nos bastidores da seleção olímpica do técnico Rogério Micale.

Tite começou a ser questionado na convocação final para o Mundial da Rússia. Nomes no mínimo questionáveis encarnando na figura de Taison, sem dúvida o símbolo da “Era Tite”. Apostou e não abriu mão da base que formou, mesmo Gabriel Jesus não marcando um único gol e não abriu de levar Renato Augusto, peça chave no esquema do técnico, mesmo machucado. Tudo que Tite acertou durante os jogos das eliminatórias e no período pré-copa errou na copa. Escalações, substituições, farra da família Neymar na concentração e comando frouxo.

Mas Tite está perdendo (se não perdeu) a áurea de iluminado por suas declarações. Antes do Mundial o treinador quebrou a tradição da delegação brasileira não recebendo o Chefe de Estado antes de embarcar para o país da Copa do Mundo. Pode alegar que o momento político estava e é muito conturbado. Na realidade, a impopularidade de um presidente denunciado duas vezes por corrupção pesou. Mas o principal motivo é, vejam só, político. Direito dele. Não simpatizar com a pessoa do Michel Temer e de governo não justifica quebrar a tradição e Tite deveria ter colocado suas posições políticas e opiniões pessoais de lado.

Sobre aparecer na foto com um presidente denunciado, não era para ser um incomodo ao cidadão Adenor, já que tem foto abraçado com o banido do futebol pela FIFA por receber propina de empresas em contratos de transmissão de TV Marco Polo Del Nero, sem falar que Tite dizia que não trabalharia com o então presidente da CBF e assinou um manifesto pedindo a saída do próprio meses antes do convite para ser técnico da seleção brasileira.

Agora, para parecer que não foi por questão política e manter o discurso de não misturar política com futebol, Tite já disse que prefere não ir até Brasília ou ter contato com o próximo presidente Jair Bolsonaro, antes da Copa América sediada no Brasil.

Na entrevista de estreia do programa “Grande Círculo”[1], do Sportv, Tite foi de uma demagogia ímpar. Tentando não entregar sua preferência política falou o clichê “corrupção mata” comparando esdruxulamente com homicídios e criticando a desigualdade social, finalizou dizendo que errou ao ir ao Instituto Lula após o título do Corinthians na Liberadores 2012 e manteve o discurso de não mistura futebol com política[2], acrescentando que não é alienado. Tudo isso porque pego mal sua crítica a ida de Bolsonaro ao Allianz Parque[3] para festa do título brasileiro de 2018 do Palmeiras, tendo esse registro com Lula.

Tite até tem razão em não querer misturar política e futebol. Porém, só está sendo demagogo negando uma solenidade com o chefe da nação e a seleção que representa e usa o nome do país, principalmente antes de uma Copa do Mundo ou outro torneio menor no território nacional, ou em uma celebração de um grande título por um clube nacional. O futebol, o esporte de maneira mais ampla, têm momentos históricos em protestos políticos e serve de válvula de escape para problemas do cotidiano – parar uma guerra como Santos de Pelé fez. Misturar futebol e política é possível e, em certos casos, importante.

Temer dá ultimato para caminhoneiros

Antes tarde do que nunca, o presidente Michel Temer falou da paralisação e bloqueio de caminhões que está provocando um caos em várias cidades, transtorno a produtores rurais, indústria e paralisando serviços públicos. Tentando mostrar que ainda está no comando, Temer falou que seu governo está aberto ao diálogo, como sempre, que não vai deixar acontecer desabastecimento e chama caminhoneiros para cumprir o acordo fechado ainda ontem entre o governo e líderes dos caminhoneiros.

Michel Temer deu um ultimato e ordenou uso das forças federais para remover bloqueios e desobstruir rodovias.

Se os caminhoneiros vão obedecer ainda não se sabe, mas Temer resolveu subir o tom, mesmo tarde e passando a sensação de estar meio perdido, para tentar mostrar que ainda tem autoridade. Os pronunciamentos do ano passado para se defender das denúncias mostravam o presidente com mais firmeza e vontade de lutar e se defender.

Este pronunciamento pareceu mais protocolar. Compreensível até para não criar um clima de guerra com caminhoneiros e pânico na população, mas o tom ameaçador pode ter efeito contrário.

Apelo ao presidente Michel Temer

Excelentíssimo Presidente da República, Senhor Michel Temer, não deixe o seu o governo terminar de forma catastrófico. Sei que seu governo e o senhor foram vítimas de uma trama para derrubá-lo no ano de 2017 – ainda sofre com bombardeios diários maculando sua honra tanto pela imprensa como do Judiciário e ameaça de uma terceira denúncia – e teve que gastar seu cacife político no Congresso Nacional para evitar que “forças obscuras” conseguissem seu objetivo. O governo já não tem mais fôlego para aprovar nem pautar reformas mais do que necessárias, urgentes.

Mas, pode piorar e a onda de paralisações dos caminhoneiros tem potencial para provocar distúrbios nas cidades por falta de suprimentos básicos para o comercio e consumo. É preciso medidas rápidas e eficientes, com urgência. Se a situação não for resolvida rapidamente, pode começar a faltar suprimentos nas prateleiras, já começou nos aeroportos, aí que o caldo entorna de vez. E a reivindicação dos caminhoneiros não só é deles. A população em geral, principalmente a classe média e os mais pobres, não aguenta mais a escalda no preço da gasolina. Não queremos saber se a culpa é do preço do petróleo em dólares na Tonga da Mironga do Kabuletê ou se o “mercado” não vai gostar de medidas para conter essa subida.

Chega de pagar a conta (o pato) que não é nossa, seja da corrupção ou da volatilidade do mercado. Queremos um preço justo e que caiba dentro do orçamento cada vez mais apertado do brasileiro. O problema vai muito além de déficit fiscal. É a crise social que está se agravando com potencial para desaguar para desabastecimento de produtos. Olha o drama humanitário que os vizinhos da Venezuela estão sofrendo. Estamos longe da situação venezuelana, verdade, e muito graças ao rompimento de Temer com o governo Dilma, que era cúmplice da ditadura Maduro, proporcionando o impeachment, mas pensar só em equilibrar as finanças públicas e esquecer a população vulnerável não é aceitável.

Presidente Michel Temer, o senhor ainda tem alguns meses antes de entregar o cargo e contornar danos assim como fez ao assumir o comando do governo federal, por favor, faça algo e evite que seu governo termine como o de seu correligionário e “conselheiro informal” José Sarney: impopular e trágico socialmente.

Daniel Coelho: Escândalo JBS deixou Michel Temer “vegetando” no cargo

Há um ano, as gravações da JBS deixaram não apenas um país assustado com a dimensão dos diálogos que vieram a público, como também mostraram para todos situações que, lamentavelmente, acontecem e sempre aconteceram no Brasil. Não dá para deixar de ponderar como esses eventos ocorreram. Ali, se teve o que na linguagem popular poderia se chamar de um “flagrante preparado”. Ou seja, não havia uma situação espontânea, mas um criminoso – no caso, Joesley Batista – forçando uma situação para envolver políticos do mais alto escalão da República, nomes como o senador Aécio Neves e o presidente Michel Temer. Mas o fato de o flagrante ter sido preparado não exime ninguém da culpa. Até porque há um fato concreto em seguida, que é uma entrega de malas com dinheiro.

Hoje, o país tem como presidente da República uma pessoa que combina a entrega de uma mala de dinheiro ilegal para um assessor seu, um ex-deputado, uma pessoa com quem tinha um convívio pessoal. São muitas as consequências disso. Uma das mais sérias: o presidente não é levado a sério para muitos outros assuntos vitais para país, a ponto de pautas importantes para a recuperação econômica do Brasil ficarem prejudicadas.

As pautas do Congresso Nacional neste governo são postas em discussão e votação exclusivamente por iniciativa do presidente da Câmara, o deputado Rodrigo Maia. O presidente da República perdeu as condições de pautar o país, de escolher que matérias são mais relevantes para a nossa economia e isso sem nenhuma dúvida é uma situação atípica. Por mais que a gente tenha tido crises graves em outros governos, os presidentes nunca deixaram de pautar o Congresso. Hoje, Michel Temer não consegue fazer isso.

Lamentei que o Congresso não tenha aprovado o afastamento de Temer, porque acho que aquela era uma oportunidade de virar a página e, a partir daí, ser criada uma agenda de país, uma agenda de transição, que seria fundamental para que fosse entregue, em 2019, um país mais organizado e com suas contas equilibradas. Como não foi possível, espero que todo esse episódio da JBS sirva para uma reflexão do eleitor. E, a partir das próximas eleições, que ele possa ter mais critério na escolha de seus representantes, tanto no Legislativo, como na presidência da República.

De toda maneira, está comprovado que a corrupção é endêmica no país, é um fator que ultrapassa as questões partidárias. A gente sabe que existem uns partidos mais corruptos do que outros, mas está evidente que temos corruptos em todos os partidos. É fundamental que nesse momento haja união entre aqueles que querem um país decente e sem corrupção. E, com essa união, possa ser apresentada uma alternativa para o Brasil.

Daniel Coelho, deputado federal pelo PPS