População apoia ação na “Cracolândia”, diz Datafolha

Pequisa Datafolha comprovou o que eu já sabia: a maioria absoluta da população – e quem tem bom senso e não se deixa ser pautado ideologicamente – é a favor de uma cidade limpa, organizada e segura.

O instituto fez pesquisa sobre a ação da prefeitura de São Paulo e do governo estadual na região batizada de “Cracolândia”. Para surpresa dos que criticaram a ação policial, a população aprovou como foi feita (59%). Para 88% dos entrevistados, a internação compulsória é válida. Esse número sobe para 95% com a família do viciado concordando.

A população também aprova fechamento e interdição de bares e demolição de imóveis usados como pensões e hotéis na região – entre 55 e 56%. Para 53%, houve violência durante a ação. Mas a maioria entende que não tem saída. E acha que são os traficantes os maiores responsáveis pelo consumo de crack em São Paulo.

Certeza que vão chamar os paulistanos de “higienistas”. Essa gente não entende que a maioria quer segurança e uma cidade organizada, como foi colocado no início do texto. O problema é complexo, mas é melhor pecar agindo que se omitir e não fazer nada achando que uma região da cidade bloqueada para consumo aberto de crack já se tornou normal.

Passou da hora de colocar um fim na Cracolândia

Ninguém acha que resolver o problema da chamada “cracolândia” no centro de São Paulo será fácil. A ação policial foi realizada em conjunto com prefeitura de São Paulo e governo paulista, sendo só o primeiro passo para revitalização da área.

Não pode é simplesmente não fazer nada porque os “noias” não querem ir para clínicas de recuperação e os candidatos a monges tibetanos não aceitam internação compulsória, dizem que é higienismo.

É hora de devolver as ruas daquele quarteirão ao cidadão paulistano. Já passou da hora, aliás. Não adianta discurso bonitinho que não é para ação policial. Não se combate traficantes com flores.

Primeiro, tem que limpar a área dos traficantes e levar os dependentes químicos para acolhimentos, com policiamento reforçado para não deixar se aglomerar novamente. Não deixar que migrem para outras áreas da cidade, seria como enxugar gelo ou cobertor curto. Depois, em uma nova fase, colocar em prática a ideia do prefeito João Doria e transformar a “cracolândia” em Centros Sociais e estabelecimentos comerciais.

Ruim com Temer, pior sem ele

O governo do presidente Michel Temer completou 1 ano no último dia 12/05. Muitas análises se o país melhorou, piorou ou ficou na mesma situação, além de reclamações e choradeira dos de sempre.

Há um tripé no impeachment de Dilma: 1) baixa popularidade, pelos escândalos de corrupção em série, a crise econômica aguda e o estelionato eleitoral; 2) perda de apoio parlamentar; 3) as denúncias que fundamentaram o afastamento. É bom deixar claro que as denúncias que fundamentaram o impeachment foram comprovadas nos meses de discussão no Congresso, apesar de alguns insistirem que “pedalada fiscal” e decreto para suplementação de crédito sem autorização dos parlamentares não são crimes de responsabilidade ou suficientes para afastar uma presidente legitimamente eleita.

Essa discussão já está superada (será julgada ação da defesa de Dilma no STF ainda) e a discussão nova é a possível cassação pelo TSE da chapa eleita. O MPE reiterou o pedido para cassar o mandato de Temer e deixar Dilma inelegível por oito anos. E o ministro relator Herman Benjamin também já liberou o relatório para os seus pares com a tendência de pedir a cassação, sem separação de chapa, no seu relatório. A bola está com o presidente do tribunal Gilmar Mendes marcar a data do julgamento.

Constitucionalmente, se Temer cair no julgamento do TSE, não será possível realizar eleição direta para um mandato tampão. Mas é tão confusa essa questão que não duvido que o tribunal resolva fazer nova eleição direta e não indireta (por deputados e senadores) como manda a Constituição.

Com todos os problemas e os defeitos do governo Temer – há muitos -, um dos principais motivos da queda de Dilma está começando a render frutos: freio na brutal recessão e volta do crescimento. E não vejo outro nome possível fora do presidente Temer, para essa travessia difícil.

Por que o PSDB ‘escondeu’ João Doria do programa na TV?

O destaque do programa nacional do PSDB, na TV, foi a ausência do prefeito de São Paulo, João Doria. Doria tem se mostrado o mais viável tucano para sucessão de Temer nas pesquisas, após a Lava Jato “ferir” Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin.

O programa do partido focou em um debate com novas e jovens lideranças eleitas na última eleição municipal, mas deixou Doria de fora. Será uma estratégia de blindar o prefeito e só usá-lo na hora certa, caso Alckmin e Aécio não conseguirem viabilizar seus nomes para 2018?

No final, a vergonha alheia tomou conta por mensagens de auto-ajuda. E, para fechar, um “estamos ouvindo você” como um pedido de voto de confiança às ações do partido no Congresso Nacional.

Macron e a doença francesa

Por Thomas Traumann

A eleição presidencial francesa de 2017 lembra o cabo de guerra dos personagens de O Doente Imaginário, última peça de Moliére. Na sátira, Argan é um velho hipocondríaco cercado de médicos que lhe confirmam seus piores medos, imaginários ou não. “A França está doente e a doença são os estrangeiros, os estrangeiros, os estrangeiros” repetiu à exaustão a candidata da extrema-direita Marine Le Pen, encarnando o personagem do doutor Diaforious. “Não é nada, não é nada, não é nada”, retrucava o candidato centrista Emmanuel Macron, como a criada Toinette, certa de que as doenças do patrão não passavam de fantasia. A França desta campanha eleitoral era, ora um paciente em seus últimos dias, ora um exemplo de vigor mundial. No último domingo, dia 7, dois em cada três eleitores franceses decidiram que o diagnóstico de Macron estava mais correto.

Macron e Le Pen foram os protagonistas da primeira grande encenação eleitoral pós-Trump, na qual as táticas de convencimento do eleitor se sustentaram na disseminação do pânico e da calúnia. Le Pen era apresentada como a fascista, que iria levar à França à convulsão social com a deportação em massa de imigrantes (ok, essa imagem talvez não estivesse tão longe da realidade). Macron era o candidato dos judeus (ele trabalhou para o banco Rotschild), da mão amiga ao terrorismo (ele declarou que a colonização francesa na Argélia foi um “crime contra a humanidade”) e do establishment (o que é verdade). Dias antes da eleição, hackers invadiram os computadores do comitê eleitoral de Macron e tornaram públicos milhares de e-mails e documentos internos, em um ataque similar ao que ocorreu com a campanha de Hillary Clinton.

Macron venceu a eleição não pelo que ele representa _ sua juventude, sua experiência corporativa, sua história de amor de conto de fadas_ mas, principalmente, por não ser Marine Le Pen. É fato que boa parte dos franceses são preconceituosos contra imigrantes, desconfiados do islamismo e têm motivos para odiar os burocratas da União Europeia. Mas, colocada na balança, a rejeição ao protofascismo de Le Pen é maior que tudo isso.
Com o desafio de não ser Marine Le Pen, Macron fez uma campanha cautelosa. Dizia parolagens como “farei um governo com o melhor da esquerda, melhor da direita e o melhor do centro”. Suas propostas incluem a redução no pagamento de impostos para as empresas e trabalhadores, cortes profundos nos gastos públicos e um sistema universal de seguro-desemprego e de aposentadoria. Não é preciso ser um gênio para ver que essas promessas são incongruentes.

Agora que venceu, Macron vai enfrentar problemas reais, o desemprego que atinge um de cada quatro jovens franceses, o medo do terrorismo, a crise migratória e o que chamou na campanha de “o ressentimento dos perdedores da globalização”. Em artigo para o jornal inglês The Guardian, o historiador britânico Timothy Garton Ash alerta para a possibilidade de uma reação do eleitorado na possibilidade de Macron desapontar. “Saboreiem, portanto, esses goles finais de champanhe. Agora é hora de tomar um triplo café de realidade. Primeiro gole desse café: mais de um terço dos que votaram no segundo turno escolheu Marine Le Pen. Seria um resultado a se comemorar? Segundo gole de realidade: Macron sabe o que tem de ser feito na França, mas não parece que vá conseguir fazê-lo. Terceiro gole de café de realidade: é ótimo que Macron também queira reformar a União Europeia, mas isso está fora de seu alcance”. Ou seja, não convide Garton Ash para a próxima vitória do seu time do coração…

Há um quarto gole de café: depois da vitória de Trump e do Brexit, o populismo xenófobo parecia invencível. As derrotas de Norbert Hofer (Áustria), Geert Wilders (Holanda) e Marine Le Pen (França) mostraram que ainda há esperança para a política tradicional. Mas essas três vitórias do establishment só foram possíveis por uma união de todas as outras forças, num sistema de frente política típico de momentos de extrema crise. Mas por quanto tempo os eleitores de esquerda vão seguir tapando seu nariz e votado na centro-direita? Macron venceu sem um gesto à esquerda, não obtendo sequer o apoio de Jean-Luc Mèlenchon no segundo turno. Ter políticos aguerridos como Le Pen e Mèlenchon como opositores não é o prenúncio de um governo tranquilo.

Embora derrotada, Le Pen conseguiu tornar a Frente Nacional numa opção viável. O que antes era malta de antissemitas, racistas, homofóbicos, colaboracionistas e monarquistas, agora é uma organização política que representa uma parcela importante da França. O que antes era racismo foi edulcorado para uma “postura de desconfiança sobre o Exterior” e o que era tradicionalismo virou a “defesa de valores franceses”.

A peça de Moliére é uma comédia de erros. O velho Argan se finge de morto para saber quem realmente o ama, e junto com a descoberta recupera a saúde. Os eleitores franceses de 2017 decidiram que o país não está à beira da morte, mas isso não significa que não esteja doente.

Thomas Timothy Traumann é um jornalista brasileiro. Foi porta-voz da Presidência da República e ministro da Secretaria de Comunicação Social no governo Dilma Rousseff.