Joice Hasselmann quer fechar o Congresso

No programa Pingo Nos Is, a jornalista Joice Hasselmann pede o fechamento do Congresso Nacional pelas práticas nada republicanas dos nobres deputados na análise da denúncia enviada pelo Procurador-geral da República contra o presidente Michel Temer. Joice quer limpar a política passando por cima da democracia representativa. Por mais revoltante ter um Congresso com 400 parlamentares entre inquéritos e denúncia no STF, eles foram colocados lá pelo voto direto e universal. Salvo prisão em flagrante, só o povo detém o poder de tirar o mandato de deputados/senadores eleitos.

Por mais que não goste do atual Congresso e a relação incestuosa com o Planalto, é inadmissível uma jornalista tão influente propô fechamento do parlamento justo no dia seguinte que Nicolas Maduro rasga a Constituição da Venezuela realizando uma constituinte para golpear o parlamento de maioria oposicionista, MP e meios de comunicação transformando em definitivo o país em uma ditadura. A direitista Joice copiando o esquerdista bolivariana Maduro. Faces diferentes da mesma moeda.

Fiscalizar, ficar de olho, pressionar o parlamento é saudável e desejável. Querer o fechamento do mesmo por uma suposta limpeza ética é só autoritarismo travestido de um moralismo que já levou o Brasil a ter o Congresso fechado, o presidente constitucional deposto por militares, estes assumindo e só devolvendo o poder mais de 20 anos depois.

Mas nada de estranho partindo de uma pessoa que trata um juiz (Sergio Moro) como “herói” e em um tempo que procuradores se acham enviados da justiça divina para expurgar políticos corruptos. Mais assustador é saber que o comentário da jornalista foi um editorial. Ou seja: Muito provavelmente, com anuência da rádio, a Jovem Pan, uma das principais rede de rádio do país. É assustador.

Política no chão

O descrédito com a política não é novidade. Uma pesquisa inédita do Ibope, porém, não só confirma essa percepção como traz um alerta preocupante: a diferença entre instituições políticas – governo federal, Congresso Nacional, partidos políticos, eleições, presidente – e outras instituições está em 35 pontos – 25 a 60.

As instituições mais confiáveis são igrejas, Polícia Federal, Forças Armadas e meios de comunicações. Não necessariamente haverá transferência de votos para líderes destas instituições, mas serão influentes na eleição de 2018.

A pesquisa mostra que a falta do povo nas ruas e panelaços pode iludir quem pensa que sustentar um governo onde a popularidade disputa com a margem de erro das pesquisas não afetará a reeleição de políticos. É um auto-engano que pode ser fatal.

Eunício e Maia, os “vices” de Temer

maia-eunicio

Ontem e hoje a Câmara e Senado elegeram suas novas composições no comando das mesas diretoras. No Senado, Eunício Oliveira (PMDB/CE) foi eleito por 61 votos a 10 derrotando José Medeiros (PSD/MT). Na Câmara, o atual presidente Rodrigo Maia (DEM/RJ) foi reeleito com muita folga na primeira votação – 293 votos.

Essas vitórias de Eunício e Maia mostram a força da base governista e poder de articulação do governo do presidente Michel Temer. A oposição no governo Temer é nula. Os presidentes do Parlamento terão pela frente a devastadora delação da Odebrecht, assim como quase toda classe política de todos os partidos.

Dois destaques na eleição da Câmara.

Destaque 1: Mariana Carvalho (PSDB/RO) peitou o partido, registrou candidatura avulsa para segunda secretaria fazendo o candidato oficial retirar a candidatura e sendo eleita a única mulher na mesa.

Destaque 2: Jair Bolsonaro surpreendeu na véspera registrando candidatura no fim do prazo, mas só conseguiu míseros quatro (4) votos ficando atrás da candidata do PSOL, Luiza Erundina.

Constituição e regimento interno à parte, Rodrigo Maia é o favorito na eleição da Câmara

maia

Apesar de não oficializar sua candidatura a pedido do presidente Michel Temer, Rodrigo Maia (DEM/RJ) está trabalhando e deve ser reeleito em primeiro turno na eleição para presidente da Câmara para o biênio 2017/2018 no dia 2 de fevereiro.

Maia está buscando apoio do famoso centrão – união informal que reúne cerca de 200 deputados de partidos como PP, PSD, PRB, PR, PTB, PSC, SD – e esvaziando as candidaturas de Rogério Rosso (PSD/DF) e Jovair Arantes (PTB/GO). Ainda tem a candidatura de André Figueiredo (PDT/CE), que é mais para marcar posição e uma candidatura de oposição ao governo. Mas Maia vai atrás de apoios no PCdoB, PDT e PT, que ajudaram na sua eleição em julho passado.

No colégio eleitoral, Rodrigo Maia trabalha para garantir a vitória no primeiro turno e sabe que tem o apoio do Planalto, mesmo o governo dizendo que não vai interferir na disputa.

Confirmando a reeleição de Maia, a disputa tem tudo para ser ser judicializada. A Constituição e o regimento interno da Câmara dos Deputados são claros de que não pode reeleição do presidente da mesa na mesma Legislatura. Maia sacou a carta de que o seu mandato é complemento do mandato de Eduardo Cunha e, portanto, permitida a recondução ao cargo. Ele ainda conta com o fato do judiciário voltar após a eleição e o STF não querer intervir em uma questão interna após a tensão institucional do caso Renan Calheiros.

Ficamos assim: Governo Temer se fazendo de surdo e mudo, mas no bastidor torcendo e mexendo os pauzinhos a favor de Rodrigo Maia; por sua vez aposta que o STF quer distância de mais confusão com o Legislativo.

Temos saudades de um Brasil que nunca existiu

conselho-de-etica

A semana está emocionante na Câmara dos Deputados. Conspirações e manobras que ignoram o regimento se misturam com cenas de agressividade, xingamentos e de vale-tudo. No Conselho de Ética, nome que soa despropositado diante da rotina recente, não se consegue votar nada tantas são as manobras e chicanas de quem faz da ética um estorvo que precisa ser removido o quanto antes.

Tantas ocorrências, que mais parecem cenas de fim de baile estilo risca-faca, despertam comentários e análises sobre a degradação dos costumes políticos e do baixo nível da representação no Congresso. Afinal, estamos piorando e no passado não era assim. Certo? Não.

É fato que a qualidade do nosso parlamento e da classe política em geral beira o deprimente. Duvido que exista um brasileiro que possa se orgulhar do nível médio dos políticos que nos representam. Mas, por mais lamentável e perversa que seja a atual safra de “homens públicos”, já tivemos algo muito melhor?

É claro que não. Desde sempre estamos à mercê do que há de pior na representação política. Sempre mesmo. Ou será que alguém acredita que os parlamentares escravagistas dos tempos de império tinham mais caráter que os Cunhas da vida? Você de fato acredita que os oligarcas da época da política Café com Leite eram mais honestos que os atuais mensaleiros e trensaleiros? Ou que a turma que apoiava AI-5, prisões e torturas durante o ciclo militar tinha mais espírito público que um Feliciano ou um Sibá Machado?

Não podemos esquecer que em outros tempos o Senado Federal já foi até cenário de um assassinato. Em 1963, o nobre senador Arnon de Mello, pai de Fernando Collor de Mello, disparou da tribuna contra o desafeto Silvestre de Gois Monteiro. Ruim de pontaria, acabou fulminando o senador José Kairala, que morreu horas depois. Obviamente, ninguém foi punido.

Foi à bala também que o então governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, tentou em 1993 resolver diferenças com o antecessor Tarcisio Burity. Em um restaurante de João Pessoa, o pai do atual líder do PSDB no Senado acertou três disparos no inimigo. Burity resistiu, processou o governador-justiceiro e morreu 10 anos depois sem que o processo tivesse sido concluído. Em 2007, quando o STF estava perto de julgá-lo, o então deputado Cunha Lima renunciou ao mandato para que o processo retornasse à Justiça da Paraíba. Morreu impune em 2012, exatos 19 anos após os tiros!

Esses são apenas alguns poucos exemplos de como nossos costumes jamais foram de provocar alguma manifestação de orgulho. E os Anões do Orçamento? E o reinado de Inocêncio Oliveira como presidente da Câmara dos Deputados? E a renúncia de ACM, então presidente do Senado, pilhado em investigações sobre violação de sigilo no painel de votações da Casa? E os parlamentares que se locupletavam durante a construção de Brasília?

Bem, eu poderia encher mais um monte de parágrafos com lembranças sobre malfeitos de deputados, senadores, presidentes, imperadores, governadores etc ao longo da nossa história. Mas vou poupá-los.

Lamentavelmente, o que se assiste nesses dias não é a degradação, mas a reprise do que sempre fomos. O “nunca antes na história desse país” é uma falácia quando tenta convencer alguém ou a todos das virtudes de um passado que foi sem nunca realmente ter sido. Mente quem diz ter saudades de um Brasil que jamais existiu.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.