Radicalização do PT é ‘cortina de fumaça’. Haddad é o ‘plano B’

O day after após a confirmação da condenação de Lula por corrupção e lavagem de dinheiro no TRF4 foi sangue nos olhos, provocação, ameaça de desobediência civil e o lançamento oficial da pré-candidatura do ex-presidente, mesmo com poucas chances de ter o registo deferido pelo TSE.

Mas, nos bastidores, o PT prepara Fernando Haddad para ser o “alter-ego” de Lula. O próprio ex-presidente já havia colocado o ex-prefeito de São Paulo como coordenador do seu plano de governo e cita educação nos seus discursos Brasil afora. A ideia é ir apresentando Haddad aos poucos até para não esvaziar a imagem de Lula, o que é importante tanto para Lula quanto para Haddad.

Jaques Wagner, o outro nome ventilado, prefere reeleger Rui Costa governador da Bahia e assegurar uma cadeira no Senado Federal.

Acho que Fernando Haadad tem sim chance de pegar uma parcela do fiel eleitorado de Lula. É verdade que Haddad nem ao segundo turno foi na tentativa de reeleição como prefeito, mas aquele eleitorado que está com Lula até ele preso (sim, existe) pouco se importa ou nem sabe quem é Haddad. Basta ligar Haddad a Lula igual fizeram com Dilma. E com a vantagem de que Haddad é muito mais inteligente do que Dilma e não vai precisará de um João Santana para se apresentar nacionalmente.

Outra coisa que me leva acreditar na chance de Haddad ir ao segundo turno é que a linha de corte de 2018 não deve ser muita alta, pela pulverização de candidatos. É muito cedo para saber quantos candidatos realmente disputarão o pleito presidencial, mas é possível calcular de 10 a 12. Nas últimas eleições Serra (32,61%) e Aécio (33,55%) foram ao segundo turno na casa dos 30%, enquanto Marina Silva ficou de fora com 19,33%, em 2010, e 21,32%, em 2014.

Para 2018, a possibilidade de um candidato ir ao segundo turno com 25% dos votos válidos é grande. E vou mais longe: não descarto com 20%, se a disputa for com muitos candidatos competitivos no pilotão de frente.

Haddad é, sempre foi, o ‘plano b’ do PT e de Lula.

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Haddad é um dos melhores quadros que restaram no PT

haddad Fiquei crítico ao prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), por algumas bobagens que o seu governo andou fazendo e, principalmente, por causa dos “baba-ovo” com essa frescura de “prefeitão” pra lá e “prefeitão” pra cá. Mas o prefeito Haddad tem uma cabeça aberta e pensa realmente no futuro da cidade.

Haddad é um dos melhores quadros que restaram no PT. Vai ser uma pena se ele for queimado pela crise que passa o partido.

Fernando Haddad tem um perfil de governante moderno e que não faz populismo. Ele toma medidas de acordo com suas convicções e o que acha melhor para a cidade de São Paulo. E isso é um dos motivos da sua popularidade ter despencado a níveis mais baixo que o pré-sal. Haddad visa o futuro e não apenas o presente, e muito menos o passado.

O problema do Haddad é que ele não faz populismo, mas governa para minorias e essas minorias não são pobres moradores da periferia. Haddad está governando para grupos de ativismo como os ciclistas, por exemplo. Se não mudar e passar a governar olhando mais para periferia (fundamental para sua eleição), o prefeito corre risco de não conseguir recuperar popularidade e a reeleição, se entrar na disputa.

Nessa entrevista, Haddad deixou claro que não pensa na reeleição agora. Se foi sincero não sei, mas pareceu.

Ciclovias e um tiro no próprio pé de Haddad

ciclovia-SP

Embora seja um tema fora das eleições 2014, as ciclovias que o prefeito Fernando Haddad está construindo em São Paulo têm tudo a ver com política. Como não é surpresa, quem é a favor do projeto do prefeito aplaude e acusa quem é contra de ser coxinha e de pertencer à elite paulista que trata o carro como um verdadeiro ente da família. E, claro, dos governistas que vão fundo na crítica e chamam quem é contra de elite paulista fascista, deturpando completamente a palavra “fascista” e levando o debate para escuridão. Além do outro lado dizendo quem usa bicicleta é que é elite. No Brasil, o bom senso é estuprado em cada debate polêmico.

Antes de tudo, não sou paulista e não moro em São Paulo. Mas acho que posso palpitar sobre esse assunto. Torci pela vitória de Fernando Haddad na campanha de 2012. Observava nele um jovem com futuro e com visão que tanto a política brasileira clama e por seus adversários, José Serra e Celso Russomanno. Haddad era, de longe, o melhor nome na disputa. Um sopro de novidade que São Paulo precisava.

Tudo vinha na normalidade até junho de 2013 – ah, junho de 2013. Marco da mudança (boa e ruim ao mesmo tempo) de como o brasileiro vê os políticos e a política brasileira. A popularidade dos governantes despencou. Da presidente da República a governadores e prefeitos. Alguns se recuperaram. Outros, não. Haddad embicou para baixo chegando a incrível marca de 47% de rejeição ao seu governo.

Eu não sou contra as ciclovias, mas vejo que sair pintando ruas não vai resolver o grave problema de mobilidade da cidade de São Paulo. Muito pior é sair por aí acusando quem é contra a medida do prefeito de folgado que prefere carro por preguiça e por status. É preconceito. Não, quem prefere usar bicicleta para ir trabalhar não é só a elite, mas também não beneficia o trabalhador mais humilde que mora no outro lado da cidade e que precisa pegar vários ônibus para ir e voltar. Ciclovia é para poucas distâncias. Você usar isso para a população pobre chega a ser desumano. São Paulo é muito grande para o principal meio de transporte, principalmente para quem mora longe do trabalho, ou seja, os mais pobres, ser bicicleta.

Essa população quer é mais ônibus com conforto, metrô e trem funcionando decentemente e com preço justo. E atenção: Pobre não tem ódio a carro. Quem não tem é porque não pode ter um. Prioridades. Por isso que acredito que o prefeito Haddad errou na estratégia. Se essa ideia foi para agradar a população mais pobre, para melhorar o trânsito, ela está errada. Um tiro no próprio pé do prefeito. Isso joga mais lenha na fogueira na eterna luta de classes entre ricos contra pobres – elite contra trabalhadores.

O funk da discórdia

Baile-funkVamos aos fatos: a Câmara de São Paulo aprovou um projeto de lei que proibia bailes funk em vias públicas (onde, até onde eu sei, são realizados 99% desses bailes). O Prefeito Fernando Haddad (PT) vetou o projeto alegando que “O funk é uma expressão legítima da cultura urbana jovem, não se conformando com o interesse público sua proibição de maneira indiscriminada nos logradouros públicos e espaços abertos”.

Parte da opinião pública criticou duramente o Prefeito usando “argumentos” como o de que isso é “populismo” e forma de “comprar voto dos funkeiros”.

Agora vamos analisar a situação passo a passo. O projeto é absurdo. Não sei se é ilegal, creio que não, já que se trata de vias públicas, mas é, ainda que extra-oficialmente, censura. Tentar impedir qualquer manifestação cultural tem esse nome. O funk, como disse o Prefeito Haddad, é uma manifestação cultural. Se é boa ou é ruim, não sou eu, nem você, nem os vereadores, nem o Haddad quem tem que dizer. O que eu, você, os vereadores ou Haddad gostamos em termos de música não importa.

Se existem uma, duas, dez ou cinco mil pessoas que gostam de funk e querem ir ao baile, que se permita o baile, ué. “Ah, mas faz barulho”. Admita: seu problema não é com o barulho, mas com o que ele diz. Isso não é exatamente ruim, já que o direito que o cara tem de ouvir funk é o mesmo que você tem de não gostar. Mas daí a querer que ele ouça em casa, vai uma grande diferença.

Vamos a um exemplo prático: eu não gosto de funk. Não por causa das letras, nem do estilo de seus cantores, nem pela melodia, nem nada disso que a gente não precisa explicar quando diz não gostar de qualquer outro gênero. Só não gosto. Se eu estiver em um local e do lado houver um baile funk, eu possivelmente ficarei irritado. Só que isso não me dá o direito de proibir que o baile aconteça. Mesmo porque seria uma hipocrisia imensa da minha parte.

Eu gosto de samba, de Carnaval. Aqui em São Paulo, uma das maiores tradições em matéria de samba-enredo (e isso se estende por outros lugares daqui e do Rio) são os ensaios da Vai-Vai pelas ruas do Bixiga. Ora, como eu posso querer proibir o funk se o gênero que eu gosto faz o mesmo barulho? E admita, você também não ligaria se houvesse um show do seu artista preferido na porta da sua casa. Aliás, duvido que, fosse outro gênero, alguém sequer levasse uma Lei dessas para a câmara.

O funk vive, hoje, um preconceito que o próprio samba viveu no Século XX. É um assunto a ser explorado em outro texto, mas creio que a vontade de gritar que fulano tem moto x, carro y e “n” mulheres irrite um pouco quem não tem nem a moto, nem o carro e muito menos a mulher. É um preconceito diferente do que o samba viveu (ali havia uma ligação forte com o racismo, já que a escravidão ainda era coisa recente), mas preconceito.

Quando Fernando Haddad vetou o projeto de lei que proibia os bailes, ele não fez nada que mereça uma salva de palmas. Fez o que qualquer político, em 2014, deve fazer. Isso não é populismo: é liberdade de expressão.

Agora vamos à parte final. O barulho feito por essa tal “opinião pública” me deixa um pouco assustado. Não deveria, já que temos demonstrações dessas dia sim, dia também, mas ainda me deixa. É complicado pensar que estamos em 2014 e algumas pessoas ainda relacionam o gosto musical ao caráter de alguém.

Sim, o funk é patrocinado por muitos bandidos, traficantes e etc. Acredito que até alguns cantores tenham caráter duvidoso. Mas isso não significa que o cara que ouve funk vá roubar sua carteira. Novamente recorro ao samba: o Carnaval foi e ainda é patrocinado por bicheiros, traficantes, mas tem, por trás de cada um deles, milhares de pessoas que suam sangue por sua comunidade. Pessoas honestas, trabalhadoras, de bem.

É completamente absurdo ligar uma coisa com outra. O fã de Justin Bieber é acusado de pichar muros, arrebentar hotéis e transgredir regras? O fã de João Gilberto é tido como alguém que não cumpre horários? O torcedor do Botafogo é acusado de bolar golpes do tipo pirâmide de Ponzi? E os jovens ricos que financiam o tráfico de drogas de maneira muito mais séria que através de um baile funk? Sim, subir o morro pra comprar maconha ainda é mais grave do que ouvir funk.

Que fique claro que nesse jogo de opressor e oprimido, o segundo só não toma a mesma postura preconceituosa por falta de oportunidade. Experimenta trocar o baile funk por uma ópera em um sábado qualquer pra você ver. A filosofia do “minha vontade é o que vale” impera por aqui em todas as classes. Aliás, é a coisa mais democrática e que une ricos e pobres que temos no Brasil desde que o ingresso no Maracanã ficou mais caro.

O Brasil sempre se orgulhou de ser terra de todos, um mosaico de diferentes culturas, etnias e gostos. Mas, a cada dia que passa, fica mais evidente que todos são iguais, mas, em geral, todos nós queremos ser mais iguais que os outros.

Leonardo Dahi