“Não vejo em Bolsonaro um conservador”

Uma entrevista com um membro da dita “nova direita” que declarou voto em Fernando Haddad para evitar Jair Bolsonaro. Marlos Ápyus foi por alguns anos no Twitter um aguerrido ativista contra governos petistas, perdeu amizades e oportunidades profissionais. Marlos defende que o agora presidente eleito não é conservador, como fazer oposição ao governo de Bolsonaro, comenta sobre o Partido NOVO, garante que o PSDB como conhecido acabou e chama o governador eleito de São Paulo, João Doria, de “Donald Trump genérico”.

Vale a leitura e refletir mesmo se você não concordar com suas palavras.

Como se sente um membro da “nova direita” que passou anos combatendo o PT tendo que votar no partido?

Foi terrível ter que votar no PT. Mas, perto de outras situações vividas neste 2018, foi até fácil. Três palavras rondam a mente: frustração, culpa e vergonha. Frustração por ver uma direita que só falava em Reagan, Thatcher e Churchill querer que o Brasil engula Major Olímpio, Joice Hasselmann e todo o clã Bolsonaro. Culpa por saber que os últimos anos do meu trabalho foram úteis à ascensão do que considero o pior presidenciável da história da nossa jovem democracia. E vergonha por ter que baixar a cabeça e reconhecer que havia sentido em muitos dos alertas feitos pela esquerda nos últimos anos. Em especial, aquele sobre o despertar da extrema-direita.

O que essa “nova direita” errou de 2013 pra cá para ter esse segundo turno?

Foi tolerante demais com a intolerância. Desde o início estava lá o germe do autoritarismo, e eu mesmo fiz pouquíssimo caso dele, aleguei que se tratava apenas de um punhado de cartolinas falando em intervenção militar. A ideia deveria ter sido esmagada ali. Nenhum passo poderia ser dado antes disso. Lembro de o MBL se esforçar para tirar o caminhão dos “intervencionistas” dos protestos pelo impeachment, mas fracassar seguidamente. Corta para 2018: o MBL defendendo Jair Bolsonaro com unhas e dentes. O mesmo MBL que eu tanto defendi.

De novo: frustração, culpa e vergonha.

O que fazer e como fazer oposição a Bolsonaro?

O PT já experimentou ser a oposição irresponsável que historicamente era. E não conseguiu derrotar o governo Temer (já ao final do primeiro turno, Bolsonaro foi escolhido como candidato da situação, tudo ficou nítido no momento em que o Centrão migrou para o candidato do PSL). O desafio é ser oposição responsável. Como o PT não ajudará, será necessário fazer uma oposição descolada do petismo. E, para não repetir os erros do PSDB, é preciso fazer uma oposição firme. Para tanto, o segredo é simples, ainda que não seja fácil: saber reconhecer os acertos do governo, saber repreender os erros, não pecar por omissão, apresentar-se como uma solução e, principalmente, manter um diálogo ininterrupto com a opinião pública – essa indireta foi para Marina Silva.

O que acha do NOVO vencer em Minas Gerais e ter sua primeira experiência no Executivo em um grande e quebrado estado?

A criminalização da política é um erro que cometemos há muito tempo. Mais recentemente, piorou no que fracassamos ao não diferenciá-la da politização do crime. Sei que estou marinando ao falar assim, mas há uma linha clara separando os dois movimentos. Um é a busca do meio termo para pacificar conflitos. O outro e o uso de narrativas para livrar criminosos da cadeia. O primeiro não é errado. Mas o NOVO faz cara feia até para esse, e isso talvez seja o que mais me decepciona na sigla. Há tanto despeito com o mero diálogo que o NOVO só se permitiu apoiar – aquela nota de neutralidade era um apoio dissimulado que o partido não quis assumir – uma figura grotesca como Jair Bolsonaro, que de liberal tem praticamente nada.

Imagino que o governo de Minas Gerais será positivo para o NOVO deixar de ser verde. E, principalmente, verde-oliva.

A “nova direita” tem como se reagrupar novamente ou o elo se perdeu?

Eu acho que ela está bem agrupada em torno de Bolsonaro. Essa nova direita não votou em Bolsonaro com o pesar que eu votei em Haddad. Ela votou com orgulho. Tantas vezes, usando a desculpa de que fazia isso apenas para derrotar o PT. Mas não me convenceu. Do contrário, não faria as defesas tão apaixonadas do candidato escolhido.

Na sua opinião, o PSDB tem salvação ou só uma refundação e até trocar de nome?

O PSDB acabou. Aquela sigla da elite intelectual paulistana acabou. Alckmin já não era um expoente dela. E foi traído por um Donald Trump genérico, da série C. Que vai tentar transformar o partido, num primeiro momento, em mais uma linha auxiliar de Bolsonaro. Num segundo turno, num trator capaz de passar por cima daquele que agora jura apoiar. É um pouco a diferença entre futebol arte e futebol força. Doria está disposto a dar canelada, simular pênalti e chutar a bola para o mato. Tem quem ache bonito vencer assim. Mas eu sou da escola de Telê Santana.

O PSL chegou para ser o partido dos conservadores ou é apenas uma onda?

Não vejo em Bolsonaro um conservador. Bolsonaro é só uma mistura de mal com atraso e pitadas de psicopatia. E se cercou de gente assim. Conservadorismo é basicamente prudência. É ser firme na contenção de riscos por, como ninguém, saber dar valor a tudo aquilo que se tenta mudar. E o modo de fazer importa. Com honra, com ordem, com respeito, com o máximo de cuidado. Ou o exato oposto de como o bolsonarismo age.

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Entrevista: Eduardo Girão

Eduardo Girão é empreendedor e benfeitor que fundou mais de uma dezena de instituições beneficentes ajudando pessoas em situação de vulnerabilidade. Eduardo também ostenta em seu currículo um curto mandato como presidente do Fortaleza Esporte Clube, porém de muito benefícios na história do clube resgatando as finanças em ruínas e o acesso para 2ª divisão do futebol nacional.

Resolveu entrar para política se candidatando a 1 das 2 vagas do estado do Ceará ao Senado Federal. Concedeu entrevista ao Brasil Decide.

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Por que resolveu entrar para política?

Como empresário e ativista de causas sociais, sempre me interessei pela política, mas nunca pensei em me engajar na política partidária como candidato. Porém com o atentado a tiros que aconteceu numa escola americana onde meus filhos estudavam, me fez refletir o quanto o mundo necessita de paz. Vendo a situação grave da violência no Brasil e em especial no Ceará, pensei que não poderia me omitir, foi quando me motivei a disputar uma vaga para o Senado, focando desenvolver políticas públicas que melhorem a vida da nossa sociedade.

Como pretende atuar no Senado caso eleito?

De todas as formas, principalmente promovendo ou defendendo projetos de lei que defendam as causas da família, da ética, contra a corrupção, enfrentando sem descanso os interesses escusos e a má utilização da política para benefício próprio.

Você é o movimento pró-vida, obviamente se opões ao aborto. Em qualquer circunstâncias ou ressalvando os casos previstos em lei?

Sim, como muita alegria sou militante do projeto pró-vida há muitos anos, sempre na defesa da vida desde a concepção e totalmente contrário ao aborto. Sou um cidadão e como homem público tenho que respeitar a lei, por isso defendo que não se amplie a legislação que já permite o aborto para casos de estupro e risco de vida da gestante. Mesmo assim advogo que uma mulher que por exemplo iniciar uma gestação advinda de um estupro e por decisão dela, em nome da preservação da vida decidir ter a criança, esse bebê poderá ser doado para a adoção. Inclusive quero promover políticas para desburocratizar o processo de adoção. Por fim, sou totalmente contra a prática de aborto para crianças anencéfalas.

Defende a flexibilização do estatuto do desarmamento?

Sou a favor de um controle de armas. Não acredito que armar a nossa população irá resolver o problema da violência. Na verdade muitas armas em circulação pode até acabar em tragédias. Reafirmo, pois, que sou um defensor do controle de armas e por isso buscarei promover a desburocratização exclusivamente da concessão da posse, que continuará a ser concedida exclusivamente pela Polícia Federal, direito esse que está sendo inexplicavelmente negado ao cidadão, mesmo cumpridos os ditames legais.

O Brasil está mudando demograficamente, apoia uma reforma na Previdência?

Com o avanço da ciência e da medicina, a expectativa de vida das pessoas está cada vez maior. Isso apesar de muito bom, tem impactos na economia como um todo e em especial na Previdência Social. Acredito na necessidade de uma reforma estruturante no custeio e arrecadação da nossa Previdência, pois do jeito que está em poucos anos há a possibilidade do pagamento das aposentadorias estar comprometido. Vejo porém que a proposta da reforma como está hoje tramitando no Congresso Nacional, necessita de diversos ajustes. Defendo ainda a necessidade de uma maior arrecadação para custear a Previdência Social, e para isso teremos que promover o ingresso de pessoas no trabalho formal e reduzir os trabalhos sem carteira assinada.

Conhece e o que acha do movimento “escola sem partido” e da ideologia de gênero nas escolas?

Escola, assim como a nossa casa é um lugar de crescimento e evolução do ser humano, lugar de aprendizado e respeito. Não acho justo se aproveitar da inocência das crianças e adolescentes para imposição de idéias de qualquer viés político ou ideológico. Portanto sou a favar da escola sem partido. A mesma justificativa uso para ser contra a ideologia de gêneros, crianças e jovens em momento de formação de caráter não podem ser manipulados na sua inocência. Sou contra porém qualquer tipo de preconceito e defendo o respeito ao ser humano.

Entrevista: Tabata Amaral

Tabata Claudia Amaral de Pontes é uma jovem de 24 anos da Vila Missionária, periferia de São Paulo, que conseguiu estudar nos Estados Unidos e é ativista por uma educação brasileira de qualidade para que todos tenham a chance que ela, uma moradora da periferia filha de um cobrador de ônibus e uma bordadeira, conseguiu.

Após estudar ciência política e astrofísica com possibilidade de morar nos EUA, Tabata preferiu retornar ao Brasil e criou o Mapa da Educação, organização social com objetivo de que a educação seja prioridade para eleitores e eleitos. Junto com outros jovens líderes de todo país criou o movimento político Acredito e resolveu sair candidata ao cargo de deputada federal por São Paulo.

Nessa entrevista que concedeu para o Brasil Decide, Tabata fala de como pretende agir se eleita para Câmara dos Deputados, não fugiu de pautas pertinentes ao parlamento se posicionando sem medo sobre assuntos espinhosos para uma candidata debutante na política partidária e eleitoral. Temas com o aborto, drogas, armas de fogo, política nas escolas, etc.

Tabata cumprimenta Barack Obama (foto de 2017)

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Por que escolheu o PDT para sair candidata a deputada federal?

Tenho uma grande afinidade com o partido que escolhi, que é a pauta da educação. Esta é minha maior bandeira e o que motiva o meu ativismo há muito tempo. Além disso, o PDT foi um dos poucos partidos a assinar uma carta-compromisso com o Movimento Acredito reconhecendo nossa liberdade política e de funcionamento. Isso significa muito para mim.

Qual o meio que buscará para bancar sua campanha?

Temos uma plataforma de financiamento coletivo [https://votolegal.com.br/em/tabataamaral/] para custear parte dos gastos. Outra parte virá de doações de pessoas físicas, captadas de forma transparente e legal.

Sua bandeira é a educação, como defenderá ela na Câmara?

Tenho como prioridade a reformulação do ensino médio, para que a escola permita aos jovens ter chances iguais de entrar na universidade e no mercado de trabalho, e o prepare para a vida. Além disso, é preciso garantir uma maior oferta de cursos técnicos que atendam às exigências do mercado de trabalho e garantam oportunidades de emprego. Por fim, é fundamental garantir a valorização dos professores, com um novo olhar para a profissão, valorizando a carreira através de melhor remuneração, condição de trabalho e formação para os professores. Essas são questão fundamentais, que precisam ser colocadas em pauta se quisermos avançar!

Acredito que é preciso ter vontade política para fazer andar os debates em torno da educação no Brasil. Muitos diagnósticos a respeito dos nossos principais problemas já foram feitos. O que precisa é gente com vontade de fazer. Eu tenho!

O que acha da discussão de gênero nas escolas e do “escola sem partido”?

Acredito que a escola deve ser vista como um espaço em que se fala de diversidade e respeito às diferenças, não como uma imposição, mas como uma abertura ao diálogo e ao combate à violência. Acredito que quando isso acontece, toda a sociedade sai ganhando.

Em relação ao projeto Escola Sem Partido, me posiciono contra. Não concordo com a influência partidária dentro das escolas, mas acredito que a política faz parte da nossa vida enquanto comunidade e nação. Sendo assim, não há razão para mantê-la longe das escolas e da formação das nossas crianças. Entender as atribuições de Deputados e Vereadores, aprender sobre diferentes teorias e correntes políticas, debater sobre as leis e decisões cotidianas que impactam diretamente a nossa vida deveria ser atividade cotidiana e curricular em todas as instituições educacionais do nosso país.

Qual seu posicionamento sobre aborto, posse e porte de arma de fogo, e descriminalização das drogas?

O aborto é um tema que, independente de opiniões e crenças pessoais, deve ser amplamente debatido pela sociedade, de forma transparente e democrática. Trata-se, antes de tudo, de um problema de saúde pública que coloca em risco a vida das mulheres mais vulneráveis e precisa ser tratado com muita seriedade.

Também acredito em uma nova política de drogas, em contraponto a uma guerra cara e ineficiente. O debate da descriminalização precisa acontecer. Defendo a ênfase na legislação para reabilitação do usuário e assistência social às populações vulneráveis.

Em relação ao porte de armas, me posiciono contra. Na área da segurança, acredito na reformulação da carreira policial, com ênfase na valorização e formação que garanta aumento da capacidade e na redução da letalidade.

Entrevista: João Goulart Filho

João Vicente Fontella Goulart é filho de João Goulart, o presidente deposto em 1964. Foi filiado ao PDT até 2017, quando deixou o partido e filiou-se ao PPL para disputar o cargo que seu pai teve o mandato interrompido há 54 anos.

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Sua candidatura é para recuperar o legado interrompido pelo golpe de 1964 de seu pai ao menos na campanha?

João Goulart Filho: Sim. Minha candidatura visa recuperar o legado do governo trabalhista de Jango, interrompido pelo golpe pró-imperialista de 1964. Nosso país recuperou democracia política, mas nenhum governo do período democrático conseguiu desenvolver o país de forma sólida e independente. Todos os governos – mesmo os que tentaram – mantiveram o país na órbita do neoliberalismo, uns com mais medidas compensatórias e outros com menos. Romper o modelo dependente é vital para que o Brasil consiga se desenvolver. O Modelo nacional desenvolvimentista trouxe um grande desenvolvimento para o Brasil. Deixamos de ser uma fazenda exportadora de café para sermos um país industrializado. Essas décadas de neoliberalismo estão fazendo o país retroceder novamente para se tornar um país exportador de produtos primários.

Sua ideologia é o trabalhismo de Getúlio, Brizola e Jango?

JG: Sim. Edu e o PPL nos consideramos herdeiros políticos do trabalhismo. Por isso, inclusive, vemos a retomada do desenvolvimento pela ótica dos trabalhadores. Neste sentido é que defendemos dobrar o salário mínimo em quatro anos, aumentar as aposentadorias com o fim do Fator Previdenciário e outros instrumentos que a reduzem e revogar a reforma trabalhista.

Senhor fala em estatizar a Vale (Rio Doe), não é muito tarde e um assunto ultrapassado que nem a esquerda fala mais?

JG: É fundamental que a renda da terra, e particularmente a do subsolo, seja revertida para fundos que promovam o desenvolvimento. A Vale foi privatizada a preço ínfimo, com o pretexto de que gestão privada era mais eficiente. A realidade se encarregou de desmentir essa falácia. A Vale privatizada foi responsável pelo maior crime ambiental de toda a história brasileira. Essa chamada “esquerda” que não fala no assunto, é a “esquerda” neoliberal, a mesma dos ajustes fiscais, dos Meirelles no BC e Joaquim Levy na Fazenda.

Privatizar a Petrobras (Banco do Brasil, Caixa) nem pensar?

JG: Pelo contrário. Temos que fortalecer o caráter estatal da Petrobrás. É uma empresa exemplar. Foi ela que descobriu o pré-sal e é a mais avançada tecnologicamente do mundo. Não há porque entregá-la para o cartel chefiado pela Chevron americana. Isso não tem o menor cabimento. Com o cartel no comando a extração e o refino serão ditados pelos interesses deles. Todo o lucro obtido será remetido para o exterior. Nós temos que criar mecanismos para que o grande excedente obtido com a exploração, refino e venda de petróleo seja revertida para fundos públicos de desenvolvimento.

Sua candidatura seria o extremo de Ciro Gomes assim como Cabo Daciolo seria o extremo de Jair Bolsonaro?

JG: Minha candidatura representa o caminho para o país sair da crise porque está tocando na questão central para isso. Enfrentar a brutal concentração de renda provocada pela política neoliberal. O salário mínimo brasileiro é um dos menores do mundo. Menor até do que o do nosso pequenino vizinho Paraguai. Enquanto isso os bancos que atuam no Brasil têm a maior rentabilidade do planeta. Há no exterior um montante de trilhões de reais mandados para fora pelos rentistas.

Qual sua opinião sobre aborto, armas e ideologia de gênero nas escolas?

JG: Eu nasci em uma família católica e na essência moral e de posicionamento pessoal, eu sou contra a interrupção da gravidez e da gestação da vida humana. Por outro lado, acho que é um assunto que a sociedade brasileira deve decidir. A permissão ou não da interrupção da gravidez é assunto para ser resolvido em plebiscito e/ou consulta popular nacional. Em minha visão, os casos em que a interrupção da gravidez é necessária, são exceções. E, para a garantia da integridade física e psicológica da gestante, deverão ser realizados apenas na rede pública e por decisão que não pode excluir nem o médico nem o assistente social – além da mulher, é claro. Pior de tudo são os abortos paralelos das mulheres mais pobres que sofrem atrocidades em clínicas clandestinas ilegais. Acho que o interesse da mulher não é interromper a gravidez, é ter o filho e cuidar dele. O Estado precisa garantir esse direito dando a assistência necessária, e não está garantindo. Essa é, em minha opinião, a principal causa do elevado número de abortos que assola o país. Sou de opinião, por fim, de que não se deve jogar sobre os ombros de uma mulher sozinha a “resolução” de um problema social. A luta central é para que o Estado garanta plenamente o direito à maternidade.

Sobre as armas, devem se manter as regras atuais. No entanto deve-se diminuir a burocracia e os obstáculos nos casos – aprovados no plebiscito – em que se justifique o porte de armas. Somos contra, por fim, a implantação do tema da ideologia de gênero nas escolas.

Eleição sem Lula é fraude?

JG: Não. Sou a favor da Lei da Ficha Limpa.

O próximo presidente vai pegar um país com orçamento cada vez mais esgarçado. Qual sua ideia para equacionar a dívida pública e diminuir o déficit na contas públicas?

JG: Reduzir ao patamar internacional os juros reais (juros nominais menos inflação), especialmente a taxa básica (Selic) que remunera os títulos emitidos pelo governo. Assim será possível destinar ao investimento público vastos recursos que, desde FHC, são desperdiçados em pagamentos de juros astronômicos. A redução dos juros somará ao investimento público mais de R$ 100 bilhões anuais, fará cessar o esmagamento do setor produtivo pelos bancos e fundos de investimento, em sua maioria internacional, e terá papel fundamental para equilibrar o câmbio, tornando-o favorável à produção nacional. Fortalecer os bancos públicos, especialmente o BNDES, Banco do Brasil e Caixa. Extinguir a TLP, restabelecer a TJLP para financiamentos públicos de longo prazo, destinar esses recursos às empresas genuinamente brasileiras, tanto as privadas que operam em regime de concorrência quanto as estatais. Bilhões para multinacionais e pretensos “campeões” do tipo Odebrecht, JBS, EBX, Oi etc, nunca mais! Revogar a Emenda constitucional do Teto do Gasto Público.

Como principal alavanca do desenvolvimento econômico, o investimento público será elevado também pela canalização para este fim da renda petroleira, hídrica, eólica e outras modalidades de renda da terra. Fortalecer o caráter estatal da Petrobrás e da Eletrobrás, reverter às privatizações que minam a capacidade operacional dessas empresas. Reestatizar a Vale. Criar a Empresa Brasileira de Comércio Exterior. Mudar os regimes de concessão e partilha na exploração de petróleo para o de contratação de serviços. Riqueza maior da nação, o pré-sal deverá ser submetido a um rigoroso controle nacional, com a anulação dos leilões e a instalação da Petrobrás como operadora única nesses campos.

O terceiro pilar da ampliação da capacidade de investimento do Estado será suprimir as isenções distribuídas irresponsavelmente na farra das desonerações que elevaram a renúncia fiscal de 8,45% a 21,32% da arrecadação, ultrapassando os R$ 234 bilhões em 2017. Revogar a Lei Kandir que isenta de ICMS produtos e serviços destinados à exportação. Revogar a isenção da contribuição previdenciária para o agronegócio. Estabelecer um imposto progressivo sobre as remessa de lucros das multinacionais para suas matrizes no exterior. Revogar a lei que isenta de impostos as importações das petroleiras estrangeiras instaladas no Brasil. Combater de forma rigorosa a sonegação. Promover uma Reforma Tributária Direta e Progressiva que elimine impostos indiretos, taxando a renda e a propriedade dos grandes e não o salário dos pequenos.

O quarto pilar da ampliação do investimento público será o combate sistemático à corrupção, a defesa efetiva da Operação Lava Jato e da Lei da Ficha Limpa, a luta incessante pela moralização administrativa, pela regeneração dos costumes políticos, e a punição exemplar dos desvios de conduta. Sem a confiança do povo no setor público não haverá desenvolvimento. Realizar uma Reforma Política e Eleitoral que minimize a interferência do poder econômico na vida pública, que remova os políticos e partidos inidôneos, revogue o foro privilegiado e o vergonhoso Fundo Eleitoral, amplie a participação da população nas decisões arejando a democracia representativa com as consultas, plebiscitos, referendos e conselhos ao invés de circunscrever aos plenários do Congresso e gabinetes dos ministros as decisões sobre as questões nacionais.

Reforma da Previdência está no seu plano de governo?

JG: As aposentadorias, além de ser um direito de quem trabalhou a vida inteira, é também um fator fundamental para a distribuição de renda. Por isso qualquer medida que vise reduzi-las vai na direção de contrair o mercado interno. Nós somos a favor sim de mudanças na Previdência. A principal delas é o fim do Fator Previdenciário e outros mecanismos de redução das aposentadorias.

Pretende revogar a reforma trabalhista ou revisar alguns pontos?

JG: Vamos revogar a reforma trabalhista que retirou direitos dos trabalhadores.

Entrevista: Daniel Coelho

Daniel Coelho é uma jovem liderança política de Pernambuco. Surgiu no cenário político na eleição para prefeito de Recife, em 2012, conseguindo superar o candidato do PT e quase levando a eleição para o segundo turno contra o candidato Geraldo Júlio, apoiado pelo governador Eduardo Campos.

Com essa grande e surpreendente votação se candidatou a deputado federal na eleição de 2014, foi eleito com mais de 100 mil votos. Em Brasília, Daniel Coelho logo se tornou um aguerrido deputado de oposição ao governo Dilma Rosusseff e a favor de seu impeachment.

Seu idealismo entrou em rota de colisão com o seu partido, o PSDB, não aceitando fazer parte do governo do presidente Michel Temer, votando duas vezes a favor que o STF analisasse as denúncias da PGR contra Temer imediatamente. Além disse, Coelho era do grupo dos chamados “cabeças pretas”, mais liberal, com quem disputava as diretrizes do partido com o grupo dos “cabeças brancas”, da velha guarda.

Daniel Coelho já não se sentia mais confortável no PSDB não só pelo rumo que o partido tomava e a situação política e jurídica de Aécio Neves. A gota d’água para sua saída foi o desentendimento com a cúpula pernambucana do partido e filiou-se ao PPS, que pretende junto com vários movimentos mudar o nome e estatuto do partido em breve.

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O que você acha dessa história toda envolvendo PT, PSB e Marília Arraes?

PT e PSB são autoritários. Acho eles iguais. Fazem discurso fácil, irresponsável, não tem coerência. Pensam que podem manipular os fatos.

Quem mais errou PT ou Paulo Câmara em tentar interferir em outro partido com medo de não ser reeleito?

Eles são iguais. Sempre foram. São incoerência de quem só faz populismo.

O PPS apoia Geraldo Alckmin para presidente, você vai apoiar ou tem liberdade partidária se não quiser seguir o partido?

Para presidente ficarei independente no primeiro turno.

Nessa questão de aborto, você apoia a despenalização, deixa como está na lei ou radicalmente contra qualquer prática de aborto até os previstos em lei?

Aborto, manter lei atual.

Favorável revogar ou flexibilizar o estatuto do desarmamento?

Flexibilizar. Definir de forma mais objetiva porte e posse.

Nos 4 anos Câmara o que te deixou mais feliz e mais, vamos dizer, irritado?

Feliz: dia que aprovei o relatório que garantiu a continuidade do UBER e aplicativos no Brasil. Seriam mais de 1000 milhão de brasileiros que perderiam renda. Em país com 13 milhões de desempregados parecia algo desumano. Triste: quando o plenário não retirou Temer. Temos que mostrar a corrupção não tem partido. Votei para cassar Dilma, Cunha e Temer. Não achei certo tratá-lo diferente.

Qual o projeto ou ação de sua autoria te orgulha mais de ter realizado como deputado?

Tenho muito orgulho também da relatoria para que fosse feito o saque de FGTS inativo. Um roubo o governo segurar o dinheiro do trabalhador.

Quais seus planos para um novo mandato?

Ano que vem quero fazer a mudança do PPS. A mudança de nome e debate do estatuto estão em curso. Quero ver o Movimento 23 uma opção legal no campo partidário.