Fim de ciclo

O vídeo do programa partidário do PSDB rendeu polêmica e rachou de vez o partido. A ala governista criticou duramente o programa e o presidente interino da legenda, senador Tasso Jereissati. Ministros tucanos saíram ao ataque contra o programa e Tasso. “Não me representa [programa]”, essa foi a frase mais dita. A palavra no programa que mais irritou os neogovernistas tucanos foi “cooptação“.

Deputados ameaçam processar Tasso, por danos morais contra a Casa. Por sua vez, ele disse que não se arrepende de nada. Que quem ficou ofendido não entendeu a mensagem que o programa passou e entrega a presidência do partido ao Aécio Neves na hora que ele pedir.

1º Vice-presidente do Senado, Cássio Cunha Lima disse que quem sugeriu a palavra da discórdia foi o ex-presidente Fernando Henrique. O governo, claro, achou “deslealdade”. E o “centrão” intensificou os pedidos para que Michel Temer tire os ministérios do PSDB e entregue ao bloco que garantiu o arquivamento da denúncia da PGR contra o presidente. Ou seja: mesmo que não tenha sido a ideia de Tasso, o pedido do “centrão” pelos ministérios do PSDB ratifica a ideia de “presidencialismo de cooptação”, que foi usado por todos os governos da redemocratização – inclusive FHC.

O programa foi uma crítica ao presidencialismo de coalizão. Não especificamente ao atual governo ou governos anteriores. Foi uma autocrítica de ter esquecido a bandeira do parlamentarismo que está no estatuto do PSDB. A verdade é que a Social Democracia Tucana está se esfacelando em público com esse racha de quem quer sair do governo tóxico eleitoralmente de Temer e quem se agarrou aos cargos.

Nas eleições municipais de 2004, só 2 anos após perder o Planalto para o PT, o PSDB elegeu um grande número de prefeitos. Veio o mensalão e o partido preferiu “deixar o Lula sangrar” e derrotá-lo nas urnas ao invés de levantar a bandeira do impeachment. Resultado: Lula foi reeleito com 60% dos votos válidos no segundo turno e o candidato tucano Geraldo Alckmin conseguiu a proeza de ter mais votos no primeiro que no segundo turno.

2016, pós-impeachment de Dilma Rousseff, de novo o PSDB elege um grande número de prefeitos em todo Brasil – inclusive São Paulo, derrotando o PT no primeiro tuno que nunca tinha acontecido após adoção de 2 turnos em 1992 – e por egos e erros está jogando fora a chance de liderar o novo processo político tão demandado pela sociedade.

O PSDB perdeu a parte que votava no partido por pura falta de opção e antilulopetismo. Esse eleitorado conservador foi para Jair Bolsonaro.

Mas não é só PSDB, PT que estão ameaçados. A outra parte, a que deu sustentação aos governos dos 2 partidos que polarizaram a eleição presidencial a partir de 1994, o PMDB, está mudando de nome e voltando a se chamar MDB, quando era a única oposição institucional ao regime militar (1964-1985).

2018 pode ser devastador para a atual classe política. É por isso que estão desesperado para aprovar até 7 de outubro mecanismos de sobrevivência – distritão e fundo público de 3 bilhões de reais para a eleição sem especificar como o dinheiro será distribuído entre partidos e candidatos.

É o fim de um ciclo. Mas ainda não há o que colocar no lugar da Nova República que ficou velha precocemente. Vai depender do eleitor e o que ele vai fazer com o seu voto.

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Temer foi o menos votado entre os vices

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Político de notória capacidade de agir nos bastidores, Michel Temer jamais foi um grande sucesso quando encarou as urnas. De todos os vice-presidentes do Brasil após o ciclo militar, o atual é de longe quem teve o desempenho eleitoral mais modesto antes de integrar a chapa eleita para governar o país.

Desde a eleição indireta de Tancredo Neves em 1985, os vices do Brasil foram José Sarney, Itamar Franco, Marco Maciel, José Alencar e, por fim, Michel Temer. Os quatro primeiros eram senadores quando foram escolhidos para compor chapa com o presidente. Temer era deputado federal por São Paulo.

Quando foi convidado a se juntar a Tancredo Neves, Sarney cumpria mandato de senador pelo Maranhão. Foi eleito em 1978, com 409.633 votos, equivalentes a 64,16% do total. O vice seguinte foi Itamar Franco. Em 1982, o futuro sucessor de Fernando Collor de Mello arrebatou 2.398.361 votos para se eleger por Minas Gerais.

Em 1995 Itamar passou a faixa presidencial a Fernando Henrique Cardoso, que tinha Marco Maciel como delfim. Em 1990, o novo vice havia sido reconduzido ao Senado pelos votos de 910.802 eleitores de Pernambuco.

O empresário mineiro José Alencar foi o eleito com Lula em 2002. Na eleição anterior, conquistou assento no Senado com 2.902.133 votos, cerca de 29 vezes mais que o universo que levou Michel Temer para a Câmara Federal em 2006.

Na ocasião, o futuro vice de Dilma Rousseff obteve 99.046 votos na tentativa de renovar seu mandato. A reeleição foi por um fio. O PMDB garantiu duas cadeiras. Temer foi o terceiro entre os candidatos do partido. A vaga só foi confirmada após os cálculos da sobra de votos, que deu ao PMDB mais um assento, o que garantiu Michel Temer na Câmara por mais quatro antes.

Entre a queda de Getúlio Vargas em 1945 e o golpe de 1964, os vices eram eleitos separados do candidato a presidente. Com isso, precisavam ser bem votados para assumir o cargo. Logo, pode-se dizer “que nunca antes na história desse país”, pelo menos desde o fim da República Velha, um político foi tão pouco votado antes de se tornar vice-presidente da república como Michel Temer.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

Hipocrisia tem limite

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A política é a arte de engolir sapos para conseguir um objetivo. Mas cuidado para não engolir mais do que o aceitável para não ter uma indigestão depois.

O PMDB realiza neste sábado (12), véspera das manifestações contra o governo Dilma, sua convenção partidária para eleger a nova (velha) direção. Michel Temer foi reconduzido a presidência do partido. Também foi acertado que cabe a direção nacional decidir no prazo de 30 dias se rompe em definitivo ou não com o governo. E essa indefinição do partido de rompimento com governo que ajudou a eleger é porque se sair do governo terá que entregar os ministérios que têm em mãos. Desde 1985, o PMDB nunca soube o que é ser oposição. O PMDB não vai sair do governo, só vai aguardar para assumir o comando.

lava-jato-pmdbMas o que mais me deixa embrulhado do estômago é o cinismo do partido divulgar um cartaz onde diz “Operação Lava-Jato. Há dois anos combatendo a corrupção no Brasil”, como se o partido fosse uma ilha de honestidade e não tivesse altos quadros enrolados até o pescoço na operação. Só para citar alguns figurões do PMDB que estão em débitos com a justiça: Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados) e Renan Calheiros (presidente do Congresso Nacional).

Tirar o PT do poder virou obsessão nacional. Claro que não vai acabar com a corrupção. Muito longe disso. Mas o governo Dilma acabou. Só falta cair e vai cair de “podre”. O governo não governa mais por culpa da incapacidade política de Dilma, da falta de compreensão do PT e da sede por poder do PMDB com ajuda da oposição que não deseja esperar até 2018. Dilma ficando a economia não anda porque o impasse político não terminará. E quem vai sofrer é o povo, principalmente os mais pobres que já sofrem com inflação, desemprego e um encolhimento do PIB de 3,8% em 2015, podendo chegar a 4% em 2016 – cresceu 0,1% em 2014. A economia brasileira não tinha três anos seguidos de recessão desde os anos 1930.

Agora, não venha me pedir para achar que o PMDB é mais limpo que o PT, meu estômago tem um limite para engolir sapos.

O aliado de ontem é o conspirador de hoje

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Tudo o que acontece agora na política brasileira, a agonia do governo Dilma, nasceu em 2010. O presidente Lula tinha uma popularidade fenomenal, de quase 90% de aprovação. A inflação controlada, economia crescendo quase 10%, políticas de distribuição de renda tirando milhões de brasileiros da extrema pobreza. Não precisava do PMDB para o PT vencer aquela eleição. Quem fosse o candidato apoiado por Lula venceria sem a companhia do PMDB.

Mas Lula não queria correr risco devolver a faixa presidencial ao PSDB, buscou fazer uma ampla aliança em torno de Dilma Rousseff para garantir o máximo de tempo no horário eleitoral e a tal governabilidade no parlamento. A governabilidade com o PMDB se mostrou falha e na eleição não trouxe votos para chapa. Pior: na eleição de 2014 o PMDB teve muita dissidência e em muitos estados o partido não apoiou a chapa presidencial que tinha o vice.

Lula poderia ter escolhido um vice do PSB, de Eduardo Campos, que ainda era aliado do PT. Ou um nome do PDT, do PCdoB, de outro partido da base que tinha mais história com o petismo. É ingenuidade pensar que se vence eleição sem aliança. Só que esse modelo de alianças baseado no pragmatismo se esgotou. O novo modelo de alianças tem que ser programático, de alianças que não sejam só pensando no tempo de TV, coligações com partidos que pensam mais ou menos iguais, uma coligação coesa e harmônica.

PMDB e PSDB, suas histórias se entrelaçam

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Michel Temer era um deputado federal sem a menor significância em São Paulo, foi o último deputado eleito na lista do PMDB. Lula o pinçou a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff já que o Michel é uma raposa felpuda e o único que consegue o mínimo controle das várias federações dentro do PMDB. Lula foi o fiador da aliança PT-PMDB; Michel foi o fiador dentro do PMDB. Tudo bem para 2010, mas a relação PT-PMDB azedou na segunda metade do primeiro mandato de Dilma e quase que a aliança não se repetiu em 2014. O partido se dividiu na convenção, mas a aliança com o PT venceu até com certa facilidade, por 69,7% a 30,3%.

Só que os dissidentes não aceitaram muito o resultado e várias correntes do PMDB em vários estados apoiaram outros candidatos para presidente. No Rio de Janeiro, por exemplo, o grupo comandado pelo ex-governador Sergio Cabral e Jorge Picciani fizeram aliança com a oposição – PSDB e DEM – e lançaram o Aezão (junção dos nomes de Aécio e Pezão). No Rio Grande do sul, o ex-senador Pedro Simon apoiou Eduardo Campos/Marina Silva (PSB). E outras facções do PMDB não acompanharam a orientação que venceu na convenção do partido.

O PMDB nasceu sem o “p”. O MDB nasceu para ser o partido de oposição oficial – Arena era o partido da situação – após a introdução do bipartidarismo pelos militares. Quem não seguiu para luta armada foi abrigado pelo MDB. Era a resistência institucional à ditadura. Sem querer tirar méritos quem perdeu a vida lutando nas guerrilhas, mas foi os opositores institucionais que mantiveram a resistência e conquistaram a Lei da Anistia, quase aprovaram a emenda da eleição direta para presidente e articularam a eleição de Tancredo impondo derrota ao candidato dos militares, Paulo Maluf, no colégio eleitoral. Alguns nomes da resistência institucional: Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Pedro Simon, Mário Covas, Teotônio Vilela, entre outros.

No apagar da ditadura o multipartidarismo foi restaurado surgindo a maioria dos atuais partidos, PT, PDT, PTB e o MDB virou PMDB. A aliança com os dissidentes da ditadura ajudou a eleger Tancredo Neves presidente com José Sarney de vice. Ulysses Guimarães não queria essa aliança. Sarney era senador pela Arena, foi líder dos governos militares no Congresso, saiu da Arena com vários colegas para fundar a Frente Liberal (na sequência viraria PFL, posteriormente Democratas) e se filou ao PMDB.

Para derrotar os militares, Ulysses aceitou a aliança e ajudou José Sarney a tomar posse no lugar de Tancredo – internado às pressas na véspera da sua posse e morreu semanas depois. Ulysses esperava que Sarney chamasse uma Constituinte e eleição direta para presidente. Sarney convocou a Constituinte, que elaborou a Constituição Cidadã de 1988 (Ulysses Guimarães foi o presidente). Ulysses foi o candidato do PMDB na primeira eleição direta para presidente desde 1960, mas não aceitou o apoio do presidente Sarney. Com aprovação popular no chão depois de vários planos econômicos ‘furados’ para controlar a hiperinflação, Ulysses tentou se desvincular do governo Sarney.

Mas teve outro duro golpe na candidatura de Ulysses. Entre 1987 e 1988 houve uma debandada de vários líderes do PMDB para fundar o Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB. Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, José Richa, Franco Montoro, Teotônio Vilela, José Serra, Tasso Jereissati foram alguns dos fundadores do partido que juntou conservadores, liberais, sociólogos e boa parte da esquerda do PMDB. Esse novo partido lançou Mário Covas candidato na eleição de 1989. Covas ficou em quarto lugar, mas muito à frente de Ulysses e atrás de Brizola (PDT) e dos dois candidatos que foram ao segundo turno, Collor (PRN) e Lula (PT).

Depois do fracasso da candidatura de Covas alguns líderes tucanos achavam melhor se reincorporar ao PMDB. A ideia não foi para frente e o PSDB deu sustentação ao governo de Itamar Franco, o vice que entrou no lugar de Collor. No governo Itamar, Fernando Henrique foi para o Ministério da Fazenda e liderou uma equipe de economistas que elaborou o mais bem sucedido plano contra a hiperinflação.

PMDB agora quer ocupar o espaço deixado pelo PSDB, mas os tucanos não se renderão fácil.

Ciro, Tasso, FHC e a candidatura a presidente em 1994

Ciro Gomes, que naquela época era do PSDB, disse em entrevista à TV Brasil (vídeo acima) que a equipe que criou a URV, origem do Plano Real, foi montada pelo Tasso Jereissati e por ele. Ciro disse na entrevista que FHC tomou a candidatura a presidente de Tasso. Segundo Ciro, Mário Covas pretendia se candidatar ao Governo de São Paulo e deixou o caminho livre para outro tucano pegar a candidatura para presidência.

Ainda segundo Ciro, Tasso esperava que FHC o chamasse para ser o candidato do PSDB, já que ele montou a equipe do Plano Real junto com Ciro. Mesmo ressentido, Tasso aceitou a candidatura de Fernando Henrique a presidente e se candidatou ao governo do Ceará. FHC foi eleito presidente no primeiro turno, Tasso eleito governador do Ceará e Ciro deixa o PSDB.

Ciro conta na entrevista que esse episódio foi a única vez que ficou contra Tasso, que o lançou na política. Depois desse episódio Ciro Gomes saiu do PSDB e foi candidato a presidente em 1998 e 2002, as duas candidaturas pelo PPS. Ciro ficou em terceiro em 1998 e não impediu que Fernando Henrique conseguisse a reeleição no primeiro turno. Na segunda tentativa de chegar ao Planalto, Ciro chegou a liderar as pesquisas da sucessão presidencial de 2002, mas logo caiu para o quarto lugar e lá ficou quando as urnas foram abertas.