Análise: Marina Silva no Jornal Nacional

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Na quarta e última entrevista com os candidatos à presidência da República mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais, o Jornal Nacional recebeu Marina Silva da Rede Sustentabilidade nesta quinta-feira. Repetindo o formato das sabatinas anteriores com Ciro Gomes, Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin, William Bonner e Renata Vasconcellos mantiveram a linha inquisidora nas perguntas endereçadas à ex-ministra, um formato que incomodou outras figuras da imprensa.

O primeiro assunto abordado foi a debandada ocorrida na Rede que, desde seu registro em 2015, perdeu diversos quadros que criticaram a inexistência de posicionamento do partido para os grandes problemas do País. Tentando tratar as saídas como algo natural, Marina disse que o respeito a seus antigos aliados continua e que, por isso, se entende como alguém capaz de unir pessoas com diferentes visões de mundo.

A temperatura da entrevista começou a subir quando o impeachment se tornou o tema. Lembrando que 50% da Rede foi favorável ao impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff, Marina disse que via margem para o impeachment pelo uso de Caixa 2 na campanha vencedora em 2014 e que Dilma e Temer eram “farinha do mesmo saco”. Todavia, Marina não explicou ao público que Dilma não caiu pelo suposto cometimento do crime de Caixa 2, mas pelas pedaladas fiscais.

Sobre a reforma da Previdência, a candidata afirmou a necessidade de haver um debate entre todos os segmentos e não apenas com empresários como Temer fez. Comentou ainda sobre a necessidade de combater os privilégios e estabelecer diferenças entre a idade mínima de homens e mulheres, visto que elas ainda têm a chamada dupla jornada.

O apoio dado a Aécio Neves no 2º turno de 2014 foi o questionamento seguinte. Ao declarar que, naquele momento, não sabia dos malfeitos do senador mineiro, Marina foi interrompida por Bonner que lembrou o episódio do aeroporto de Cláudio, obra que teria sido feita com dinheiro público para atender a família do então candidato tucano à presidência. Desconfortável, Marina disse que todo mundo escolheu alguém, mas que não repetiria o apoio dado na ocasião.

Sobre corrupção, tema comum em todas as entrevistas, Eduardo Campos –então cabeça de chapa de Marina em 2014 e morto em acidente aéreo –, foi citado como nome presente na lista de propinas distribuídas para a campanha daquelas eleições. Firme na resposta, a ex-ministra disse que a justiça ainda está investigando o caso, mas que defende a Operação Lava Jato.

Coligações estaduais e suas supostas contradições foram o assunto seguinte. William Bonner apontou as críticas de Marina Silva ao fisiologismo no Brasil em contraponto ao apoio da Rede a partidos conhecidos por essa prática. Lembrando seus 30 anos de vida pública sem estar envolvida em casos de corrupção, a candidata se defendeu ao dizer que todos os partidos têm bons quadros, expressão que diz estar sendo copiada por Geraldo Alckmin, e citou um “jovem que foi prefeito de Pelotas sobre o qual não pesa nenhuma acusação”. O jovem em questão é Eduardo Leite, 33, réu em duas ações por improbidade, o que não configura crime de corrupção. Contudo, muito mais grave, é a acusação de que os exames que detectam câncer de útero realizados pelo SUS no município de Pelotas no período em que Eduardo foi prefeito teriam sido realizados por amostragem. Como o caso ainda está sendo investigado, chega a ser politicamente imprudente da parte de Marina citar o candidato ao governo do Rio Grande do Sul.

No que diz respeito à aliança com o Partido Verde, sigla que deixou para ajudar a formar a Rede, Marina declarou que nunca teve problemas com seu atual companheiro de chapa, Eduardo Jorge, e que saiu do PV por divergências políticas que não são diferenças programáticas na coligação atual.

Quanto a possíveis divergências com a forte bancada ruralista no Congresso, Marina pontuou que é um erro enxergar o agronegócio como homogêneo e exemplificou com a boa recepção que teria recebido na Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) no dia anterior.

No último questionamento que recebeu, Marina defendeu sua atuação como ministra do Meio Ambiente e disse que a licenças de instalações de novas hidrelétricas durante sua gestão não tiveram nenhuma decisão que não tivesse embasamento técnico.

No minuto reservado para sua mensagem final, Marina Silva foi concisa e abrangente, citando sua origem pobre, tendo sido alfabetizada aos 16 anos, a negritude, a maternidade e a meta de construir um Brasil mais justo para trabalhadores, empresários, homens e mulheres, formando um país próspero e sustentável.

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Ao final da série de entrevistas, que mantiveram o mesmo padrão, a impressão é que pouco se extraiu do que os candidatos disseram, uma vez que os questionamentos foram montados para que cada um se defendesse como pudesse. Um eleitor em dúvida sobre seu voto, caso queira mais informações sobre os presidenciáveis, terá de buscar noutras fontes. Se houve algo que se fortaleceu com as sabatinas do Jornal Nacional foi a desesperança na política. Algo que, convenhamos, só é bom para quem se alimenta dela da pior forma possível.

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Establishment x Lulismo

Com a debandada do centrão (DEM, PP, PR, PRB, SD) para candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB), ganha sobrevida a candidatura do tucano com 40% do tempo do horário eleitoral na TV. Queiram ou não os puritanos, o horário eleitoral é peça chave em eleição presidencial e mais ainda em uma eleição imprevisível como a de 2018. Não se ganha eleição apenas com engajamento em rede social ou caravanas em aeroportos, como planeja Jair Bolsonaro (PSL).

Ciro Gomes (PDT) sai dessa disputa com sabor amargo da derrota que ele mesmo provocou ao falar demais e pode ser pior caso o PSB e PCdoB não fechem com ele. Ciro tanto sabe disso que já virou a chave desistindo de moderar seu tom e plano de governo para mais ao centro. Passou a moldar a sua fala para atrair partidos e eleitores à esquerda.

Sem o centrão, o candidato do PDT vai ter que disputar contra o candidato do PT/Lula o eleitorado de esquerda para chegar ao segundo turno. É muito difícil. Confesso que estava com a sensação de fim da polarização entre PSDB-PT, mas o curso do rio começa a ir para o mesmo lugar que vai desde 1994.

Bolsonaro, Ciro e Marina Silva (Rede), os três líderes nas atuais pesquisas, podem sucumbir ao establishment político capitaneado por Alckmin e a força eleitoral do lulismo.

A queda de Marina Silva como alternativa à polarização PSDB-PT

Pesquisa do DataPoder360 mostra o deputado Jair Bolsonaro (PSC) chegando perto de Lula (PT) e da liderança da corrida presidencial de 2018; Marina Silva (Rede) segue “derretendo” nas intenções de voto; João Doria (PSDB) segue como melhor tucano avaliado, mas Geraldo Alckmin (PSDB) teve leve subida. Ciro Gomes (PDT) segue variando entre 4% e 5%. A subida meteórica de Bolsonaro e queda de Lula se explicam no atual contexto confuso e nebuloso político-eleitoral. Já a queda de Marina, aí é preciso um detalhamento mais específico.

Marina Silva foi fundadora do PT no seu estado natal, o Acre. Defensora do meio-ambiente, Marina foi ministra da pasta no governo de Luiz Inácio Lula da Silva até 2008. Já para o fim de 2008 e começo de 2009, por divergências com a ministra-chefe da Casa Civil e futura candidata de Lula, Dilma Rousseff, Marina deixa o governo e o parido depois de mais de 2 décadas de militância e ocupando cargos de vereadora, deputada e senadora por dois mandatos. Se filia ao Partido Verde e lança sua candidatura presidencial. Fica em terceiro com surpreendentes quase 20 milhões de votos, vitais para levar a disputa para o segundo turno entre Dilma (PT) e José Serra (PSDB).

Todavia, Marina opta por não apoiar nenhum dos candidatos após ouvir suas propostas de olho em manter-se como terceira via na eleição de 2014. Mas, por divergências dentro do partido, resolve deixar o PV e tentar fundar seu próprio partido, um partido com a sua cara e ideias. Na primeira tentativa em criar a Rede Sustentabilidade, o TSE não aceita conceder o registro partidário faltando um ano para as eleições de 2014 alegando falta de assinaturas necessárias verificadas nos cartórios. Marina acusa sabotagem para inviabilizar sua eventual candidatura ao Planalto.

É aí que surge Eduardo Campos. Rompido com o governo petista, o então governador de Pernambuco convida Marina e sua turma para disputarem as eleições pelo PSB. E Marina aceita ser vice de Campos. Surgiram muitas críticas à ambientalista, porque a aliança romperia seu discurso da “nova política”. E Marina não estava transferindo votos para Eduardo nas pesquisas como ele planejou. Especulou-se que Campos abrisse mão da cabeça da chapa para companheira. Ele negava e apostava no início da campanha de fato e no horário eleitoral para apresentar Marina como sua vice e assim elevando seus números.

Mas o acidente aéreo que vitimou Eduardo Campos e toda sua equipe de assessores mudou o rumo da eleição de 2014. Marina Silva assumiria a candidatura do PSB, ameaçaria tirar o candidato do PSDB do segundo turno e até a ameaçar a liderança da então presidente Dilma. Só que Marina não aguentou os ataques virulentos de PT e PSDB, principalmente os partindo do seu ex-partido e algumas controvérsias da própria candidata. Marina conseguiu mais votos que em 2010 – 22 milhões -, mas insuficientes para levá-la ao segundo turno. No segundo turno, diferente de 2010, Marina resolveu apoiar o candidato tucano. Ela até apareceu no horário eleitoral de Aécio Neves.

Marina é acusada nas redes sociais de sumir após as eleições e só reaparecer quando se aproxima o período eleitoral. Falácia de quem não gosta dela. E por sua posição ambígua em relação ao impeachment da presidente Dilma: favorável, mas com ressalvas e pedindo novas eleições via cassação da chapa Dilma-Temer no TSE. A Rede Sustentabilidade se dividiu no impeachment de Dilma Rousseff no Congresso – na votação final na Câmara 2 votos contra e a favor da admissibilidade – e faz oposição ao governo de Michel Temer, apesar de se declarar independente.

O problema de Marina Silva, na verdade, é que ela ficou “queimada” na esquerda muito pelo apoio ao Aécio no segundo turno de 2014. Por outro lado, a direita não a abraçou como oposição ao petismo. Muito pelo contrário. Marina esperava ganhar espaço com a imagem de PT e PSDB destraçadas. Mas não conseguiu como foi ultrapassada por Jair Bolsonaro, e não será tarefa fácil reconquistar votos perdidos.

PSDB apoiaria Marina Silva?

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A pesquisa Datafolha de fim de ano divulgada mostrou Lula (PT) na frente no primeiro turno em todos os cenários. Com Marina Silva (Rede) em segundo, Aécio Neves (PSDB) em terceiro, Jair Bolsonaro (PSC) em quarto e Ciro Gomes (PDT) em quinto.

O detalhe da pesquisa são as simulações de segundo turno, Lula e Marina venceriam todos os presidenciáveis do PSDB; no confronto direto com Marna, Lula perderia. Lula está com várias denúncias pendentes e aceitas sendo que já é réu em quatro delas. Se conseguir se livrar de todas elas, Lula tem um eleitorado fiel que pode levá-lo ao segundo turno. Mas outro obstáculo que Lula teria que passar é a alta rejeição, só é menor que a rejeição do presidente Michel Temer.

O PSDB está perdendo eleitores mais conservadores que votavam nos tucanos nas eleições presidenciais por falta de opção e eles caminhando para Bolsonaro. Bolsonaro está em empate técnico com Aécio (11% x 9%, para o tucano) e está em empate matemático com José Serra e Geraldo Alckmin (8% e 9%, respectivamente).

Uma pergunta surge. Marina apoiou Aécio no segundo turno de 2014, desagradando muita gente tanto do partido que disputou o primeiro turno (PSB) e do movimento que viraria partido, a Rede Sustentabilidade. Um segundo turno entre Marina e Lula, ou Marina e Bolsonaro, o PSDB apoiaria Marina Silva?

2017 será o teste definitivo para o governo de Michel Temer, e também para os postulantes a ocupar a cadeira que Temer ocupa.

Parece que Marina Silva caiu na real

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Para Folha de São Paulo disse o seguinte: “Depois de ter passado por uma eleição sofrendo a violência que foi feita em 2014 pelo marketing selvagem [referência a ataques da campanha de Dilma Rousseff], será que é possível manter o diálogo, essa ideia de que é preciso compor programaticamente, de que existem pessoas boas em todos os partidos? Me parece que isso não prosperou”.

Marina foi atacada até na sua honra ao ameaçar quebrar a polarização PT-PSDB na eleição de 2014. Mesmo assim, Marina continuou com um discurso ambíguo e meio confuso; uma hora diz ser favorável ao impeachment, mas que a melhor alternativa para resolver a crise é a ação de cassação de chapa no TSE. Apesar de considerar seu partido recém-criado, a Rede Sustentabilidade, como independente do governo Michel Temer, o partido vota majoritariamente como oposição. E fez alianças questionáveis para a sua primeira eleição.

Após o primeiro turno das eleições 2016, a Rede sofreu uma debandada de apoiadores de Marina nas eleições presidenciais de 2010 e 2014. Em carta aberta alegaram para saída “vazio de posicionamento político” e que a Rede está caminhando para o centro político que é, para eles, “conservador”.

Talvez essa rasteira de até então fiéis seguidores tenha feita Marina Silva acordar para vida. Ela viu que é fisicamente impossível manter um pé em cada canoa. Que é preciso, em certos momentos, tomar lado e decisões mais firmes e não ficar exitando flutuando em ambos os lados.