Sem querer, Temer reforça tese de Dilma contra impeachment

Em entrevista para TV Bandeirantes, o presidente Michel Temer, sem querer, reforçou a tese levantada pela defesa da ex-presidente Dilma durante o processo de impeachment no Congresso Nacional, de desvio de função do cargo pelo então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Na época o PT negou os três votos do partido no Conselho de Ética para arquivar a denúncia que, posteriormente, cassaria o mandato de Cunha. Horas depois da negativa de socorro, Cunha chamou a imprensa e comunicou que aceitou a denúncia protocolada por Janaina Paschoal, Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr.

Temer tentou se defender mostrando que não conspirou contra Dilma, mas acabou reforçando uma das teses da defesa. A defesa de Dilma já disse que vai levar a fala de Temer para o julgamento de mérito da ação que pede a impugnação do impeachment. Pode não convencer os ministros do STF a cancelar o impeachment, mas deixou claro que Eduardo Cunha só aceitou a denúncia porque alas do PT se insurgiram contra o acordo costurado pelo Lula.

É preciso largar o antipetismo um pouco de lado para entender a fala de Temer. Cunha só assinou a denúncia porque o PT não entregou os votos. Ou seja, Cunha assinou a denúncia por vingança, sim. Desvio de poder está muito claro. Mas não anula os crimes de Dilma. O longo processo comprovou a fraude nas operações da União com bancos públicos e as irregularidades nos decretos de suplementação de crédito.

La Vue impeachment

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O governo do presidente Michel Temer foi alçado ao poder pela deterioração do governo da presidente Dilma Rousseff graças a junção de três fatores: crise econômica, política e ruas lotadas de protestantes. As três crises estavam interligadas e uma puxava a outra. O vice-presidente seria uma espécie de ponte para 2018, mas o que está acontecendo é o governo Temer tendo que apagar incêndios e contornar crises desde quando assumiu ainda de forma interina. As prometidas reformas na economia por enquanto se resumem a PEC dos gastos públicos, a tão falada reforma da previdência que nem foi enviada ao Congresso e uma prometida série de concessões para destravar a infraestrutura.

A mais recente crise envolve Marcelo Calero (ex-ministro da Cultura) e Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo), com Michel Temer no meio. O que já era gravíssimo Geddel pressionar um outro ministro para que o Iphan (Instituto Histórico e Artístico Nacional) liberasse uma obra contestada por interesse pessoal, se tornou uma crise generalizada atingindo o próprio presidente da República com o depoimento de Calero na Polícia Federal e, segundo notícias, com áudios de conversas com Temer, Geddel e Eliseu Padilha (Casa Civil).

Temer demorou demais para demitir Geddel ou ele pedir para sair. Aliás, ele pediu demissão, não foi demitido. Amizade de 25 anos, Geddel ser um articulista e controlar a base do governo ou ambas amarram as mãos de Temer. Segundo o presidente Temer, ele apenas tentou intervir numa briga ministerial, o que segundo ele é normal. Só de existir a conversa, já configura crime de responsabilidade, ao tentar interferir em um processo que beneficia pessoalmente Geddel.

Se esse caso não é para abrir um processo de impeachment, não tem mais impeachment, como disse o Senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). É crime de responsabilidade na veia e por isso Temer tentou proteger Geddel não demitindo. A ironia da história é o governo ficar ameaçado pelo ministro que não existira e a pressão da classe artística fez Temer recuar da fusão da Cultura com Educação. E ironia maior é ficar ameaçado pela especulação imobiliária.

A pergunta que não quer calar: Michel Temer vai cair, o Brasil vai ter dois impedimentos de presidentes seguidos? Pessoalmente gostaria, porque este governo nasceu contaminado pela Lava jato, foi vice-presidente por duas vezes do anterior. Salvando a equipe econômica, o resto é um desastre. Só que é improvável. Porque impeachment é um processo político. Para ser fundamentado uma denúncia por crime de responsabilidade é necessário um “pretexto jurídico”, mas o quórum para afastar um presidente é altíssimo e justificável para não sair trocando o comando do país como se troca de roupa. São 342 votos mínimos para a Câmara autorizar o processo e 54 votos mínimos no Senado para o afastamento definitivo.

A então oposição tinha esses votos e o governo deposto não conseguiu evitar o impedimento. Depois, Temer conseguiu formar uma base muito grande e tudo indica que ela está satisfeita com o presidente, o que não estava com o governo anterior. E o presidente da Câmara dos Deputados, que é quem aceita a denúncia, Rodrigo Maia disse que “Esse Calero enlouqueceu“, dependeria do próximo presidente eleito, em fevereiro, ser menos alinhado com o governo, o que é improvável.

PSDB

Presidente Nacional do PSDB, Senador Aécio Neves saiu em defesa de Michel Temer; Fernando Henrique também saiu em defesa de Temer, ambos por motivos distintos. Um porque gostou de ser o fiador do governo do PMDB (ministérios e cargos), o ex-presidente porque Temer “é o que tem”. Aécio chegou a dizer que é gravíssimo um ministro pedir audiência para gravar clandestinamente o presidente da República, dito pelo Porta-voz da Presidência. O ex-ministro nega. O PSDB ficou quase 14 anos foram do governo e parece que desistiu de chegar como o “líder”. E pensar que o TSE vai julgar podendo cassar a chapa presidencial por uma ação movida pelos tucanos. Que decepção, tucanada!

Sai Dilma; entra Temer

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Depois de quatro meses e quase um ano desde a aceitação da denúncia pelo presidente da Câmara, o processo de impeachment da presidente Dilma chega ao seu final. E o resultado já era meio que anunciado. Dilma Rousseff deixa de ser a presidente do Brasil e o seu vice-presidente, Michel Temer, que recebeu os mesmos 54,5 milhões de votos na eleição de 2014, é o novo presidente.

Um processo longo, polêmico, doloroso e que vai deixar marcas profundas. Mas, ao mesmo tempo, espera-se que a crise política que agravou a econômica e social termine. Pessoalmente, acho que a tormenta vai diminuir, mas não acabar.

Michel Temer não terá aquela “lua-de-mel” que um presidente recém empossado tem e sua missão é árdua, principalmente com a forte oposição do PT.

14 anos após a histórica posse de Lula, em 2003, o PT deixa o poder pelos seus próprios erros éticos, morais e econômicos. Deixa pela porta dos fundos. Dilma é cassada e tem seu mandato abreviado por total responsabilidade sua. Independente das opiniões sobre esse impeachment, é unanimidade que Dilma cavou a própria cova desprezando conselhos até de Lula, não dando a mínima bola para o parlamento. O massacre na votação tanto na Câmara quanto no Senado é consequência desse menosprezo. Sua arrogância e empáfia de quem achava que poderia governar monocraticamente somada a irresponsabilidade fiscal acabou no impeachment.

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A luta vai continuar no STF

A defesa pode e tem direito (acho) de recorrer ao STF para anular todo processo. Mas acho difícil a corte interferir 2 vezes no parlamento. Ao afastar Eduardo Cunha da presidência e do cargo de deputado, os ministros do STF esgotaram a cota de interferência de um poder em outro.

Respeita Rui Barbosa, Gleisi Hoffmann

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A Senadora Gleisi Hoffmann (PT/PR) ofendeu uma casa de 190 anos, que é a casa da Federação, ao dizer na abertura do julgamento final do processo de impeachment contra a presidente afastada que o Senado não tem moral para julgar Dilma.

Realmente, muitos dos atuais senadores não tem moral para ser representante do povo. Mas, Senadora Gleisi, a senhora atingiu não eles com sua fala, mas sim a instituição Senado da República. É preciso separar os maus políticos das instituições, o que vale pra Câmara dos Deputados, presidência da República, prefeituras, governos estaduais, assembleias estaduais e distritais e Câmaras municipais.

Primeiramente, Gleisi Hoffmann deveria lavar a boca e as mãos antes de insultar a casa de Rui Barbosa na qual ela foi eleita para ocupar uma cadeira para defender o seu estado, o Paraná, e a Federação.

Respeito às instituições e ao povo é o mínimo que se pede dos representantes da população.

Dilma faz ‘apelo’ aos senadores

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A presidente afastada Dilma Rousseff divulgou carta destinada ao povo brasileiro e aos senadores e senadoras. É a última tentativa de Dilma reverter alguns votos contra ela e mandar o impeachment para o arquivo.

Na carta, Dilma reforça a necessidade de um plebiscito e a reforma política (sempre ela…). A novidade é um Pacto Nacional para o desenvolvimento e justiça social. Mas continua chamando o processo contra ela de “golpe”, e fez um apelo para que os senadores não cometam a injustiça de condená-la sem crime de responsabilidade, que não se afasta um presidente só pelo “conjunto da obra”.

Ressalvou que a luta contra a corrupção é inegociável.

Lembrou da tortura que sofreu na ditadura e reconheceu erros no seu governo sem dizê-los quais foram.

A estratégia de chamar quem vai julgá-la de “golpista” não está funcionando.

Na verdade, essa carta lembrou um pedido de clemência do que de defesa. Para quem já está convicto no voto a favor do impeachment não vai se solidarizar. Quem ainda não está 100% convicto pode balançar, mas creio que veio um pouco tarde. Dilma perdeu o timing para levantar a bandeira das eleições antecipadas para presidente.