Sem querer, Temer reforça tese de Dilma contra impeachment

Em entrevista para TV Bandeirantes, o presidente Michel Temer, sem querer, reforçou a tese levantada pela defesa da ex-presidente Dilma durante o processo de impeachment no Congresso Nacional, de desvio de função do cargo pelo então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Na época o PT negou os três votos do partido no Conselho de Ética para arquivar a denúncia que, posteriormente, cassaria o mandato de Cunha. Horas depois da negativa de socorro, Cunha chamou a imprensa e comunicou que aceitou a denúncia protocolada por Janaina Paschoal, Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr.

Temer tentou se defender mostrando que não conspirou contra Dilma, mas acabou reforçando uma das teses da defesa. A defesa de Dilma já disse que vai levar a fala de Temer para o julgamento de mérito da ação que pede a impugnação do impeachment. Pode não convencer os ministros do STF a cancelar o impeachment, mas deixou claro que Eduardo Cunha só aceitou a denúncia porque alas do PT se insurgiram contra o acordo costurado pelo Lula.

É preciso largar o antipetismo um pouco de lado para entender a fala de Temer. Cunha só assinou a denúncia porque o PT não entregou os votos. Ou seja, Cunha assinou a denúncia por vingança, sim. Desvio de poder está muito claro. Mas não anula os crimes de Dilma. O longo processo comprovou a fraude nas operações da União com bancos públicos e as irregularidades nos decretos de suplementação de crédito.

Eduardo Cunha é uma ‘bomba relógio’

Eduardo Cunha foi condenado por Sérgio Moro a 15 anos e 4 meses por receber propina em um negócio da Petrobras na África. É a primeira condenação de Cunha e quebra o principal argumento da defesa no recurso para um habeas corpus.

O advogado do ex-presidente da Câmara dos Deputados havia dito dias antes que o seu cliente estava esgotado e não aguentaria continuar preso. Não sei exatamente o que significa. Se Cunha tentar uma delação premiada, se ele resolver abrir a boca, o estrago será grande.

Mas, para os procuradores aceitarem uma delação de Eduardo Cunha, ele precisaria falar tudo e esse “tudo” ser forte e novo. O homem que foi um dos mais poderosos da República por mais de um ano, que deu início o processo de impeachment que afastou Dilma Rousseff, está abandonado pelos próprios aliados. Preso e, agora, condenado, é uma bomba relógio prestes a explodir.

Eduardo Cunha ataca secretário das privatizações de Temer

cunha

Em entrevista ao Jornal O Estado de São Paulo, o deputado cassado e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB/RJ) soltou o verbo contra o Secretário de Programa de Parcerias de Investimentos, Moreira Franco, um dos mais fortes e íntimo de Michel Temer.

Cunha não poupou nem o próprio Temer, inclusive disse que o governo que ajudou a criar aceitando a denúncia contra Dilma Rousseff não tem legitimidade eleitoral. Ele está enfurecido com o governo Temer e colocando na conta de Moreira Franco a articulação que levou Rodrigo Maia (DEM/RJ), o genro dele, a vencer a eleição para presidente da Câmara contra o candidato do centrão e aliado de Cunha, Rogério Rosso (PSD/DF). E disse se a ação de cassação de chapa for a julgamento no TSE, a chapa Dilma e Temer será cassada.

Ainda na entrevista, Eduardo Cunha chamou o ex-aliado Anthony Garotinho de “vagabundo” e o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros (PMDB/AL), de “jogador, falso e dissimulado”.

Eduardo Cunha não tem mais o que perder politicamente, mas tem o (grande) risco de ir para cadeia. Ele vai usar estratégias para evitar a sua prisão e da esposa Cláudia Cruz. Nem que seja preciso atingir o governo Temer. Cunha promete lançar um livro contando reuniões, diálogo, tudo do processo de impeachment de Dilma no fim do ano. “Vai ser um presente de natal”, disse. Mesmo cassado, Eduardo Cunha continua sendo uma peça importante na política brasileira.

Dilma e Cunha, é hora de virar esta página definitivamente!

dilma-cunha

Julgar todo processo de impeachment na conta de um homem só, de um único deputado, é deturpar a verdade. Eduardo Cunha só fez assinar o despacho autorizando a instalação da comissão que autorizaria ou não o processo de impeachment contra a então presidente Dilma Rousseff. Quem autorizou a abertura do processo foi o conjunto de deputados (367, mais dos 342 necessários) e o Senado julgou procedente a denúncia (61, mais dos 54 necessários).

Dilma foi deposta porque 1) feriu o artigo 85 da Constituição Federal; 2) perdeu o apoio que tinha no Parlamento ao não dialogar com parlamentares da própria base; 3) perdeu apoio popular por causa do estelionato eleitoral; 4) o tão falado “conjunto da obra”: crise econômica, social e política.

Se outro deputado tivesse como presidente da Câmara dos Deputados levaria a denúncia adiante ninguém pode afirmar que sim ou não. Eduardo Cunha estava com plenos poderes e a Constituição faculta ao presidente da Câmara dos Deputados aceitar ou não uma denúncia contra o presidente da República.

Eduardo Cunha será julgado por seus pares porque assim como Dilma Rousseff feriu a lei – no caso de dele, o regimento interno da Câmara ao mentir numa CPI que investigava o esquema de corrupção na Petrobras. Não importa o tipo de conta ou se a pergunta feita a ele na CPI foi mal formulada. O que importa é que o deputado Eduardo Cunha mentiu ou, no mínimo, omitiu sobre ter contas (ou trust, reitero que não importa o tipo de conta) fora do país não declaradas.

Eduardo Cunha renuncia para tentar salvar o mandato de deputado

Presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha finalmente resolveu renunciar ao cargo que ocupou de 1º fevereiro de 2015 até seu afastamento pelo STF no dia 5 de maio de 2016. Foi uma presidência cheia de controvérsias e lutas políticas e ideológicas.

Eduardo Cunha se mostrou o maior adversário que o PT já encontrou desde que chegou ao poder. A ironia da história é que Cunha e PT eram aliados até meados de 2013. O presidente Lula deu o comando de Furnas para Cunha em troca de apoio político na Câmara dos Deputados e a presidente Dilma lhe ofereceu a vice-presidência da Caixa Econômica Federal. Fora isso, Eduardo Cunha tinha total influência dos esquemas na Petrobras e era um dos mais beneficiários.

Ao bater de frente com Dilma e, posteriormente, com o PT, Cunha foi eleito presidente da Câmara no primeiro turno de votação, humilhou o Palácio do Planalto, que preferiu comprar briga com essa figura nebulosa que orbita em torno do dinheiro público desde o período Collor.

Eduardo Cunha colocou em votação para ganhar pautas desconfortáveis para o governo e alegava independência do Legislativo para o Executivo com harmonia. Harmonia essa que nunca existiu depois que Cunha rompeu com o governo e o acusava de interferir na Operação Lava-jato, para tentar envolver seu nome e desviar o foco da corrupção no governo que ele era aliado até pouco tempo atrás.

Pelo seu antagonismo ao PT e seu conservadorismo, Eduardo Cunha virou quase um herói para muitos. Principalmente após ele aceitar uma denúncia por crime de responsabilidade contra Dilma Rousseff protocolada por Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e Janaina Paschoal. Cunha trabalhou para que o processo de impeachment fosse aceito e enviado para o Senado, Dilma e o PT o acusou de chantagem para que o partido lhe entregasse os três votos do partido no Conselho de Ética. Ele nega que aceitou a denúncia depois que o PT negou a ajudá-lo e acusa o governo de ter feito chantagem.

A denúncia contra Eduardo Cunha, que pode fazê-lo perder o mandato de deputado, é por ter metido na CPI da Petrobras, em 2015, onde ele jurou não possuir nenhum tipo de conta bancária fora do país e não declarada, o que já está mais do que comprovado que tais contas existem. Ele não consegue explicar quem é o dono do tal trust nem a origem do dinheiro. Ao afastá-lo da presidência da Câmara, o STF tirou o poder de Cunha, o que lhe custou a força para manipular centenas de deputados ao seu favor – ainda manipula muitos e vai usar esses para tentar salvar o mandato de deputado federal.

piaui