Há caminho fora dos pólos e extremos

Preisdente Temer

Gostei da fala do presidente interino Michel Temer ao empossar os novos presidentes do BNDES, Banco do Brasil, Caixa, Petrobras e IPEA. Parece discurso do “nem de direita, nem de esquerda”, mas não é. É olhar para frente. É superar essa disputa entre direita e esquerda do passado.

A nova ordem pede políticas públicas eficientes. E não tem como fazer isso com um Estado obeso, gigante, onipresente na economia. Não significa diminuir o seu tamanho ao mínimo. Não significa privatizar tudo nem demonizar as privatizações. Significa otimizar a administração pública. E colocando na presidência e nas diretorias das estatais pessoas competentes e sérias, sem indicações políticas. É gerir as empresas estatais como se fossem privadas para servir ao povo, que é o sócio majoritário delas. Com administrações privadas, sem privatizar, talvez seja resgatada a credibilidade e não se repitam práticas nada republicanas.

Temer falou, também, que não falará de “herança de espécie nenhuma”. Gosto quando um novo governo não se esconde atrás dos erros do seu antecessor. É encarar o desafio posto ou pedir para sair. Até porque o presidente interino foi vice-presidente do governo afastado e o PMDB se beneficiou das práticas nada republicanas nas estatais desde a redemocratização em 1985.

Sobre interferência do governo na Lava-jato, sem chance. Nem se quisesse, o judiciário é independente.

Uma narrativa para interditar o debate

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Nesses tempos de Lava Jato com escândalos na política pegando em todos os partidos e ânimos à flor da pele nas redes e nas ruas a eterna discussão que um partido é mais protegido que os outros, que outros são “perseguidos”. A dita “perseguição” que petistas esbravejam é bobagem. O partido está na lama porque os seus membros fizeram por onde. O PT aparece nas manchetes dos jornais em escândalos gigantes de corrupção porque ele foi corrompido. E o partido chegou ao poder para acabar com a corrupção erguendo a bandeira da ética. O PT não inventou a corrupção, mas se incorporou e se lambuzou nela.

Na maioria dos casos quem pede punição para os “dois lados” na verdade está querendo é que um lado seja poupado e o outro punido com o rigor da lei.

Mas é fato também que tucanos têm digamos… uma benevolência quando estoura um escândalo no ninho deles. Compra de votos para a emenda da reeleição, mensalão mineiro, “trensalão” paulista, o “merendão” paulista deveria ser mais explorado pela imprensa. É um escândalo clichê – desvios de verba da merenda escolar – porém igual ou mais repugnante que o “petrolão” petista por mexer no dinheiro da educação.

Ao brigar com os fatos para defender um lado, esses engajados prestam um desserviço para o Brasil. Enquanto a disputa for para quem é menos sujo ou mais limpo, não avançaremos como civilização. Enquanto narrativas ditarem o debate, a mentira prevalecerá. E quem entra na narrativa que um grupo político joga no ar para tirar benefícios – racismo, pobres, machismo, gays – a pessoa só está servindo aos interesses desse grupo político e dividindo o país, e essa divisão cobrará um preço alto a todos.

A Direita sai do armário

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Não interessa se a multidão teve o tamanho divulgado pela Polícia Militar ou o calculado pelo Datafolha, ainda que a diferença estimada pelas duas fontes na manifestação de 15 de março em São Paulo tenha sido o equivalente à população de João Pessoa. O fato é que foi um bocado de gente. O mesmo verificou-se em algumas dezenas de cidades importantes por todo o país, por mais discrepante que fosse a inexata aritmética de organizadores, PMs e institutos de pesquisa.

Independente do que se contabilizou nas avenidas, a realidade é que o governo enfrenta rejeição inédita e hesita nas respostas à sociedade. Falha na construção de uma base coesa e, apenas agora, cerca de 100 dias após a posse, define os interlocutores para o necessário e desgastante diálogo com um Congresso pulverizado e movido a interesses às vezes pouco republicanos. Mas as dificuldades encontradas, quando não proporcionadas, pelo governo não serão tratadas agora por aqui. O tema é outro, embora ambos tenham inequívoca relação.

O fato mais relevante após as duas baterias de manifestações e algumas de panelas é o novo posicionamento dos militantes (ultra)conservadores. Finalmente, a Direita política brasileira saiu do armário para as ruas. O grupo é numeroso, hegemônico em muitos segmentos da sociedade, mas esteve anestesiado por mais de uma década. É como um ator que andava meio apático, mas que agora volta a mostrar a cara e ocupar o seu legítimo espaço no proscênio.

Como já é cíclico na história brasileira, a Direita parte para a luta novamente carregando como estandarte a luta contra a corrupção, que costuma associar aos adversários. Foi assim lá atrás, na batalha contra Getúlio Vargas, na oposição ao governo Jango, nas exitosas campanhas contra Leonel Brizola e, agora, na tentativa de remover o PT do poder.

Na atual safra de protestos não é diferente, por mais que o DNA da corrupção possa provocar um Fla-Flu de discussões intermináveis. Como argumento para levar o povo para as ruas está funcionando, por mais que a repulsa dos manifestantes contra os ilícitos que roubam o Estado possa ser questionada. Tomada ao pé da letra, a aversão à roubalheira certamente levaria os indignados a também gritar palavras de ordem contra o Trensalão, o mais longevo dos escândalos da administração pública brasileira, e o mensalão mineiro, outro esqueleto dos anos 90. Isso para não ir muito longe.

Fosse ampla, irrestrita e apartidária a revolta contra a corrupção, a multidão reunida no Distrito Federal estaria lembrando os inúmeros atos criminosos que foras-da-lei instalados no governo local perpetraram contra os cofres públicos. Só que nunca é demais lembrar que o antipetista José Roberto Arruda, um desses governantes, liderava as pesquisas eleitorais para retornar ao poder em 2014, antes de ter sua candidatura implodida. Alguém gritou contra ele nos recentes protestos?

No Rio Grande do Norte, o senador que preside o DEM é investigado pela Justiça. Alguém protestou contra ele? Entre os manifestantes de todo o país, era possível observar cartazes contra Genoíno e José Dirceu, condenados à prisão pelo Mensalão. Alguém segurou faixas pedindo isonomia ou, ao menos, o julgamento do ex-governador mineiro Eduardo Azeredo? Afinal, ele foi um dos artífices do mensalão local e renunciou ao mandato parlamentar para escapar do STF. Nesse caso, por que a indignação não saiu do armário?

Por acaso, alguém protestou contra as empresas que corromperam, em conluio com integrantes do COAF, para escapar das bilionárias multas fiscais aplicadas pela Receita Federal? Não vi. Ou será que a atual fornada de manifestantes considera que a sonegação de grupos privados não é crime? Bem, então qual a diferença entre um corruptor do Petrolão e um sonegador parceiro da turma do COAF? Será que alguém inventou um “corruptômetro”, capaz de constatar que a petrorroubalheira é menos criminosa que a fiscoroubalheira?

Sem dúvida, a corrupção que correu à solta nos governos petistas revolta. Também é óbvio que lembrar da gatunagem praticada por políticos de oposição não torna os petistas menos corruptos. Para a Direita das ruas, o que interessa agora é combater o PT e Lula, o Leviatã petista. A lança para afrontá-los é o discurso da moralidade x corrupção. É fazer dele uma marca capaz de alvejar o lulopetismo, objetivo alcançado com êxito no atual round da luta.

A Direita sabe que o jogo que será decidido em 2018 está apenas começando e que o adversário anda meio claudicante. Cambaleante, mas não derrotado. Aprendeu que o inimigo já demonstrou poder de reação em outros tempos. Por isso, quer mantê-lo pressionado. Como apontam as pesquisas, mais de 80% dos manifestantes que estão nas ruas votaram em Aécio em 2014. Até aí, nenhuma novidade.

O que pode há de novo é o efeito que a imagem das ruas pode produzir sobre a fatia neutra e pendular do eleitorado. Este público esteve com o petismo por conta de mais uma década de inédita prosperidade. Mas jamais deu ao partido de Lula um cheque em branco de apoio incondicional. Para voltar a fidelizá-lo, o PT terá de trazer de volta a bonança. Do contrário, o discurso da corrupção não vai desgrudar dos petistas. O bolso vale mais que a moralidade na hora do voto. Afinal, como ensinou James Carville, é a economia estúpido.

Do outro lado, ainda é cedo para se apontar com clareza qual a oposição que se fortalecerá. A institucional não tem o protagonismo nas manifestações e assiste a ascensão de novos grupos, mais radicais à direita. Por enquanto, a oposição que foi às ruas tem de Angela Merkel a Marine Le Pen. Sendo assim, não está claro como ficará a correlação de forças entre os tradicionais e os novos antipetistas.

O fato é que até aqui a Direita foi convincente em circunscrever os assaltos ao Estado ao círculo petista. Por mais que isso na vida real revele-se tão verdadeiro quanto uma nota de R$ 3, a oposição antipetista tem o direito de acreditar nas mentiras e ilusões que vende nos protestos. Afinal, a arena política nunca foi ambiente para vestais. E não há porque ser diferente agora.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

Os 10 mandamentos da Direita brasileira

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O dia 31 de março é para a democracia o que a Sexta-feira Santa representa para os católicos. Um dia de expiação, para se lembrar como a democracia e suas instituições foram covardemente violentadas e crucificadas em nome da ética, da liberdade e pela redenção dos pecados políticos. Só que como se sabe, não tardou e o manto da moralidade revelou-se falso, destinado apenas a encobrir um 1º de abril institucional.

Décadas se passaram e os personagens obviamente mudaram. Mas o DNA, nem tanto. Herdeiros e nostálgicos da bufa Redentora de 1964 se animam na tentativa de reproduzir a farsa na história. Tarefa, diga-se, em parte facilitada por um governo hesitante e momentaneamente impopular, mas que tem pela frente 45 meses de mandato, de acordo com o estabelecido pela Constituição. É prazo mais do que suficiente para avançar, retroceder ou até mesmo não sair do lugar. E com tanta inquietação, é temerário hoje arriscar qualquer previsão sobre a (in)capacidade de reação do governo.

Mas qualquer que seja a avaliação que Dilma 2.0 possa provocar, o fato é que o país funciona plenamente, alicerçado em regras constitucionais pactuadas em acordos entre os polos divergentes, como deve ser em uma democracia. No entanto, como em 1964, há setores que teimam em considerar irrelevante o arcabouço institucional que sustenta a democracia brasileira. E, como ocorreu há meio século, tais grupos estão à direita do centro político.

Por tradição, os (ultra)conservadores brasileiros habitam um terreno movediço, com regras customizadas de acordo com as perspectiva de chegada ao poder. Com base nessa lógica, o voto até pode ser um instrumento para se alcançar o governo. Mas não é o único. Assim, em mais um 31 de março, é sempre bom recordar os 10 mandamentos praticados pela direita brasileira.

    • A democracia emana do povo e para o povo. Mas do Nosso povo, o que significa inspiração divina.
    • O voto é um instrumento legítimo, desde que se reconheçam como mais valiosos os sufrágios dos mais ricos e estudados, que são gente como a gente. Quando os nossos votos não prevalecem, os golpes são válidos, necessários e legítimos.
    • Desde 2003, o Brasil vive o caos, a deformação dos costumes e a fragilização da economia. Antes, tínhamos um país próspero, civilizado, sem violência, feliz, alfabetizado, bem atendido na saúde, atendido com dignidade nos serviços públicos e com IDH de Primeiro Mundo.
    • Não roubarás. Mas quando não conseguir resistir à tentação, terá caído em pecado se não encontrar um Juiz amigo, daqueles capazes de arquivar até confissão de estupro.
    • Honrar pai, mãe e os bons companheiros conservadores acima de todos os outros.
    • Não matarás. Agora, se alguém morrer de fome, azar. Não é problema seu.
    • Investigações sobre a crise hídrica de São Paulo, Trensalão paulista, mensalão mineiro e caos fiscal do governo do Paraná, entre outros, são empulhações. O mesmo se aplica a apóstolos como Antonio Anastasia e Agripino Maia, vítimas de manobras demoníacas de falsos profetas.
    • Nas manifestações contra o governo, só não valem camisetas vermelhas. Todas as demais são aceitas e aquelas com mão sem um dos dedos, alusivas a Lula, são bem-vindas.
    • Choque de gestão é nosso mantra.
    • Sobre CPIs, eu investigo, tu és investigado e ele te investiga.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

Tudo tem limite

intervenção militar - manifestação SP

No ultimo sábado houve manifestações contra a reeleição da presidente Dilma em algumas cidades. A principal, realizada em São Paulo, contou com a presença de cerca de três mil pessoas. Mas a grande polêmica foi alguns cartazes de viúvas da ditadura pedindo intervenção militar.

Qualquer manifestação, por qualquer causa, contra o presidente da República ou contra o Papa tem que ser respeitada. Manifestações pelo ódio, racismo ou qualquer outra discriminação essas, sim, devem ser combatidas.

Entendo que pedir impeachment contra a presidente não significa um “golpe”. Mesmo contra um presidente que acaba de ser eleito ou reeleito. Só precisa ter fundamento no pedido e não porque você não gosta da pessoa que venceu a eleição ou do partido dela.

Naquele mesmo dia, o blog Reaçonaria publicou um post com matérias da Folha de São Paulo e do Estado de São Paulo, além de posts do Twitter e Facebook dos autores das matérias, insinuando a preferência partidária dos dois jornalistas. No caso, ambos seriam petistas e viciaram a matéria sobre a manifestação contra a presidente em São Paulo.

Primeiro, sigo o Reaçonaria no Twitter porque gosto de ler os dois lados. Segundo, acho super saudável para democracia que existam blogs de qualquer ideologia, de esquerda à direita – acho sensacional o DCEzão inventado por eles mostrando as pérolas do pessoal da esquerda na internet, por exemplo. Acho que política e humor não são inimigos. Pelo contrário, algumas coisas só levando para o lado do humor para suportá-las.

Mas aquilo que eles fizeram com os jornalistas não foi humor, nem jornalismo. Expuseram os dois para cachorros loucos de raiva querendo sangue depois de uma campanha eleitoral feita com o fígado. Em tempos de redes sociais e ânimos exaltados e intolerância, estava muito na cara que aquele post iria dar no que deu. Ameaças aos dois repórteres de todo tipo. E não adianta relativizar lembrando da “lista negra do PT” que isso é endossar o que eles fizeram e nada justifica aquilo.

Os caras estavam trabalhando e relataram o que viram na manifestação e tinha mesmo cartazes pedindo intervenção militar. Insinuar que eles enviesam as matérias de acordo com as preferências partidárias é lamentável, patético e calunioso. Pior, expor a vida pessoal dos caras para urubus chega a ser criminoso.