Ódio contra ódio

foto-folhaFoi criada uma polêmica na última semana sobre as vaias e xingamentos contra a presidente Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo em Itaquera. O ex-presidente Lula saiu em defesa de sua criatura e fez o seguinte comentário em um ato político do PT: “Não foi uma ofensa à presidente, foi um ato de cretinice. A nossa vitória será a nossa vingança. Essa campanha corre o risco de ser uma campanha violenta, porque a elite está conseguindo fazer o que nunca conseguimos fazer: despertar o ódio e que ele tome conta de uma campanha. Dilma, você viu que no estádio não tinha ninguém com cara de pobre, só você?! Não tinha ninguém, ninguém pelo menos moreninho. Era a parte bonita da sociedade, que comeu a vida inteira e chegou ao estádio para mostrar que educação a gente aprende em casa, vem de berço.”

No comentário, Lula diz que xingamentos foi um “ato de cretinice”. Não concordo com a postura de xingar a presidente da República. O xingamento é coisa de gente sem educação. Ainda mais contra a chefe da nação. Está insatisfeito com seu governo, com os rumos que o país está seguindo? A vaia é um recurso para desabafar. E não mata. Fiquei muito decepcionado com a presidente Dilma que abriu mão de entregar a taça de campeão do mundo ao capitão da seleção vencedora por medo de vaias. Concordo com o Lula que a campanha eleitoral está indo perigosamente para um caminho do ódio, da divisão entre ricos e pobres, mas tanto o governo tanto a oposição tem culpa nisso. E falar em vingança em caso de vitória de Dilma só alimenta esse clima de ódio.

No segundo comentário, Lula chuta o balde e escancara a divisão perigosa que pode acontecer no país. Dizer que só tinha rico e branco na abertura da Copa é reconhecer a culpa do governo. O governo fez várias peças publicitárias dizendo que essa seria a “Nossa Copa”, “a Copa do Brasil”, “a Copa do brasileiro” e agora vem com essa de que não tinha pobre e negro no estádio, o que não é verdade visto os ingressos à venda por até R$ 30, com os descontos para os beneficiários do programa Bolsa Família, portadores de deficiência física, índios e vários ingressos doados para os operários que ergueram as arenas em todo país.

Existe um ódio contra o PT e também existe um ódio que o PT alimenta para usar nas campanhas eleitorais. O ódio contra o PT está nos comentários das notícias dos portais de internet, nas redes sociais e não é só da “elite branca coxinha”. O PT usa esse ódio e canaliza na campanha dividindo o país entre ricos contra pobres, brancos contra negros e norte contra sul. Dessas divisões surgem as Mayaras Petrusos destinando todo seu preconceito. PSDB e PT fazem um grande mal ao Brasil alimentando essa divisão com essas provocações bobas de 5ª série B.

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Vai ter Copa, mas não como gostaríamos

vaitercopaQuando o Brasil foi anunciado em 2007 como o país-sede da Copa do Mundo de 2014 havia a promessa e a realidade. Promessas de um torneio custeado por recursos privados que se somariam a recursos oriundos de parcerias público-privadas e deixariam um imenso legado para as cidades-sede como melhorias nos aeroportos, no transporte urbano, na rede hoteleira e nas estruturas anexas aos novos estádios. Mesmo com um olhar desconfiado, era impossível que um fanático por futebol não se empolgasse com a ideia de um evento tão grandioso em seu território e ainda mais com os benefícios dos legados.

Infelizmente, a realidade não demorou a surgir no horizonte. Assim como o malfadado Pan-Americano do Rio de Janeiro, foi se tornando cada vez mais evidente que os verdadeiros legados seriam apenas as novas arenas construídas ou reformadas para a Copa. No entanto, a oportunidade inerente de se fomentar o futebol em estados como Amazonas, Mato Grosso e Distrito Federal não passou de um sonho. Com isso, salvo por esporádicas visitas de grandes equipes brasileiras, é muito provável que os estádios de Manaus, Cuiabá e Brasília se tornem pesados elefantes brancos.

Há, contudo, a necessidade de se distinguir o que de fato existe em relação aos gastos públicos envolvidos nesse processo e o que não passa de desinformação. Ao contrário do que se diz, os recursos financeiros investidos não vão “quebrar o País”. Há alguns dias, a Folha de São Paulo publicou uma matéria indicando que os investimentos na Copa (aproximadamente R$ 26 bilhões) equivalem a um mês de gastos com educação. Além disso, dentro desse montante encontram-se os valores referentes aos empréstimos do BNDES que deverão ser ressarcidos. Paralelamente, também haverá o retorno desses investimentos com a movimentação de inúmeros setores de nossa economia, onde estudos apontam cifras que giram entre 142 e 183 milhões de reais. Obviamente, apesar do otimismo nas projeções, é evidente que haverá retorno.

Mas a questão central não é essa. Ou melhor, não deveria ser essa. O Brasil teve em suas mãos a maior oportunidade de sua história para fazer algo extremamente relevante para sua infraestrutura e seu futebol. Em termos estruturais, começam a surgir informações mais concretas do que todos desconfiavam. Um relatório preliminar do Tribunal de Contas do Distrito Federal indicou um sobrepreço de R$ 431 milhões na reforma do Mané Garrincha, o estádio mais caro do Mundial. Porém, também por pressão política, tais investigações não foram para frente e ficaram apenas no âmbito do edital da obra.

No que tange o esporte, tivemos a chance de organizar um calendário mais racional, de traçar projetos que estimulassem o futebol nas regiões onde o esporte não é tão desenvolvido e ainda apresentar à população estádios adaptados aos novos tempos e demandas. De tudo isso, somente as arenas estão presentes. No entanto, sem a contrapartida de ações que reaproximassem o público dos campos, sobretudo da população menos favorecida, o objetivo final não foi alcançado. Numa declaração bastante infeliz, o coordenador técnico da Seleção, Carlos Alberto Parreira, definiu a CBF como o “Brasil que dá certo”. Depende do ponto de vista. No que diz respeito ao faturamento da entidade, sem dúvida é um sucesso. Para o futebol brasileiro ela continua dando errado. E há muito tempo.

Michel Costa, co-autor do livro ‘É Tetra! A conquista que ajudou a mudar o Brasil’

Vai ter Copa

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O então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, escreveu em 2008 um artigo publicado na Folha de S. Paulo que a Copa seria bancada com dinheiro privado e o poder público ficaria apenas com a parte de infraestrutura. Só que em 2007 já se falava da crise que afetou os EUA e, por tabela, a Europa e o resto do mundo no ano seguinte. E é ilusão achar que é possível construir arenas modernas e reformar estádios velhos só com a iniciativa privada. Sem a ajuda de empréstimos do BNDES. Sem falar que não dava nem dá para confiar na palavra de Ricardo Teixeira.

É legítimo mudar de opinião. A Constituição garante o direito de manifestações pacíficas, porém não vejo sentido sair gritando “Não vai ter Copa!” depois de todo o dinheiro público gasto nas arenas e várias obras de infraestrutura prontas além das que ficarão prontas depois do Mundial. É o mesmo que comprar uma Ferrari e não usufruir dela.

Ronaldo Passou três anos com discurso ufanista defendendo a organização do torneio a todo custo. Chegou ao absurdo de falar que “Copa não se faz com hospitais”, e agora vem com essa de “envergonhado pelo país”- e ainda fazendo propaganda (antecipada) do pré-candidato à presidência da República Aécio Neves (PSDB).

Comparar os comícios da campanha Diretas já! para presidente e o fim da ditadura militar, em 1984, com essas manifestações é um grande exagero (chega a ser absurdo). Apesar de todos os problemas e mazelas sociais, o país não vive mais uma ditadura repressiva.

Se aproveitar que vem muitos turistas para o país e organizar greves ilegais de serviços essenciais para população, sobretudo dos mais pobres, é covardia. Não consigo concordar com essa postura mesmo que esses trabalhadores tenham razão nas suas reivindicações. Reivindiquem de outra forma e que não prejudique a população que trabalha para sustentar suas famílias.

Como eu sabia que a organização da Copa no Brasil seria mais ou menos como foi, sem sonhar com utopias, com os pés no chão, não vou sair nas ruas repetindo chavões e frases de efeito. Não concordo com quem vai tentar tumultuar os jogos.

Como sou democrático e a Constituição permite manifestações, quem quiser protestar que vá. Só não pode depredar o patrimônio público e privado além de respeitar o direito do outro de não querer participar dos protestos e de querer assistir os jogos da Copa em paz. O direito de um termina quando começa o direito do outro.

Opinião: Copa 2014

logo_copa2014A minha preocupação principal é a maquiagem que o PT pode fazer com a Copa em pleno ano eleitoral. A nossa economia cresceu muito pouco nos últimos anos e a Copa elevaria o nosso PIB em até 1,5 pontos percentuais por ano, isso na teoria, porque pela análise de uns economistas que eu confio e acompanho, só vai crescer 0,4% (O Brasil será o terceiro país em três décadas a sediar uma Copa a registrar desaceleração na economia! Lembra a Grécia, infelizmente). A Copa pode até contribuir para um aumento do PIB, mas vai ser insuficiente para provocar crescimento econômico. E não ganhamos nada com infraestrutura, pelo menos nada que seja realmente útil como melhoria no setor ferroviário e fluvial de transportes, metrôs ou ônibus. Além dos investimentos bilionários inúteis.

O único setor que se deu bem foi aeroportos (e eu sou testemunha de que a mudança é insignificante, possivelmente passaremos por caos aéreo!). Sem a Copa, provavelmente continuaríamos sem ter aeroportos decentes – o Brasil não investe em seus aeroportos há mais de duas décadas e possuímos os piores do mundo – (nesse quesito, perdemos até mesmo para o Haiti pós terremoto e para Líbano pós-guerra!). Pelo menos para os aeroportos a Copa foi boa, o que vai ajudar muito o Brasil a mudar e vai atender a muitas pessoas! (ironia). Os estádios envolvem questões mais complexas. Não faz SENTIDO construir estádio em Manaus, Cuiabá e Brasília que não possuem NENHUMA tradição futebolística! Não faz sentido serem sedes, e São Paulo não tinha necessidade de construir outro estádio. Sem falar do atraso das obras (o Brasil, comparado a outras sedes de mundiais, inclusive África do Sul que também é emergente, está muito atrasado!).

Mas vamos a outro argumento, os amantes do futebol provavelmente vão defender o evento, porém, lamento informar para os fanáticos que a Copa aqui também não vai trazer nenhum benefício para eles, o Campeonato Brasileiro vai continuar tendo média de público inferior a dos EUA (mesmo com o sócio torcedor) e vai continuar com escândalos (que nem o do rebaixamento ano passado), ainda sofreremos com problemas com torcidas organizadas e a seleção brasileira continuará ruim (tivemos troca de técnico durante o ciclo de preparação pra Copa e continuamos numa posição ruim no ranking da FIFA e sem nenhum programa relevante de revelação de craques, ao contrário dos EUA que quando sediou a Copa criou o MLS e fez planejamentos de base).

O que mais me deixou chateada foi o fato de que nas pesquisas de opinião sobre o acontecimento da Copa 72% aprovaram no nordeste contra 49% que aprovaram no sudeste. Essa pesquisa só mostra onde a influência do Governo Federal é mais forte. A imagem para os turistas que nós vamos deixar nessa Copa é importantíssima. Ao contrário do que muita gente pensa, o Brasil recebe poucos turistas estrangeiros, por motivos de distância (os americanos preferem o Caribe e Califórnia e os Europeus preferem os litorais ibéricos) e de preços (sério cara é muito caro viajar por aqui!).

Essa Copa vai definir a vinda de pessoas para o Brasil nos próximos 50 anos no mínimo. Eu torço que dê tudo certo na Copa somente por causa da nossa imagem lá fora, mas torço para seleção perder, não irei a nenhum jogo por pura teimosia e ainda tentei convencer amigos a não ir também. Não é a toa que a FIFA escolheu o Catar como próxima sede (um país sem tradição futebolística, com várias mortes na preparação dos estádios e com 70% de chance de fracasso). O que a FIFA mais quer é fazer as pessoas esquecerem o possível fiasco que será no Brasil.

Ana Caroline Oliveira é estudante e futura escritora que ama volleyball, xadrez, política, blogs e livros.

Eu quero a Copa, mas não desse jeito

2014fwc_op_reg_4c_s.inddPor Rodrigo Salvador

Quando eu me debruço sobre o assunto Copa do Mundo, penso em duas frentes: a Copa em si, e a organização do evento. Começo pelo primeiro. O futebol é apaixonante. E esta opinião não é uma exclusividade brasileira. Para falar só de países que são modelo de gestão, podemos olhar para Alemanha, com resultados de ponta no torneio e mais de 40 mil pessoas de média de público na sua liga nacional.

Outro exemplo são os Estados Unidos, país sem tradição no esporte, mas cuja população demonstrou mais interesse em assistir a estreia da sua seleção na Copa em 2010 do que nos jogos finais da NBA. Além disso, podemos ver a influência direta do esporte na política de vários países, do Barcelona como ícone do movimento pela independência catalã à torcida do Al Ahly sendo participante direta em manifestações pelo Egito. Ou seja, não faz qualquer sentido questionar a paixão do brasileiro pelo futebol, argumentando que tal paixão atrasa nossa sociedade. Não se compara a sua casa com a do vizinho que não se sabe sequer o nome. O futebol é elemento social e político sim, no Brasil e no mundo.

Não sendo o futebol um vilão, podemos olhar com outros olhos para o seu expoente, a Copa do Mundo. Não quero pensar na Copa da TV, mas na que roda o mundo. O evento, assim como outros eventos de dimensões mundiais como as Olimpíadas, é capaz de destruir fronteiras e colocar a humanidade em sintonia. Evidente que é possível que isso aconteça sem o evento, mas o estímulo que a Copa traz não pode ser ignorado. E, sendo um evento agregador, como não querer que ele aconteça ali, do outro lado da nossa rua? A Copa no nosso país é uma oportunidade de trocarmos de vizinhos sem sairmos de casa. E, se bem pensada, é uma oportunidade de aprender com pessoas que sabem coisas que a gente não sabe, e capitalizar com dinheiros de que não dispomos.

E é aqui que entra o engate entre as duas frentes que citei. É esta expressão que nos causa frisson: “se bem pensada”. Por tudo que foi dito, a Copa é um presente para o mundo todo, mas que tem um potencial incrível para virar um pesadelo para o país-sede.

Vamos pensar nos exemplos: a África do Sul recebeu a Copa de 2010 com festa. A Copa passou e resolveu poucos problemas do país. Em 2002, Japão e Coréia do Sul mostraram a eficácia que se espera do povo oriental, e sofreram pouco também porque – importante dizer – organizaram apenas meia Copa cada. Além destes, de 1990 pra cá, Itália, Estados Unidos, França e Alemanha foram sedes, sendo que todos tinham força econômica para tal. Ainda assim, a Itália passa hoje por uma crise econômica similar a de outras sedes recentes de Copa, Eurocopa e Olimpíadas, como por exemplo Espanha, Portugal e Grécia. Com isso, a escolha da sede é uma tarefa delicada. Para a Copa do Mundo, a FIFA escolheu seguidamente, e não à toa, 3 dos 5 países do BRICS. Por isso, é importante saber que o Brasil era sim um dos candidatos mais interessantes a sediar o evento. Ou isso, ou a Copa passaria sempre, e apenas, por Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra.

O problema não foi a escolha do Brasil como sede. Foi o que o país fez com esta escolha. A organização da Copa no Brasil ser um desastre não nos causa surpresa, infelizmente. Já é quase um clichê citar Ronaldo quando diz que “Copa não se faz com hospitais”. Ouso dizer que ele tem razão na frase. Razão que se desfaz quando ignora que saúde não se faz com estádios. E aqui é preciso definir uma prioridade: Copa ou saúde? Eu imagino, num Brasil ideal, a verba da Copa sendo gasta sim com a Copa, mas o retorno deste investimento (que não é pouco) sendo aplicado de forma coerente, para o bem-estar do brasileiro.

Não lembro, também, de nenhuma previsão de gastos com estádios ter sido plenamente satisfeita. E tenho até medo de pensar de onde veio o dinheiro a mais que foi aplicado nas obras. Aqui em Curitiba, o dinheiro gasto na Arena da Baixada foi mais que o dobro do previsto, e as obras de mobilidade na cidade ou foram inchadas ou canceladas.

Concluo com isso que a discussão sobre a Copa deve ser responsável. Ao criticar a organização, não criticar o evento, porque assim podemos abrir mão de imensos ganhos culturais e econômicos futuros por conta de erros pontuais. Da mesma forma, ao defender o evento, não defender uma organização danosa e corrupta deste. Eu me entristeci demais com os acontecimentos dos últimos 5 anos. Mas nem por isso deixei de comprar cinco ingressos pra assistir a Copa em cinco cidades diferentes e vivenciar oportunidades que não vivenciaria em praticamente nenhuma outra situação.

Por fim, gosto de ter em mente que, em uma sentença, o termo “mas” desmente o que foi dito anteriormente, dando valor apenas ao que vem depois dele. Assim, o título deste texto poderia ser “Não desse jeito, mas eu quero a Copa”. Não, a organização não tem o mesmo peso do evento por si só. Tem mais. Ao menos, deveria ter.

Rodrigo Salvador (@novosomsalvador) é matemático industrial e coxa branca – torcedor do Coritiba/PR.