Visca Catalunya

A região autônoma da Catalunha, no nordeste da Espanha, está fazendo um referendo popular pela independência contra vontade do governo de Madri. Cenas chocantes no Twitter mostram a repressão absurda da polícia espanhola contra quem só quer exercer seu direito de voto, independente se a favor da independência ou não.

Não é de hoje que o povo catalão não se sente espanhol. Com a aliança entre CDC (Convergência Democrática da Catalunha) e ERC (Esquerda Republicana da Catalunha) para a eleição de 2015, o tema da separação da Espanha ganhou força na política institucional catalã.

Se os separatistas sairão vencedores é outra história. Pesquisa mais recente indicava 49% a 41%, contra a secessão da Catalunha. Diferença pequena, porém indicativa que a histeria do governo espanhol não faz muito sentido e muito menos a repressão violenta. Não só pelo fato de não há garantia de vitória dos separatistas, mas, principalmente, pelo direito absoluto da população da região votar. De exercer a cidadania sobre o seu futuro.

Visca Catalunya Lliure!

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Macron e a doença francesa

Por Thomas Traumann

A eleição presidencial francesa de 2017 lembra o cabo de guerra dos personagens de O Doente Imaginário, última peça de Moliére. Na sátira, Argan é um velho hipocondríaco cercado de médicos que lhe confirmam seus piores medos, imaginários ou não. “A França está doente e a doença são os estrangeiros, os estrangeiros, os estrangeiros” repetiu à exaustão a candidata da extrema-direita Marine Le Pen, encarnando o personagem do doutor Diaforious. “Não é nada, não é nada, não é nada”, retrucava o candidato centrista Emmanuel Macron, como a criada Toinette, certa de que as doenças do patrão não passavam de fantasia. A França desta campanha eleitoral era, ora um paciente em seus últimos dias, ora um exemplo de vigor mundial. No último domingo, dia 7, dois em cada três eleitores franceses decidiram que o diagnóstico de Macron estava mais correto.

Macron e Le Pen foram os protagonistas da primeira grande encenação eleitoral pós-Trump, na qual as táticas de convencimento do eleitor se sustentaram na disseminação do pânico e da calúnia. Le Pen era apresentada como a fascista, que iria levar à França à convulsão social com a deportação em massa de imigrantes (ok, essa imagem talvez não estivesse tão longe da realidade). Macron era o candidato dos judeus (ele trabalhou para o banco Rotschild), da mão amiga ao terrorismo (ele declarou que a colonização francesa na Argélia foi um “crime contra a humanidade”) e do establishment (o que é verdade). Dias antes da eleição, hackers invadiram os computadores do comitê eleitoral de Macron e tornaram públicos milhares de e-mails e documentos internos, em um ataque similar ao que ocorreu com a campanha de Hillary Clinton.

Macron venceu a eleição não pelo que ele representa _ sua juventude, sua experiência corporativa, sua história de amor de conto de fadas_ mas, principalmente, por não ser Marine Le Pen. É fato que boa parte dos franceses são preconceituosos contra imigrantes, desconfiados do islamismo e têm motivos para odiar os burocratas da União Europeia. Mas, colocada na balança, a rejeição ao protofascismo de Le Pen é maior que tudo isso.
Com o desafio de não ser Marine Le Pen, Macron fez uma campanha cautelosa. Dizia parolagens como “farei um governo com o melhor da esquerda, melhor da direita e o melhor do centro”. Suas propostas incluem a redução no pagamento de impostos para as empresas e trabalhadores, cortes profundos nos gastos públicos e um sistema universal de seguro-desemprego e de aposentadoria. Não é preciso ser um gênio para ver que essas promessas são incongruentes.

Agora que venceu, Macron vai enfrentar problemas reais, o desemprego que atinge um de cada quatro jovens franceses, o medo do terrorismo, a crise migratória e o que chamou na campanha de “o ressentimento dos perdedores da globalização”. Em artigo para o jornal inglês The Guardian, o historiador britânico Timothy Garton Ash alerta para a possibilidade de uma reação do eleitorado na possibilidade de Macron desapontar. “Saboreiem, portanto, esses goles finais de champanhe. Agora é hora de tomar um triplo café de realidade. Primeiro gole desse café: mais de um terço dos que votaram no segundo turno escolheu Marine Le Pen. Seria um resultado a se comemorar? Segundo gole de realidade: Macron sabe o que tem de ser feito na França, mas não parece que vá conseguir fazê-lo. Terceiro gole de café de realidade: é ótimo que Macron também queira reformar a União Europeia, mas isso está fora de seu alcance”. Ou seja, não convide Garton Ash para a próxima vitória do seu time do coração…

Há um quarto gole de café: depois da vitória de Trump e do Brexit, o populismo xenófobo parecia invencível. As derrotas de Norbert Hofer (Áustria), Geert Wilders (Holanda) e Marine Le Pen (França) mostraram que ainda há esperança para a política tradicional. Mas essas três vitórias do establishment só foram possíveis por uma união de todas as outras forças, num sistema de frente política típico de momentos de extrema crise. Mas por quanto tempo os eleitores de esquerda vão seguir tapando seu nariz e votado na centro-direita? Macron venceu sem um gesto à esquerda, não obtendo sequer o apoio de Jean-Luc Mèlenchon no segundo turno. Ter políticos aguerridos como Le Pen e Mèlenchon como opositores não é o prenúncio de um governo tranquilo.

Embora derrotada, Le Pen conseguiu tornar a Frente Nacional numa opção viável. O que antes era malta de antissemitas, racistas, homofóbicos, colaboracionistas e monarquistas, agora é uma organização política que representa uma parcela importante da França. O que antes era racismo foi edulcorado para uma “postura de desconfiança sobre o Exterior” e o que era tradicionalismo virou a “defesa de valores franceses”.

A peça de Moliére é uma comédia de erros. O velho Argan se finge de morto para saber quem realmente o ama, e junto com a descoberta recupera a saúde. Os eleitores franceses de 2017 decidiram que o país não está à beira da morte, mas isso não significa que não esteja doente.

Thomas Timothy Traumann é um jornalista brasileiro. Foi porta-voz da Presidência da República e ministro da Secretaria de Comunicação Social no governo Dilma Rousseff.

Donald Trump, o 45º

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Tomou posse hoje, 20 de janeiro de 2017, o 45º presidente dos Estados Unidos da América, Donald J. Trump.

A candidatura de Trump foi de piada para realidade ao vencer as primárias do partido Republicano, o que desagradou a muita gente do GOP (Grand Old Party). Na eleição de novembro de 2016, Trump enfrentou Hillary Clinton. Em uma das eleições americanas mais disputadas, Clinton levou a melhor no voto popular: 3 milhões de votos de vantagem. Mas a eleição americana não é decidida no voto direto. No colégio eleitoral, Trump venceu em Estados-chave como Flórida, em Estados que Democratas vencem tradicionalmente, totalizando mais de 300 votos, mais que os 270 necessários.

Apesar de discursos de ódio para alguns e politicamente incorreto para outros, Donald Trump levou a melhor e não adianta reclamar do sistema eleitoral, do colégio eleitoral que existe desde a primeira e única constituição americana. A candidata adversária era cheia de controvérsias e impopular como Trump é, mas ele tinha um trunfo: não era do meio político, o establishment. É uma catarse mundial, uma purificação da política. Acredito que a eleição de Barack Obama já foi dentro dessa catarse. E, apesar da boa aprovação do governo Obama refletindo a recuperação econômica dos EUA, o americano resolveu fazer uma “purificação” mais radical.

Obama era a “purificação” moderada; Trump é a “purificação” radical e acelerada. Donald Trump teve os votos dos “esquecidos” pela elite política de Washington.

O discurso do novo presidente logo após tomar posse foi com um tom nacionalista que deve predominar no governo, mas bem mais suave do que durante a campanha. Trump até falou em solidariedade e que no sentimento patriótico não cabe preconceito.

No aniversário de 90 anos de Fidel, ele poderia presentear os cubanos com a liberdade!

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Em 1953, os irmãos Fidel e Raúl Castro, o argentino Che Guevara e outros 50 cubanos formaram uma guerrilha armada que deu início a uma revolução na ilha caribenha de Cuba. Por meio dessa revolução conseguiram tomar o poder do ditador Fulgencio Batista, em 1959. Essa revolução, porém, apenas trocou uma ditadura por outra que já dura mais de 50 anos.

Fidel Castro completa 90 anos. Entregou o poder do partido comunista cubano ao irmão Raúl. O sonho dele de implementar em Cuba um modelo que acabasse com as grandes injustiças sociais e as profundas desigualdades em riquezas e oportunidades virou pesadelo para os cubanos.

O governo comunista cubano agride os direitos humanos, civis, de imprensa, de empreender. Disso resulta na falta de serviços até básicos, principalmente sem a União Soviética e agora o colapso econômico da Venezuela.

O governo cubano sempre investiu no esporte como forma de propaganda para o regime. Mas alguns atletas aproveitam competições fora do país como rara oportunidade de deixar a ilha e não voltar mais. É comum ver deserções de cubanos nas Olimpíadas e nos Jogos Panamericanos.

Raúl Castro iniciou um processo de abertura de Cuba e reaproximação com os EUA. Só que essa abertura para uma democracia representativa e economia de mercado está lenta, talvez por Fidel ainda contar com muita influência mesmo com limitações físicas.

Alguns defensores do regime castrista dizem que Cuba é modelo em saúde pública e educação, mas o país fechado fica impossível verificar e confiar nos números do governo. Mesmo se for verdade, não autoriza o regime violar os direitos humanos e censurar os opositores ao regime.

Cuba precisa experimentar o sabor da liberdade e da prosperidade, mesmo que isso leve para a ilha algumas mazelas do mundo ocidental. A democracia pode ser a pior forma de governo, exceto todas as outras formas.

Turquia de Erdogan, Venezuela de Chávez

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O que ocorreu na Turquia é muito diferente da arapuca institucional que afastou Dilma. Mas a tentativa clássica de golpe, que pressupõe a ruptura da ordem legal, é bem parecida com a que se verificou na Venezuela em 2002. E o final dificilmente será feliz. Provavelmente, acentuará a fratura exposta na sociedade turca.

No país vizinho, em 11 de abril daquele ano, oposicionistas apoiados por setores do exército organizaram um golpe para depor o presidente Hugo Chávez.

Após o assalto ao Palácio de Miraflores, instalaram como governante do país o então presidente da Fedecamaras (Federação Venezuela de Câmaras de Comércio), Pedro Carmona. De imediato, a quartelada ao melhor estilo dos antigos golpes na América Latina recebeu apoio dos Estados Unidos de George Bush e da Espanha de José Maria Aznar. Os golpistas agiram rápido. Em poucas horas, mais de 40 leis foram modificadas.

Mas a aventura teve curta duração, pois o contragolpe não tardou. Militares e grupos civis leais a Chávez dominaram a sedição e reinstalaram o governo democraticamente eleito. Nunca mais o país foi o mesmo. O presidente Chávez, então com a autoridade moral de quem venceu uma tentativa de quebra da ordem determinada pelas urnas, passou a manobrar para alterar a Constituição e se perpetuar no poder. Golpistas daquele momento passaram a denunciar o déficit de democracia do período chavista e a Venezuela caiu em um limbo institucional do qual jamais conseguiu sair.

Em relação a Hugo Chávez, o presidente turco Recep Erdogan tem ao menos duas semelhanças. É um governante eleito pelo voto popular em eleições limpas (na Venezuela era assim ao menos até o final da década de 90) e não tem lá muitos pendores para o convívio democrático com opositores. Aliás, a Justiça turca está abarrotada por mais de mil processos do presidente contra jornalistas e intelectuais críticos do regime. O que me leva a supor que após o golpe fracassado os opositores não terão na Turquia o paraíso que gostariam. E que o país terá mais divisões do que as já existentes entre Ocidente e Oriente, Cristianismo e Islamismo.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.