O “circo” é bom, mas o “pão” vem primeiro

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), comprou uma guerra com a LIESA, a Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. E uma guerra que ele pode sair com sua popularidade muito arranhada. O Estado do Rio de Janeiro vive uma profunda crise financeira sem precedentes após sediar a final da Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Grandes eventos que custaram e ainda custam ao erário público. Mas a responsabilidade não é só dos grandes eventos, o maior culpado foi o hoje preso e condenado pela justiça ex-governador Sérgio Cabral, que ainda responde a outras 9 denúncias. Fora toda a corrupção que foi descoberta teve ainda as desonerações para empresas “camaradas”. Ou seja, o Rio viveu uma verdadeira “farra do boi”, um descalabro que culminou em um Estado pré-falimentar sem dinheiro para honrar compromissos básicos como salários de servidores e aposentados.

Depois de duas tentativas fracassadas, Marcelo Crivella foi eleito prefeito em 2016, derrotando Marcelo Freixo (PSOL) em um segundo turno que para ambos candidatos foi uma vitória. Crivella e Freixo derrotaram a máquina do PMDB fluminense e o candidato do prefeito Eduardo Paes, Pedro Paulo. Crivella prometeu que “cuidaria das pessoas” depois de um governo mais voltado para grandes obras urbanísticas para a cidade. Aqui não se trata qual é a melhor política. Paes foi reeleito já no primeiro turno de 2012, com 66% dos votos e deixou a prefeitura bem cotado para disputar o governo estadual após realizar a primeira Olimpíada na América do Sul. Só que que era nítida que a população carioca queria uma mudança na política do município. A saúde pública vem clamando socorro não é de agora, segurança e educação não são diferente.

O prefeito Crivella comunicou a LIESA que pretende cortar 50% da subvenção da prefeitura para os desfiles tradicionais na Avenida de Marquês de Sapucaí e que esse dinheiro seria destinado para ampliar convênios e merenda de creches. A LIESA respondeu com terrorismo anunciando a suspensão dos desfiles de 2018. A Liga das escolas de samba aposta no carioca viver o samba para ganhar a disputa contra o prefeito, que é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. No primeiro carnaval sob a administração Crivella, houve muita confusão e duas grandes tragédias envolvendo carros alegóricos das escolas Paraíso do Tuiti e Unidos da Tijuca, com vários feridos e vítima fatal. Chegaram ao cúmulo de colocar a culpa na quebra de tradição do prefeito não ter participado da cerimônia de entrega da chave da cidade ao rei momo.

Cobra-se prioridades do poder público com o dinheiro dos impostos, então a decisão de Crivella tem que ser aplaudida. Não está cortando toda a subvenção, mas metade em nome de uma causa maior. A LIESA argumenta que o evento gera muitos benefícios para a cidade. Mas a tese de que o carnaval carioca não precisa da prefeitura para existir me parece verdadeira. Por que um evento privado, mesmo que gere benefícios econômicos, financeiros, de geração de empregos e de renda, além da valorização da imagem da Cidade do Rio de Janeiro e do Brasil, como diz a nota da LIESA, tem que ser bancado uma parte com dinheiro público?

Quando o cerco se fechou aos bicheiros, o que fez as escolas de samba? Se penduraram nas tetas da prefeitura e do governo do Rio, com anuência dos governantes em troca de apoio político e eleitoral. Os desfiles outrora fantásticos e encantadores do Rio de Janeiro viraram uma zona. Em 2017, Portela e Mocidade Independente dividiram o título por uma confusão de um jurado. Foram buscar para colocar ordem na casa José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Os desfiles de hoje em dia valem mais impactar o público e os jurados do que mostrar um bom samba. O corte da verba da prefeitura pode ser a oportunidade do carnaval carioca se reinventar e voltar a encantar por sua beleza e simplicidade, nada de carrões mastodontes que só atrapalham e luxuria vazia de conteúdo.

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