O “circo” é bom, mas o “pão” vem primeiro

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), comprou uma guerra com a LIESA, a Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. E uma guerra que ele pode sair com sua popularidade muito arranhada. O Estado do Rio de Janeiro vive uma profunda crise financeira sem precedente após sediar Copa das Confederações, Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos em 2016. Grandes eventos que custaram e ainda custam ao erário fluminense e carioca.

Mas a responsabilidade não é só dos grandes eventos, o maior culpado foi o hoje preso e condenado pela justiça ex-governador Sérgio Cabral, que ainda responde a outras 9 denúncias. Fora toda a corrupção que foi descoberta teve ainda as desonerações para empresas “camaradas”. Ou seja, o Rio viveu uma verdadeira “farra do boi”, um descalabro que culminou em um Estado pré-falimentar sem dinheiro para honrar compromissos básicos como salários de servidores e aposentados.

O prefeito Crivella comunicou a LIESA que pretende cortar 50% da subvenção da prefeitura para os tradicionais desfiles na Avenida Marquês de Sapucaí e que esse dinheiro seria destinado para ampliar convênios da merenda escolar de creches. A LIESA respondeu com terrorismo anunciando a suspensão dos desfiles de 2018. A Liga das Escolas de Samba aposta no carioca viver o samba para ganhar a disputa contra o prefeito, que é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

No primeiro carnaval sob a administração Crivella, houve muita confusão e duas grandes tragédias envolvendo carros alegóricos das escolas Paraíso do Tuiti e Unidos da Tijuca, com vários feridos e vítima fatal. Chegaram ao cúmulo de colocar a culpa na quebra de tradição do prefeito não ter participado da cerimônia de entrega da chave da cidade ao rei momo. Cobra-se prioridades do poder público com o dinheiro dos impostos, então a decisão de Crivella tem que ser aplaudida. Não está cortando toda a subvenção, mas metade em nome de uma causa maior.

A LIESA argumenta que o evento gera muitos benefícios para a cidade. Mas a tese de que o carnaval carioca não precisa da prefeitura para existir me parece verdadeira. Por que um evento privado, mesmo que gere benefícios econômicos, financeiros, de geração de empregos e de renda, além da valorização da imagem da Cidade do Rio de Janeiro e do Brasil, como diz a nota da LIESA, tem que ser bancado uma parte com dinheiro público?

Quando o cerco se fechou aos bicheiros, o que fez as escolas de samba? Se penduraram nas tetas da prefeitura e do governo do Rio, com anuência dos governantes em troca de apoio político e eleitoral. Os desfiles outrora fantásticos e encantadores do Rio de Janeiro viraram uma zona. Em 2017, Portela e Mocidade Independente dividiram o título por uma confusão de um jurado. Foram buscar José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, para colocar ordem na casa.

Depois de duas tentativas fracassadas, Marcelo Crivella foi eleito prefeito em 2016, derrotando Marcelo Freixo (PSOL) em um segundo turno que para ambos candidatos foi uma vitória. Crivella e Freixo derrotaram a máquina do PMDB fluminense e o candidato do prefeito Eduardo Paes, Pedro Paulo. Crivella prometeu que “cuidaria das pessoas” depois de um governo mais voltado para grandes obras urbanísticas.

Aqui não se trata de saber qual é a melhor forma de fazer política e de governar. Paes foi reeleito já no primeiro turno de 2012 com 66% dos votos e deixou a prefeitura bem cotado para disputar o governo estadual, após realizar a primeira Olimpíada na América do Sul. Só que a população carioca queria uma mudança na política da cidade. A saúde pública vem clamando socorro não é de agora, segurança e educação não são diferente.

Nos desfiles de hoje em dia o que vale mais é impactar o público e os jurados do que mostrar um bom samba. O corte na verba da prefeitura pode ser a oportunidade do carnaval carioca se reinventar e voltar a encantar por sua beleza e simplicidade, nada de carrões mastodontes que só atrapalham e luxuria vazia de conteúdo.

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