Reflexão sobre o misticismo em torno de Lula e seu papel na história

Passei dias e dias em jejum de opiniões sobre política. Por minha vontade emocional confesso a motivação diminuta. Todo cidadão tem um compromisso com o país e seus semelhantes.

O terremoto político registrado no Brasil faz com que a gente adote a contradição de atos para sermos coerentes perante a história. Vou compartilhar mais uma reflexão. E antecipadamente peço desculpas porque o “textão” será inevitável. Especialmente pelo tema tratado: Lula.

Desde que a jornalista Eliane Cantanhede divulgou na noite de quinta (18) uma perspectiva de delações explosivas contra Lula e Dilma, um estado de euforia tomou conta do campo conservador e de apreensão no espectro progressista.

É como se uma final de Campeonato estivesse em vigência. São 13h28 de uma sexta-feira, dia 19 e até agora não sabemos do teor da delação. Se é que existe delação. Mas é uma chance para refletirmos e analisarmos por que o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva chegou a tal espiral de admiração e ódio. Quais os motivos que levaram este operário de 71 anos a ser o protagonista de uma novela sem fim na política brasileira.

UM GOLPE DÁ LARGADA AO TRABALHISMO

É preciso fazer uma viagem no tempo. Entender que no início do Século 20, o Brasil era um país rural dominado por uma elite focada na cultura do café e que os estados de São Paulo e Minas Gerais dominavam o Palácio do Catete, independente do partido. Indicavam os políticos destinados a comandar os destinos do país, cuja desigualdade era gritante e com sacríficios impostos a classe trabalhadora, responsável por cumprir jornadas de trabalho de até 16 horas por dia.

Eis que entra no roteiro um advogado baixinho gaúcho chamado Getúlio Vargas. Disputa as eleições de 1930 contra Julio Prestes, que vence com 59% dos votos. Vargas, inconformado com o resultado e aliado a militares e uma parcela da sociedade, dá um golpe de estado e ascende ao poder.

Este é o primeiro pulo do gato. Por saber que não contaria com o apoio da elite empresarial da época, Vargas encontra na massa dos pobres, remediados e na organização sindical a brecha para se firmar politicamente e desenvolver o seu regime ditatorial. Sim, foi uma ditadura, com tudo que existe de direito.

Ao implantar a Consolidação das Leis do Trabalho, atrelar os sindicatos ao Estado, permitir o voto feminino e instituir o Salário Minimo, Vargas instala no Brasil um fenômeno político que tem efeitos até os dias de hoje: o trabalhismo.

DUTRA, O PRIMEIRO BENEFICIÁRIO

Foi em cima desta massa de remediados e desesperados que Vargas calcou sua trajetória e que foi essencial para continuar a interferir na vida política do Brasil. Tanto que em 1946 Eurico Gaspar Dutra só venceu as eleições por causa de uma atitude que hoje parece surreal: após apelo feito por correligionários, Vargas autorizou que se escrevesse um texto de sua autoria para sacramentar o apoio a Dutra e que fosse colado em postes de iluminação nas grandes cidades brasileiras.

A volta de Vargas ao poder em 1950, assim como Lula em 2002, também foi registrada com diversas incoerências. A principal foi o fechamento de um acordo com Adhemar de Barros, acusado de vários atos de corrupção, mas com grande influência no mundo político e no estado de São Paulo. Coube a ele indicar o vice-presidente Café Filho, oriundo da região nordeste.

Nem preciso gastar letras para recordar o segundo mandato turbulento de Vargas e que culminou na criação da Petrobrás, na Companhia Siderúrgica Nacional e no seu suicídio.

Antes deste ato dramático, Vargas fez questão de propagar seu apoio e apreço por JK, então governador de Minas Gerais e posteriormente Presidente da República e acossado durante seu mandato com muitas tentativas de deposição por parte de seus opositores.

Na década de 1960, após a renúncia atrapalhada de Jânio Quadros, o Brasil se viu obrigado a fazer um puxadinho com o parlamentarismo para a aceitação das elites em relação a João Goulart. Ex-ministro do Trabalho de Vargas, era o legitimo herdeiro do trabalhismo ao lado do então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola.

Se analisarmos sob uma perspectiva histórica, o golpe militar de 1964 não foi para estancar a “ameaça comunista” e sim com a meta de bloquear a permanência do trabalhismo como fonte de poder no Palácio do Planalto. Até porque, além de Goulart e Brizola, JK era um forte candidato a retornar e com as bênçãos do grupo político articulado por Vargas.

LULA, UMA CHANCE PARA DIVIDIR A ESQUERDA

Bem, após ler toda esta linha do tempo, você deve perguntar: e Lula? Onde entra nesta trajetória?

De novo é preciso fazer uma viagem na história. Não tem jeito. Em meados da década de 1970, o governo militar amargurava seguidas derrotas nas eleições parlamentares. Sem contar a pressão pela instalação de uma anistia Ampla Geral e Irrestrita. Com certeza, se o processo não fosse controlado, isto poderia desembocar em antecipação de eleições presidenciais cujo principal favorito seria o então exilado Leonel Brizola.

Por quê? Ele era herdeiro direto do trabalhismo, especialmente após as mortes misteriosas de João Goulart e de JK. Quem leu as obras da coleção “ilusões armadas”, de autoria de Élio Gaspari, sabe que o mentor e o estrategista da ditadura militar era Golbery do Couto e Silva. E sua obsessão era impedir a vitória e a ascensão de Brizola e do trabalhismo.

O que fez? Atuou em duas frentes. Na primeira instituiu em 1977 o pacote de abril, que instituiu o senador biônico e tirou a proporcionalidade dos votos na Câmara dos Deputados. Ou seja, aumentou a bancada das regiões norte, centro-oeste e nordeste e tirou votos do sul e sudeste, principais focos de resistência do trabalhismo. A meta era fortalecer a Arena, então partido do governo e enfraquecer qualquer dissidência oposicionista.

Era preciso dividir a esquerda. Tirar de Brizola o centro das atenções. E nesse aspecto Lula entra em cena. Ao perceber o movimento das greves na região do ABC, Golbery percebe em Lula um líder em potencial para em médio e longo prazo dividir o espectro de esquerda e tirar a força de Brizola, que ainda precisava recuperar a legenda do PTB. Lógico que as greves foram reprimidas e a ameaça pairou sobre os líderes. Mas em um estágio muito menor que anteriormente na época dura do regime. Ao fechar um acordo aqui e acolá, Lula involuntariamente ganha aquilo que Golbery desejava: poder político.

A criação de um partido político por parte de Lula e dos líderes seria natural. E quando foi criado em fevereiro de 1980, o PT já tinha conseguido uma façanha que hoje poucos reconhecem: a adesão de grupos que na época flertavam com o terrorismo como arma de luta político. Algo que desembocou no Sendero Luminoso do Peru, por exemplo.

ESQUERDA DIVIDIDA EM 1989

Queiramos ou não, a estratégia de Golbery teve o resultado esperado em 1989 nas eleições presidenciais. Lula foi ao segundo turno contra Collor com 17,18% dos votos e Brizola ficou em terceiro com 16,51%. A esquerda estava rachada. Talvez até para sempre.

Com este encaixotamento, de certa maneira Lula e Brizola disputaram tal espólio por nove anos e a capitulação aconteceu em 1998, quando o próprio Brizola foi vice de Lula. Já era tarde. Com uma aliança montada a partir dos coronéis políticos do norte e do nordeste, partidos conservadores, mídia e empresariado, Fernando Henrique Cardoso elegeu-se presidente por duas vezes até com certa tranquilidade.

A partir de 2000, uma série de fatos passaram a conspirar a favor de Lula para construir sua candidatura vitoriosa em 2002. Primeiro passo foi a vitória de Marta Suplicy para prefeita de São Paulo e com boa penetração nos votos da classe média, antes resistente ao PT. Ao mesmo tempo, uma fatalidade, queiramos ou não beneficiou Lula e o PT: a morte de Mário Covas, no dia 06 de março de 2001. Era candidato natural à sucessão de FHC e tinha como baliza governos marcados pela austeridade fiscal e certa preocupação social. Falava com os pobres e a classe média. Seria difícil batê-lo.

A CONSTRUÇÃO DA ESTADIA DO PT NO PODER

O campo livre não seria suficiente para levar o PT ao poder. Era preciso conquistar a classe média e o eleitorado despolitizado e sem conexão com a esquerda. Algumas medidas foram tomadas capitaneadas por José Dirceu. A primeira foi a aliança com o então empresário José Alencar para ser vice de Lula. Na sequência, uma garantia aos setores empresarial e formadores de opinião que o Brasil não correria risco de cair em aventuras inconsequentes, como Hugo Chávez fazia na Venezuela.

A “Carta aos Brasileiros” era a senha de alforria. A partir dos dois mandatos de Lula passamos a entender porque sua figura vira mítica. Em parte por seu carisma e conexão com as massas e também pela ausência de figuras que poderia substitui-lo na ocupação de poder, como José Dirceu e Antonio Palocci, ambos abatidos por denúncias de corrupção.

O que restou? Depositar na então desconhecida Dilma Rousseff, muito mais por seu simbolismo (a primeira mulher a ocupar a Presidência) do que por seu traquejo político.

A CRIAÇÃO DO MITO LULA

Independente de tudo aquilo que aconteceu e culminou com sua deposição, a falta de paciência com o dia a dia da política e seus resultados deficientes na economia (apesar das reconhecidas dificuldades que encarou) elevou ainda mais a mística em torno de Lula.

Tirar Dilma do Planalto no final das contas transformou a esquerda e os adeptos do trabalhismo ainda mais dependentes da liderança do operário e a colocação em segundo plano de outras lideranças que poderiam ter sido trabalhadas durante este período. Nomes? Olívio Dutra, Tarso Genro, Patrus Ananias e até Fernando Haddad. Agora é tarde. Para o bem ou mal, tanto o PT como as esquerdas gravitam em torno da figura de Lula.

O que traz um péssimo aspecto: seus defeitos e equívocos são ignorados e cria-se uma idolatria messiânica capaz também de gerar um ódio inconsequente e irracional. Porque qualquer político é contraditório, incoerente, dotado de medidas por vezes incompreensivas. A diferença é saber se ele tem uma visão de estado, de fomentar um legado capaz de atravessar gerações.

AS CONSEQUÊNCIAS

Se denúncias abaterem Lula, qual será a consequência? Satisfazer uma malta sedenta por sangue não vai produzir o disfarce de que um campo político responsável pela bandeira do combate a desigualdade, preconceito racial, disparidades regionais ficará seriamente abalado. E cuja as bandeiras não são de interesse dos outros espectros ideológicos reinantes no Brasil.

E por muito tempo. Mais: joga-se na lata do lixo uma corrente ideológica construída por quase 80 anos. Detalhe essencial: se as denúncias tiverem provas cabais e concretas, Lula e Dilma devem ser submetidos ao crivo da lei e com amplo direito de defesa.

O que este artigo pretende analisar é a força de destruição não em cima de pessoas e sim sobre ideiás e grupos políticos. Para piorar, o campo conservador, ao contrário do que acontecia na Era Vargas e JK não tem um líder político capaz de galvanizar respeito, visão de estado e de país. João Dória, Luciano Huck, Roberto Justus, ao se analisar sob a perspectiva tem um lastro muito mais vazio e artificial do que Collor tinha em 1989. A partir daí verifica-se o tamanho da tragédia.

A Itália viveu algo parecido. Viveu um estado policial, jogou todos os políticos na lata do lixo e gerou um bufão como Silvio Berlusconi. O Brasil está pronto para tal catástrofe? Pense nisso.

Elias Aredes Junior é jornalista que trabalha na Radio Central, Jornal Todo Dia e Sinergia CUT