Macron e a doença francesa

Por Thomas Traumann

A eleição presidencial francesa de 2017 lembra o cabo de guerra dos personagens de O Doente Imaginário, última peça de Moliére. Na sátira, Argan é um velho hipocondríaco cercado de médicos que lhe confirmam seus piores medos, imaginários ou não. “A França está doente e a doença são os estrangeiros, os estrangeiros, os estrangeiros” repetiu à exaustão a candidata da extrema-direita Marine Le Pen, encarnando o personagem do doutor Diaforious. “Não é nada, não é nada, não é nada”, retrucava o candidato centrista Emmanuel Macron, como a criada Toinette, certa de que as doenças do patrão não passavam de fantasia. A França desta campanha eleitoral era, ora um paciente em seus últimos dias, ora um exemplo de vigor mundial. No último domingo, dia 7, dois em cada três eleitores franceses decidiram que o diagnóstico de Macron estava mais correto.

Macron e Le Pen foram os protagonistas da primeira grande encenação eleitoral pós-Trump, na qual as táticas de convencimento do eleitor se sustentaram na disseminação do pânico e da calúnia. Le Pen era apresentada como a fascista, que iria levar à França à convulsão social com a deportação em massa de imigrantes (ok, essa imagem talvez não estivesse tão longe da realidade). Macron era o candidato dos judeus (ele trabalhou para o banco Rotschild), da mão amiga ao terrorismo (ele declarou que a colonização francesa na Argélia foi um “crime contra a humanidade”) e do establishment (o que é verdade). Dias antes da eleição, hackers invadiram os computadores do comitê eleitoral de Macron e tornaram públicos milhares de e-mails e documentos internos, em um ataque similar ao que ocorreu com a campanha de Hillary Clinton.

Macron venceu a eleição não pelo que ele representa _ sua juventude, sua experiência corporativa, sua história de amor de conto de fadas_ mas, principalmente, por não ser Marine Le Pen. É fato que boa parte dos franceses são preconceituosos contra imigrantes, desconfiados do islamismo e têm motivos para odiar os burocratas da União Europeia. Mas, colocada na balança, a rejeição ao protofascismo de Le Pen é maior que tudo isso.
Com o desafio de não ser Marine Le Pen, Macron fez uma campanha cautelosa. Dizia parolagens como “farei um governo com o melhor da esquerda, melhor da direita e o melhor do centro”. Suas propostas incluem a redução no pagamento de impostos para as empresas e trabalhadores, cortes profundos nos gastos públicos e um sistema universal de seguro-desemprego e de aposentadoria. Não é preciso ser um gênio para ver que essas promessas são incongruentes.

Agora que venceu, Macron vai enfrentar problemas reais, o desemprego que atinge um de cada quatro jovens franceses, o medo do terrorismo, a crise migratória e o que chamou na campanha de “o ressentimento dos perdedores da globalização”. Em artigo para o jornal inglês The Guardian, o historiador britânico Timothy Garton Ash alerta para a possibilidade de uma reação do eleitorado na possibilidade de Macron desapontar. “Saboreiem, portanto, esses goles finais de champanhe. Agora é hora de tomar um triplo café de realidade. Primeiro gole desse café: mais de um terço dos que votaram no segundo turno escolheu Marine Le Pen. Seria um resultado a se comemorar? Segundo gole de realidade: Macron sabe o que tem de ser feito na França, mas não parece que vá conseguir fazê-lo. Terceiro gole de café de realidade: é ótimo que Macron também queira reformar a União Europeia, mas isso está fora de seu alcance”. Ou seja, não convide Garton Ash para a próxima vitória do seu time do coração…

Há um quarto gole de café: depois da vitória de Trump e do Brexit, o populismo xenófobo parecia invencível. As derrotas de Norbert Hofer (Áustria), Geert Wilders (Holanda) e Marine Le Pen (França) mostraram que ainda há esperança para a política tradicional. Mas essas três vitórias do establishment só foram possíveis por uma união de todas as outras forças, num sistema de frente política típico de momentos de extrema crise. Mas por quanto tempo os eleitores de esquerda vão seguir tapando seu nariz e votado na centro-direita? Macron venceu sem um gesto à esquerda, não obtendo sequer o apoio de Jean-Luc Mèlenchon no segundo turno. Ter políticos aguerridos como Le Pen e Mèlenchon como opositores não é o prenúncio de um governo tranquilo.

Embora derrotada, Le Pen conseguiu tornar a Frente Nacional numa opção viável. O que antes era malta de antissemitas, racistas, homofóbicos, colaboracionistas e monarquistas, agora é uma organização política que representa uma parcela importante da França. O que antes era racismo foi edulcorado para uma “postura de desconfiança sobre o Exterior” e o que era tradicionalismo virou a “defesa de valores franceses”.

A peça de Moliére é uma comédia de erros. O velho Argan se finge de morto para saber quem realmente o ama, e junto com a descoberta recupera a saúde. Os eleitores franceses de 2017 decidiram que o país não está à beira da morte, mas isso não significa que não esteja doente.

Thomas Timothy Traumann é um jornalista brasileiro. Foi porta-voz da Presidência da República e ministro da Secretaria de Comunicação Social no governo Dilma Rousseff.

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