Vitória de Trump não foi surpresa, mas governo pode ser

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A democrata Hillary Clinton entrará para a história das eleições dos Estados Unidos como a recordista no quesito “ganhou no voto popular, mas não levou a Casa Branca”. Até o final das apurações, a vantagem dela contra Donald Trump deverá superar a barreira de 1,5 milhão de sufrágios. E, mesmo assim, ela terá ficado bem mais distante da vitória no colégio eleitoral que John Kerry, o único correligionário da candidata a ter sido menos votado que o adversário republicano nas últimas sete eleições.

Nesse período, o voto azul tem predominado diante do vermelho. E o fato de Trump ser mais um republicano superado na votação popular apenas confirmou essa tendência, o que torna falsa a conclusão de que a vitória dele se deve a um fenômeno mundial que tem favorecido populistas de norte a sul e de leste a oeste do globo. Na verdade, o empresário falastrão venceu porque alcançou o tradicional eleitor do partido, atingiu a média de votos da história recente dos republicanos e a concorrente democrata errou em momentos cruciais da campanha.

Desde 1992, quando Hillary se tornou a primeira-dama, apenas em 2004 o concorrente democrata foi batido nas urnas. Com 59.028.44 votos, ou 48,3% do total, Kerry ficou a três milhões do total amealhado por George W. Bush. Mas no colégio eleitoral, o democrata por pouco não levou. Vencedor em 19 estados, mais DC, ele arrebatou 251 votos dos delegados. Se não tivesse sido derrotado pela mixaria de 60 mil votos em Ohio, e assim conquistado os então 20 delegados do estado, teria se tornado o 44º presidente dos Estados Unidos.

A supremacia de George W. Bush nas urnas foi, portanto, uma exceção na história recente dos Estados Unidos. Na controversa eleição de 2000, ele levou a Casa Branca mesmo tendo recebido meio milhão de votos a menos que Al Gore Jr. Antes dele, Bush pai e Robert Dole foram derrotados por Bill Clinton. Depois, John McCain e Mitt Romney não foram páreo para Barack Obama.

No momento em que escrevo, quando a totalização ainda não está concluída, Donald Trump repete os mesmos 47,2% dos votos populares que foram amealhados quatro anos atrás por seu correligionário Mitt Romney. Ambos alcançaram resultado um pouco melhor que o de John McCain/2008 (45,7%) e bem abaixo dos 50,7% de George W. Bush.

Sendo assim, como definir a vitória de Trump como um fenômeno eleitoral, uma manifestação da maioria silenciosa ou uma reação dos órfãos da globalização? No mesmo sentido, como cravar que o bilionário venceu por ser o candidato anti-establishment ou por se tratar daquele que se posicionou ao lado da mão-de-obra local ameaçada pelos cruéis latinos ilegais, que sorrateiramente invadem a América para tungar vagas no mercado de trabalho? Até que ponto propostas exóticas como a do muro na fronteira com o México, do fim do Obamacare ou do veto à entrada de muçulmanos foram diferenciais que robusteceram a candidatura de Trump?

Quem imagina que a truculência retórica de um blogueiro de direita, os deserdados da globalização ou a aversão a ilegais tenham sido os fatores decisivos para a condução de Trump à Casa Branca revela inequívoco pendor para explicações baratas ou gosta de paranoias. É verdade que o republicano ganhou alguns preciosos votos em áreas industriais e de desemprego alto dos cruciais Michigan, Wisconsin, Pensilvânia e da Carolina do Norte. E tem ainda o caso especial da Flórida, estado que Trump retomou dos democratas.

Mas até que ponto a globalização e não as estratégias dos candidatos definiram a hegemonia no quarteto industrializado? Vale observar que nos dias anteriores à eleição o republicano despejou muito dinheiro de campanha nesses estados. Só no último dia, Trump visitou 5 estados para comícios-relâmpagos. Quais foram? Michigan, Wisconsin, Pensilvânia, Carolina do Norte e Flórida. Em Michigan, a apuração ainda não está concluída e ele vence por míseros 0,3%. Ganhou por 1% em Wisconsin, onde a democrata não apareceu nenhuma vez, talvez por acreditar na fidelidade absoluta do estado onde os democratas haviam vencido todas desde 1984. Na Pensilvânia, a vantagem de Trump foi de 1,2% e na Flórida, de 1,3%. Até pelas margens exíguas creio que os resultados têm mais de estratégias de campanhas do que de fenômeno mundial.

Óbvio que nesses estados o discurso foi o da perda de empregos por conta da inércia do governo, da presença de clandestinos e dos tratados internacionais, que escancaram o mercado americano e levam fábricas do país para outras regiões do planeta. Então, “Muro Neles” e protecionismo comercial também!

Mas até que ponto essas ideias representam algum tipo de novidade nos Estados Unidos? Desde sempre um robusto contingente repele os ilegais, lançando mão da força de leis ou mesmo das armas na caçada contra grupos humanos que julgam indesejáveis, quando não perigosos. Não se deve ignorar como o candidato se referia aos mexicanos diante de plateias entorpecidas, que em coro gritavam “Levante o Muro”.

No magnífico “O futuro da América”, o acadêmico Simon Schama descreve como os americanos da primeira metade do século XIX se consideravam representantes de uma raça superior, que acabava de dominar um “exército de mestiços vira-latas”, no caso os mexicanos! Schama também narra como nas décadas seguintes uma série de leis restringiu os direitos de imigrantes de diversas origens, especialmente alemã e chinesa.

Mais tarde, já na última década de 60, o governador do Alabama George Wallace, fanático defensor da segregação racial, lançou-se candidato a presidente. Nas eleições de 1968, venceu em 5 estados com sua plataforma claramente racista. Conquistou 46 votos no colégio eleitoral e 13,5% de apoio na votação popular. Agora, na mesma eleição que consagrou Trump, o xerife Joe Arpaio, de 84 anos, tentou sem êxito mais um mandato no Arizona. Desde 1992 no cargo de xerife do estado, orgulha-se pelo combate sem tréguas aos imigrantes que tentam cruzar a fronteira.

Personagens como Arpaio, legisladores xenófobos e segregacionistas como Wallace sempre existiram nos Estados Unidos. E também na Europa, Ásia e na América do Sul. Ou será que são diferentes os americanos que defendem o muro na fronteira daqueles eleitores brasileiros sulistas que divulgavam pela internet um mapa do Brasil sem o nordeste após a eleição de Dilma em 2014?

Está claro que a questão do desemprego industrial afeta populações no mundo todo e até agora ninguém apareceu com a fórmula para solucioná-la. Muito pelo contrário. Na desenvolvida Europa e em países de mediano nível de desenvolvimento como o Brasil os fantasmas são maiores a cada instante. Há poucos dias, o governo do Paraguai publicou em grandes jornais brasileiros anúncios convidando empresários daqui a investir lá. As vantagens oferecidas são sedutoras, como energia mais barata, salários mais baixos e carga tributária menor. Não é por acaso que cada vez mais plantas industriais do Brasil são transferidas para lá. Isso significa mais desemprego e mais pessoas dispostas a se render a discursos com propostas messiânicas, fenômeno que se alastra há mais tempo pela Europa, continente estagnado há quase uma década. E nos países que perdem indústrias, ninguém ainda apresentou a fórmula que contemple interesses de empresas que querem produzir por menos, trabalhadores que aspiram ganhar mais e governos que buscam aumentar a arrecadação de impostos.

Como reagir? Embora nos Estados Unidos de Trump o desemprego seja bem menor que na Europa e Brasil, o novo eleito parece se antecipar ao problema, acenando com mais protecionismo. Há poucos dias, o presidente da Argentina, Maurício Macri, anunciou pacote de medidas que prevê, entre outros pontos, regulação das importações, que precisarão ser autorizadas pelo governo. Chega a soar como ironia que um liberal na economia como Macri adote medidas protecionistas normalmente defendidas pela esquerda e também pela extrema-direita. Da mesma forma, a repulsa aos blocos comerciais expressa por Trump choca-se com a tradição de abertura do Partido Republicano, historicamente menos regulador que o Democrata.

O prestigiado acadêmico Francis Fukuyama, um dos ícones do neoconservadorismo americano, adverte para a contradição. Lembra que o Partido Republicano “está sob o domínio das grandes empresas…..que lucraram generosamente com a globalização”, mas não descarta que a recente eleição “sinaliza que o país está deixando a ala liberal e internacionalista do espectro político e ingressando na ala populista e nacionalista”.

Assim, por enquanto, Trump representa a perspectiva de que os Estados Unidos possam caminhar rumo a uma indesejada e perigosa inflexão política e econômica. Mas isso ainda não está claro. Ainda é difícil prever até que ponto ele adotará medidas para proteger os operários de Michigan da invasão de carros orientais ou os agricultores de Iowa contra o milho importado do Brasil. Nem sempre a retórica do candidato se sobrepõe ao pragmatismo do governante. Uma coisa é gostar de Putin, de Marine Le Pen ou dos britânicos favoráveis ao Brexit. Outra é estabelecer alianças com eles.

O que é bastante nítido é que a vitória dele no colégio eleitoral está bem longe de representar a ascensão de algum novo fenômeno social que acabou por revolucionar as preferências do voto do americano médio. Como os resultados das urnas demonstram, o eleitor dos Estados Unidos votou como quase sempre faz. Pelo menos de 7 eleições para cá.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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