Turquia de Erdogan, Venezuela de Chávez

turkey

O que ocorreu na Turquia é muito diferente da arapuca institucional que afastou Dilma. Mas a tentativa clássica de golpe, que pressupõe a ruptura da ordem legal, é bem parecida com a que se verificou na Venezuela em 2002. E o final dificilmente será feliz. Provavelmente, acentuará a fratura exposta na sociedade turca.

No país vizinho, em 11 de abril daquele ano, oposicionistas apoiados por setores do exército organizaram um golpe para depor o presidente Hugo Chávez.

Após o assalto ao Palácio de Miraflores, instalaram como governante do país o então presidente da Fedecamaras (Federação Venezuela de Câmaras de Comércio), Pedro Carmona. De imediato, a quartelada ao melhor estilo dos antigos golpes na América Latina recebeu apoio dos Estados Unidos de George Bush e da Espanha de José Maria Aznar. Os golpistas agiram rápido. Em poucas horas, mais de 40 leis foram modificadas.

Mas a aventura teve curta duração, pois o contragolpe não tardou. Militares e grupos civis leais a Chávez dominaram a sedição e reinstalaram o governo democraticamente eleito. Nunca mais o país foi o mesmo. O presidente Chávez, então com a autoridade moral de quem venceu uma tentativa de quebra da ordem determinada pelas urnas, passou a manobrar para alterar a Constituição e se perpetuar no poder. Golpistas daquele momento passaram a denunciar o déficit de democracia do período chavista e a Venezuela caiu em um limbo institucional do qual jamais conseguiu sair.

Em relação a Hugo Chávez, o presidente turco Recep Erdogan tem ao menos duas semelhanças. É um governante eleito pelo voto popular em eleições limpas (na Venezuela era assim ao menos até o final da década de 90) e não tem lá muitos pendores para o convívio democrático com opositores. Aliás, a Justiça turca está abarrotada por mais de mil processos do presidente contra jornalistas e intelectuais críticos do regime. O que me leva a supor que após o golpe fracassado os opositores não terão na Turquia o paraíso que gostariam. E que o país terá mais divisões do que as já existentes entre Ocidente e Oriente, Cristianismo e Islamismo.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

Anúncios