Dilma namora com o abismo

dilmaPor Eduardo Jorge*

Durante todo 2015 e 2016 me coloquei como oposição civilizada ao governo federal. Alias sou oposição a este grupo político que lidera o governo federal desde 2003… Participei das recentes grandes manifestações públicas contra os desmandos dos últimos períodos de governo federal sempre defendendo soluções legais e que respeitem os direitos de defesa dos acusados.

Alimentei o debate em torno de uma saída que considerava difícil porém não impossível: partindo do pressuposto que a Presidente Dilma não estivesse pessoalmente envolvida nas graves irregularidades que estão sendo investigadas pela justiça, que ela se afastasse do partido mais envolvido, o PT, e fizesse um chamamento para um governo de transição aberto a setores da oposição para levarmos o país até 2018. Uma espécie de governo Itamar com Dilma. Com o compromisso de não interferir nas investigações nem nas eleições de 2016 e 2018. Para corrigir os erros mais graves na economia e diminuir os sofrimentos agudos da população brasileira. E deixar este mesmo povo traçar novos rumos em eleições de 2016 e 2018.

Chegamos a aprovar esta idéia em agosto/2016 na direção nacional do PV e enviamos a Presidente. Não tivemos resposta.

E nos últimos dias, em desespero pelo seu crescente isolamento, ela trouxe para dentro do seu governo (está tentando na verdade…) o principal acusado de todos os desmandos recentes na administração de Brasília! Apostou contra 80% do povo do Brasil e ameaça assim cristalizar uma cisão profunda e perigosa da nação no presente e para o futuro próximo.

Uma cisão raivosa que considero uma das piores heranças destes últimos governos de 2003 para cá. Um radicalismo doentio, violento às vezes, alimentado por extremistas de direita e de esquerda que envenena a já conturbada convivência social num país desigual e injusto.

Agora o que nos resta?
1. Tentativas de impedimentos constitucionais que vão se suceder. Se a primeira bater na trave virá uma segunda, uma terceira e motivos não faltarão…
2. Julgamento no TSE com convocação de nova eleição em 2016 ou até 2017. Não sei se é possível, mas no caso talvez até melhor fosse uma emenda constitucional convocando eleições gerais para todos os níveis.
3. O pior de tudo, o governo Dilma vai escapando esfarrapado e cada vez mais fraco, mais refém do fisiologismo, vai radicalizando perigosamente seu discurso até 2018. Com todos nós pagando um alto preço pelo erro político que foi sua eleição em 2014.

Resta apelar para um mínimo de equilíbrio e sensatez entre a maioria dos envolvidos (uma parte é caso de justiça, outro departamento) nestes conflitos políticos. Extremistas de direita e de esquerda com ideologias violentas, preconceituosas, totalitárias sempre vão existir. Em todas as democracias consolidadas estão presentes e devem ser enfrentados com idéias. Não podemos deixar que eles arrastem a maioria de democratas de todos os matizes que são a imensa maioria do povo para suas fileiras nos ameaçando com soluções não constitucionais, com “incêndios” ou guerras de rua. Qualquer saída deve respeitar os ritos e ritmos do judiciário e a Constituição democrática de 1988.

*Médico sanitarista. Deputado Estadual (1983/86) e Federal (1987/2003). Ex-Secretário da Saúde e do Meio Ambiente de SP e candidato a presidente em 2014 pelo PV

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