“Delacídio Amoral” e o Castle of Cards de Brasília

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As confissões de “Delacídio Amoral” trazem combustível para implodir a versão Castle of Cards da nossa república. O caráter e as motivações do senador são agora o que menos importam. O que vale mesmo é buscar a comprovação do conteúdo das delações recolhidas.

O senador-bomba obviamente sabe de muita coisa. Transitou com desenvoltura pelos governos FHC, Lula e Dilma. Fez incontáveis amigos entre os tucanos, petistas, gente graúda do PMDB e dos partidos-satélites. E trabalhou no alto escalão da Petrobras, senha para indicar que viu, conviveu e participou dos assaltos cometidos contra a estatal desde, pelo menos, a segunda metade da década de 90. Aliás, a narrativa dos crimes que apontou na petroleira começa exatamente em 1997.

Delcídio não poupa a presidente Dilma, o ex-Lula, Temer, ministros que estão ou que já se foram do governo, parlamentares da esquerda à direita, gente combativa como o prefeito Eduardo Paes, fora de combate como Zé Dirceu, as estrelas cadentes Palocci e Mercadante, tucanos bons de bico e rica plumagem como Aécio e Carlos Sampaio, carlistas do antigo PFL, hoje DEM, além de Renan, Romero Jucá e Eunício, entre outros nobres da caciquia do PMDB.

Claro que todos os acusados estão negando. O ex-presidente Lula não sabia de nada e o senador Aécio diz que tudo não passa de acusação requentada. Por sinal, o tucano é um dos protagonistas das delações, sendo associado a três episódios – Furnas, Correios e a uma empresa em paraíso fiscal. Poderia até pedir música para o Fantástico, se fosse seguir a tradição que espalhou entre jogadores de futebol que marcam três gols em um jogo.

Interessante também é a anatomia da corrupção, segundo as preferências das grandes empreitas. De acordo com Delacídio, Odebrecht e OAS preferem jogar com os parceiros (ou cúmplices?) PT-PMDB. Já a dupla Camargo Correa e Andrade Gutierrez nutre mais simpatias pelos tucanos.

É claro que delação não é prova. Mas se o que disse Delcídio for comprovado, poucos atores relevantes restarão deste arrastão político. A questão agora é saber se TODOS serão investigados e se a Justiça não tomará partido. Até porque, no nosso Castle of Cards ninguém, nem mesmo os delatores, merece ser premiado.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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