New Hampshire vale pouco, mas custa muito

LBJ

Cenário da segunda rodada das primárias americanas, o estado de New Hampshire contribui com menos de 0,5% do total de votos dos Estados Unidos. Mas mesmo pequeno, o colégio eleitoral do estado foi forte o suficiente para abater um presidente que pretendia renovar seu mandato. Em 1968, o favorito óbvio entre os democratas era o Lyndon B. Johnson, candidato à reeleição. LBJ vencera de forma espetacular quatro anos antes, quando alcançou 61,1% dos votos populares e arrasou o ultraconservador Barry Goldwater, governador do Arizona. Na Casa Branca, LBJ cumpria o que prometera. Aprovou leis como o Medicare, que permitia o acesso dos mais pobres e idosos à saúde gratuita, o voto universal, que passava a incluir eleitores analfabetos e, principalmente, o Civil Rights Act, que na prática igualava direitos entre brancos e negros. No entanto, havia o Vietnã.

Os Estados Unidos continuavam atolados em uma guerra cruel, do outro lado do mundo e que produzia pilhas de americanos mortos. Opositor ferrenho da Guerra do Vietnã, o senador Eugene McCarthy decidiu desafiar a candidatura de Johnson dentro do partido democrata. No início, a pretensão nem foi levada a sério, desprezo que era ratificado pelas pesquisas. O rumo das primárias, que seriam meramente uma formalidade partidária, começou a mudar no último dia de janeiro, quando no Vietnã eclodiu a Ofensiva do Tet. A ação fez milhares de vítimas entre a população local e tropas americanas. Além de produzir cadáveres, o ataque abalou a confiança americana por atingir até mesmo a embaixada do país em Saigon.

Internamente, as críticas à intervenção recrudesceram e devastaram a popularidade Johnson. O ataque final contra a reeleição foi desferido exatamente em New Hampshire. Nas primárias ocorridas em 12 de março, a antes inabalável candidatura do presidente superou o azarão McCarthy por menos de 1%. Era o começo do fim! Por ironia, o fervoroso católico McCarthy tinha como autor preferido o britânico Thomas Morus, autor do clássico Utopia…

Na noite de 31 de março, um domingo, um resignado LBJ foi à televisão anunciar que “cheguei à conclusão de que não devo permitir que a presidência se envolva nas divisões partidárias que estão se desenvolvendo neste ano político……assim, não procurarei nem aceitarei a indicação do meu partido para outro mandato como presidente”. Foi a confissão da derrota inevitável! New Hampshire ficou para a história como a última batalha eleitoral disputada por LBJ.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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