Lampreia foi pragmático e intelectualmente honesto

O ex-chanceler do Brasil Luiz Felipe Lampreia, que morreu nesta terça (2), aos 74 anos
O ex-chanceler do Brasil Luiz Felipe Lampreia, que morreu nesta terça (2), aos 74 anos

Entrevistei o ex-ministro Luiz Felipe Lampreia 5 ou 6 vezes. Era um sujeito sagaz, educado e um craque na diplomacia. Após a primeira dessas conversas, ele fez um comentário que, confesso o cabotinismo, me deixou orgulhoso. “Pensei que você era só do futebol!”. Não posso negar que ele tinha sólidas razões para duvidar da qualificação do entrevistador. Na véspera, um amigo de quem Lampreia era parente o avisou de que a entrevista seria conduzida por um companheiro de transmissões esportivas. Imagino que não era bem o que o ex-ministro aguardava para aquela conversa sobre os 10 anos do 11 de Setembro e as implicações daquele evento na então nova ordem mundial.

Talvez eu devesse falar ao meu amigo e ao veterano diplomata que um dia na vida eu havia iniciado um preparatório, jamais concluído, para prestar o exame de admissão ao Itamaraty. Quem sabe se isso não atenuasse as desconfianças!

Depois desse primeiro contato, gravamos outras entrevistas e tivemos mais algumas conversas informais por telefone, ocasiões em que eu o procurava em busca de opiniões qualificadas para assuntos espinhosos. E ele foi um dos melhores entrevistados naquele dia de março de 2013, quando o assunto foi a morte do presidente Hugo Chávez. De todas as fontes consultadas, quase 100% daqueles sem vínculos com a esquerda satanizaram o líder venezuelano.

A única voz discordante foi a de Lampreia, que reconheceu que Chávez radicalizou após sofrer uma tentativa de golpe. Bingo! Até então um líder mais radical nos discursos do que na prática, o coronel Hugo Chávez mudou após tentarem lhe roubar o poder conquistado no voto por meio de uma quartelada, bem ao estilo latino-americano de passado não tão distante.

Recentemente, Lampreia esteve entre os signatários de uma carta que repudiava a indicação que Israel fez para ocupar a embaixada no Brasil. O texto conferiu importante aval ao endurecimento diplomático adotado pelo governo brasileiro. O ex-ministro jamais escondeu as divergências com a orientação da diplomacia brasileira nos governos petistas. Mas no impasse com Israel, assim como na avaliação do período Chávez, foi mais leal a princípios, à honestidade intelectual do que a qualquer tentação sectária, tão em moda em tempos de país dividido.

Vai fazer falta.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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