Temos saudades de um Brasil que nunca existiu

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A semana está emocionante na Câmara dos Deputados. Conspirações e manobras que ignoram o regimento se misturam com cenas de agressividade, xingamentos e de vale-tudo. No Conselho de Ética, nome que soa despropositado diante da rotina recente, não se consegue votar nada tantas são as manobras e chicanas de quem faz da ética um estorvo que precisa ser removido o quanto antes.

Tantas ocorrências, que mais parecem cenas de fim de baile estilo risca-faca, despertam comentários e análises sobre a degradação dos costumes políticos e do baixo nível da representação no Congresso. Afinal, estamos piorando e no passado não era assim. Certo? Não.

É fato que a qualidade do nosso parlamento e da classe política em geral beira o deprimente. Duvido que exista um brasileiro que possa se orgulhar do nível médio dos políticos que nos representam. Mas, por mais lamentável e perversa que seja a atual safra de “homens públicos”, já tivemos algo muito melhor?

É claro que não. Desde sempre estamos à mercê do que há de pior na representação política. Sempre mesmo. Ou será que alguém acredita que os parlamentares escravagistas dos tempos de império tinham mais caráter que os Cunhas da vida? Você de fato acredita que os oligarcas da época da política Café com Leite eram mais honestos que os atuais mensaleiros e trensaleiros? Ou que a turma que apoiava AI-5, prisões e torturas durante o ciclo militar tinha mais espírito público que um Feliciano ou um Sibá Machado?

Não podemos esquecer que em outros tempos o Senado Federal já foi até cenário de um assassinato. Em 1963, o nobre senador Arnon de Mello, pai de Fernando Collor de Mello, disparou da tribuna contra o desafeto Silvestre de Gois Monteiro. Ruim de pontaria, acabou fulminando o senador José Kairala, que morreu horas depois. Obviamente, ninguém foi punido.

Foi à bala também que o então governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, tentou em 1993 resolver diferenças com o antecessor Tarcisio Burity. Em um restaurante de João Pessoa, o pai do atual líder do PSDB no Senado acertou três disparos no inimigo. Burity resistiu, processou o governador-justiceiro e morreu 10 anos depois sem que o processo tivesse sido concluído. Em 2007, quando o STF estava perto de julgá-lo, o então deputado Cunha Lima renunciou ao mandato para que o processo retornasse à Justiça da Paraíba. Morreu impune em 2012, exatos 19 anos após os tiros!

Esses são apenas alguns poucos exemplos de como nossos costumes jamais foram de provocar alguma manifestação de orgulho. E os Anões do Orçamento? E o reinado de Inocêncio Oliveira como presidente da Câmara dos Deputados? E a renúncia de ACM, então presidente do Senado, pilhado em investigações sobre violação de sigilo no painel de votações da Casa? E os parlamentares que se locupletavam durante a construção de Brasília?

Bem, eu poderia encher mais um monte de parágrafos com lembranças sobre malfeitos de deputados, senadores, presidentes, imperadores, governadores etc ao longo da nossa história. Mas vou poupá-los.

Lamentavelmente, o que se assiste nesses dias não é a degradação, mas a reprise do que sempre fomos. O “nunca antes na história desse país” é uma falácia quando tenta convencer alguém ou a todos das virtudes de um passado que foi sem nunca realmente ter sido. Mente quem diz ter saudades de um Brasil que jamais existiu.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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