Cinismo ou cruzada moral contra Assad?

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Você abre os jornais, se conecta à internet ou liga a televisão e os onipresentes políticos e acadêmicos estão lá, de forma quase que consensual, para proclamar a mais insofismável das conclusões: para combater o Estado Islâmico é necessário antes resolver a questão síria. E aí começam os problemas dessa solução fast-food, que saiu do forno sem que os cadáveres de Paris tivessem tempo de esfriar.

Para início de conversa, esse “resolver a questão síria” nada mais é do que um eufemismo que na realidade significa “derrubar Bashar Al-Assad”, governante da Síria e ditador para muitos, presidente para outros e simplesmente carniceiro para tantos.

Defender Assad, assim como já havia ocorrido em relação a Saddam Hussein ou Muamar Khadafi, é praticamente um pecado capital para qualquer boa consciência, ainda mais do lado cristão do mundo.

Derrubar Assad, assim como ocorreu com Saddam Hussein e Muamar Khadafi, é portanto uma cruzada moral, em defesa das vidas dos opositores aviltados e da democracia. Certo? Não.

A repulsa que a majoritária coligação das boas consciências ocidentais nutre por Assad não é uma questão de ojeriza a um facínora que demole os direitos humanos de opositores. É, na verdade, uma cruzada contra um ditador que não nos interessa e que não tem nada, ou quase, a nos oferecer.

Aliás, desconfie sempre das considerações de caráter moral que nossos políticos e acadêmicos imputam a ditadores, especialmente aqueles de fé muçulmana. Quer um exemplo? Por acaso, você leu nos últimos dias líderes políticos ou intelectuais de prestígio defendendo a queda não apenas de Assad, mas também do Rei Salman, da Arábia Saudita, ou das famílias que controlam os Emirados Árabes e o Catar?

Se vocês acham que eles são mais dóceis que Assad, lamento informar-lhes que estão enganados. Para início de conversa, em todos esses países (?) o ramo do Islã predominante é o wahabismo. Ou, como preferem os líderes locais, o salafismo. Essa vertente é a mais ortodoxa do islamismo e de onde brotam os líderes fundamentalistas que defendem a instalação de califados.

Na Arábia, as Mil e Uma Noites são trágicas para quem se opõe ao regime. A pena capital e as chibatadas em público são distribuídas a granel aos rebeldes. No opulento Catar não é muito diferente. O pequeno emirado é célebre por grandes obras, como os suntuosos estádios que constrói para a Copa do Mundo de 2022. Os nababescos hotéis, palácios e palcos para a Copa, que deixam extasiados ocidentais de consciências nobres, foram e são erguidos às expensas do suor do trabalho escravo, fartamente denunciado nos últimos tempos, sem que isso tenha provocado algum impacto na indústria do turismo local.

Bem, e como reagem a tais abusos as boas consciências que querem expelir o ditador Assad? Simplesmente não reagem. Afinal, como é que a economia ocidental iria se virar sem os bilionários investimentos de emires, sheiks e príncipes sauditas? E se a banalização da pena de morte e do trabalho escravo ocorre por lá, bem, isso é problema deles.

Obviamente, Assad não tem os mesmos recursos para cooptar os juízos de caráter moral de quem odeia as ditaduras. Então, que se exploda. E sem ele, a solução para derrotar o Estado Islâmico estará mais próxima. Pelo menos é o que nos fazem pensar aqueles que diziam o mesmo quando Saddam e Khadafi foram riscados do mapa.

Tenho muitas diferenças em relação às posições do filósofo Luiz Felipe Pondé. Mas concordo com artigo que publicou na Folha de São Paulo de 16/11/2015. No texto, Pondé diz que “intelectuais não são reserva de moral nenhuma”. São, é claro, capazes de buscar explicações mais sofisticadas para as questões em discussão. Mas isso não faz deles pessoas “do bem”.

Então, gostaria de saber qual destes líderes políticos e acadêmicos onipresentes, que tanto se empenham na queda de Assad por considerá-lo um ditador, não se relacionam, negociam ou se calam diante de déspotas ainda mais sanguinários? Quem, à direita ou à esquerda, nunca apoiou uma ditadura tão feroz quanto à de Assad? Estamos de fato diante de uma cruzada moral, que mira a libertinagem no uso da força contra a democracia? Ou, como ja ocorreu com Saddam Hussein e Khadafi, o grau de nosso cinismo é quem fez do amigo de ontem o nosso inimigo de hoje?

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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