Primárias para o PSDB e PMDB, como nos Estados Unidos

Pré-candidatos das primárias republicanas. Debate oficial do partido em Cleveland, no Estado de Ohio.
Pré-candidatos das primárias republicanas. Debate oficial do partido em Cleveland, no Estado de Ohio.

Gosto das campanhas eleitorais para a Casa Branca. Acho importante a superexposição dos pré-candidatos nos vários debates e nas rodadas de primárias. Todos os pretendentes ao cargo mais poderoso do mundo têm as opiniões e a vida vasculhadas sem dó, o que não permite a nenhum eleitor a desculpa de ter sido enganado antes de entregar seu voto.

Claro que há coisas incompreensíveis, como o caucus de Iowa, o pequeno estado que abre oficialmente no início de janeiro a temporada dos escrutínios estaduais em que os postulantes vão angariando delegados e apoios para o momento da formalização das candidaturas nas convenções partidárias.

O estado de Iowa é pequeno, mas importante no processo eleitoral. Lá, os produtores de milho exercem considerável influência. Por conta disso, temas como subsídios agrícolas e a produção de grãos para suprir a demanda pelo etanol made in USA estão sempre na agenda eleitoral. Aliás, os empresários brasileiros desses setores deveriam acompanhar com atenção as promessas que Iowa consegue obter dos presidenciáveis.

Arrancar bem por lá motiva o pré-candidato e, principalmente, seus financiadores. Como o estado representa poucos delegados nas convenções partidárias, alguns figurões fizeram pouco do local e se deram mal.

Em 2008, por exemplo, o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani, então um dos favoritos à nomeação entre os Republicanos, nem apareceu por lá para fazer campanha. Com a ausência, deu aos rivais John McCain, Mitt Romney e Mike Hukabee a chance de aparecem mais nos veículos de comunicação de todo o país. Dias depois, fez o mesmo no igualmente pequeno estado de New Hampshire. Como castigo, não conseguiu mais recuperar o terreno perdido e foi constrangido a desistir bem antes da convenção.

Mas a verdade é que a corrida eleitoral começa bem antes do caucus de Iowa, especialmente agora com o número recorde de aspirantes pelo lado republicano. Por enquanto são 17, o que provoca incômodos para as emissoras de televisão que estão organizando os debates entre eles. A solução por hora é dividi-los em dois grupos, definidos de acordo com as pesquisas eleitorais. Na, digamos, primeira divisão, entram os dez primeiros. A série B, igualmente animada, concentra os demais.

Entre os 17 tem de tudo. Neste cast republicano, há sobrenome ilustre, bilionário que odeia pobres e imigrantes (com um discurso que certamente teria considerável apelo no Brasil), católico conservador, batista conservador, nomes ligados ao Tea Party, que por definição é ultraconservador, intervencionistas que defendem a América porrete do mundo, um libertário que quer os Estados Unidos distantes de qualquer confusão militar que provoque gastos públicos, uma mulher e remanescentes de outras campanhas.

Com são obrigados a visitar todos os estados do país, estabelecem compromissos com eleitores de todas as regiões. A inteligência desse sistema eleitoral não permite ao pré-candidato negligenciar qualquer estado, por menor que seja, sob pena de dar ao concorrente os delegados que podem decidir a convenção nacional.

Outra vantagem é a chance maior de projeção de lideranças que muitas vezes estão distantes do establishment partidário. Foi assim, por exemplo, com Bill Clinton, então um semidesconhecido governador do esquecido estado de Arkansas, que pôde projetar-se nacionalmente por conta das primárias e dos debates.

E então, por que os partidos brasileiros não implantam algo parecido por aqui? O PSDB tem três nomes que já disputaram eleições presidenciais e que certamente ainda acalentam o sonho de desembarcar no Planalto. Então, não seria o caso de Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra rodarem o país, se apresentando para os eleitores de todos os estados?

O sistema americano de primárias, como disse antes, abre mais oportunidades a nomes menos prestigiados entre os caciques partidários. Assim, nada impediria que o senador Álvaro Dias, por exemplo, também se lançasse em busca da indicação partidária, que se tornaria muito mais democrática, com muito mais participação dos filiados da base, geralmente ignorados.

O mesmo se aplicaria ao PMDB, que ameaça renunciar ao papel de coadjuvante do poder para voltar a tentar voo solo na direção do Planalto. Aí, por conta da confederação nacional de caciques instalados no partido, o jogo seria ainda mais divertido. Ah, e não me esqueci do PT. Mas por lá, o tema só valerá no pós-Lula.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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Um comentário sobre “Primárias para o PSDB e PMDB, como nos Estados Unidos

  1. As realidades de outras nações servem de exemplo para o nosso pequeno mundo chamado Terras Brasilis, mas uma realidade que não chega aos outros, digo a maioria de nossa população é a Educação em todos os sentidos da palavra dos bancos de escola a de nossos pais. Pois esta base ajudaria a formar também dirigentes ou eleger estes homens que embasariam uma nação rica de recursos naturais, especialmente num mundo de degradação ambiental. Quanto a mestre Piperno, sua versatilidade amplia a sua simplicidade nos comentários do esporte que tanto curte e compartilha assim como sua paixão incontrolável por uma agremiação pra lá de centenária.

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