O Uber na política pode ser viável

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Um post de uma amiga no Facebook me chamou a atenção. A jornalista, modelo e empresária Letícia Ghedin compartilhou uma das colunas assinadas por Lilian Pacce. O tema era o aplicativo Swipecast, chamado de Uber da Moda.

O modelo de negócio do Swipecast é bem simples e eficiente. Profissionais das passarelas inscritos no aplicativo oferecem seus serviços diretamente aos interessados, sem a necessidade de intermediários. Como ocorre com os taxistas, as agências estão fulas da vida.

Para quem rala e transpira nas passarelas, as vantagens não deixam dúvidas. Em vez da mordida de 30% que as agências cobram sobre os cachês, o aplicativo fica com apenas 10% dos ganhos que consiga viabilizar para os modelos. Nessa história, só quem deixa de ganhar é o intermediário. Por sinal, o personagem menos importante na cadeia do negócio.

Quando li a coluna, fiquei imaginando como seria o Uber na política. E rapidamente me dei conta que ele já existe em democracias bem consolidadas e, travestido de novidade, já teve por aqui uma versão capenga.

Nos Estados Unidos, o Uber político são as candidaturas independentes, que não passam pelos partidos. Elas são possíveis, garantidas por lei e, de vez em quando, competitivas.

Em 1992, o bilionário sem partido Ross Perot decidiu atirar-se em voo solo na corrida para a Casa Branca. Deu trabalho como candidato independente. Recebeu 18,9% dos votos, praticamente o tamanho de Marina Silva nas eleições brasileiras. Os republicanos juram até hoje que ele foi o responsável pela eleição do então desconhecido democrata Bill Clinton por dividir os votos do lado conservador, que naturalmente migrariam para George Bush pai.

Com dinheiro para se autofinanciar, Perot percorreu todo o país com seu discurso de corte de impostos e fé na economia de mercado. Atraiu muitos apoios de gente que se mostrava descontente com as duas grandes máquinas partidárias do país. E foi presença marcante em todos os debates de televisão entre os presidenciáveis.

Curiosamente, quando decidiu se juntar a um pequeno partido nas eleições seguintes não fez tanto sucesso. Pelo Partido Reformista, recebeu apenas 8,4% dos sufrágios. Talvez tenha compreendido que o “antes só, que mal acompanhado” também funciona na política.

O fato é que o independente Perot foi a mais bem-sucedida tentativa de terceira via das eleições presidenciais americanas desde a candidatura do ex-presidente Theodore Roosevelt em 1912 pelo Partido Progressista, que fundara poucos meses antes da eleição.

Entre os americanos são comuns candidaturas de independentes para o Congresso. Raros são os casos de êxitos, mas a possibilidade existe. Então, será que não vale discutir se o Brasil também não pode passar a adotar candidaturas desvinculadas dos desgastados partidos?

É claro que não faltarão críticos para argumentar que os avulsos despolitizariam o debate político, que os partidos são fundamentais e que uma coisa são os serviços de transporte de pessoas ou da contratação modelos e que outra completamente diferente são as eleições de governantes e de congressistas.

Pode ser. Mas será que alguém seria capaz de explicar se siglas como PP, PHS, PROS, SD, PR, PSD, entre tantas outras, são realmente fundamentais para o debate político? Fico imaginando se, apenas para testar a novidade, não seria o caso da lei brasileira permitir avulsos ao menos nas eleições para as câmaras municipais. Suspeito que não teríamos nada a perder. Ou será que o vereador sem partido seria pior do que os que estão aí?

No começo, disse que o Uber político já existiu no Brasil. É fato. Em 1989, Fernando Collor de Mello foi eleito pelo natimorto PRN, com apoio do espectral PST. Ambos existiram apenas para que o eleitor pudesse contratar um ocupante para o Planalto. A experiência não foi boa. Naquele caso, tanto o aplicativo como o prestador do serviço se tornaram fraudes. Mas por que não testarmos de novo, agora com regras mais claras e honestas?

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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