Regras eleitorais para inglês ver e pagar pouco

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A ex-vereadora brasileira de pior salário enquanto legisladora não tinha mandato no Brasil. Paula Dolfin recebia apenas o equivalente a R$ 700 por ano, a título de ajuda de custa, para cumprir mandato em uma pequena cidade da Inglaterra.

A paulistana de 45 anos, e que acaba de ser derrotada na tentativa de se eleger para a Câmara dos Comuns, foi vereadora e prefeita de Bude, município de apenas 8 mil habitantes, localizado na região da Cornualha, no sul do arquipélago.

Enquanto exerceu o mandato legislativo, recebeu 150 libras por ano. Depois, como deputada estadual, o salário saltou para 10.800 libras/ano ou 900 por mês, equivalentes a R$ 4,2 mil mensais. Assim, em um dos países mais prósperos da Europa, ganhava como deputada cerca de 20% do que recebem no Brasil os seus congêneres eleitos para as assembléias estaduais.

Se fosse eleita para um assento em Westminster, a brasileira faria jus durante o mandato a 65 mil libras por ano, cerca de R$ 300 mil. Ainda assim, um pouco menos que os congressistas que habitam Brasília. Sem contar que as vantagens do cargo, como verbas de representação, passagens áereas, 13º, amplos apartamentos funcionais e gabinetes lotados de funcionários, são bem modestas na Grã-Bretanha.

Outra diferença que choca é o limite para os gastos de campanha. Obviamente, Paula não recebeu o milionário apoio de empreiteiras, já que os gastos legais de 18 de dezembro a 30 de março foram limitados a 50 mil libras, mais 30 mil para o período encerrado em 7 de abril.

Bem, tudo isso para dizer que as eleições britânicas e de vários outros países ricos oferecem excelentes exemplos quando se discute reforma política por aqui. Sem desfaçatez, realizamos campanhas e elegemos parlamentos caros, que desfrutam de mordomias incompatíveis e até ofensivas para um país com renda per capita de meros US$ 11 mil/ano, e ainda por cima muito mal distribuídos.

É óbvio também que não é saudável para a democracia termos campanhas para cargos executivos inteiramente dependentes das doações dos carteis de obras públicas e de outros interesses inconfessáveis. Impor limites rígidos a essa gastança talvez não fosse má ideia.

Mas é claro que nem tudo é o paraíso também por lá. Democracia parlamentarista, o Reino Unido é um dos muitos países da parte mais rica do planeta que adotam o voto distrital. Consagrado por lá, o modelo pode produzir sérias distorções. Na eleição desta quinta-feira isso ficou bem nítido.

O SNP, a agremiação dos separatistas escoceses, recebeu 1.454.436 votos, ou 4,7% do total. Com isso, elegeu uma encorpada bancada de 56 deputados, a terceira maior do parlamento. Partido de direita, que vem conquistando apoio crescente por conta da bandeira de distanciar o Reino Unido da União Europeia, o estreante Ukip demonstrou ter apelo eleitoral. Amealhou 3.881.099 votos, ou 12,6% do total. Mas, traduzido em assentos, o resultado foi um fracasso rotundo. O partido elegeu apenas 1 mísero parlamentar!

Sem dúvida, um exemplo que vale reflexão quando se discute a forma de representação parlamentar no âmbito da reforma política.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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