Quem mente por último, mente mais e melhor

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Em momento algum da campanha de reeleição a presidente Dilma admitiu que promoveria modificações nos benefícios trabalhistas que estão agora na mira dos ajustes fiscais. Pelo contrário. Foi bem assertiva na defesa das conquistas dos trabalhadores, que seriam resguardadas, “nem que a vaca tussa”. Hoje se sabe que não é bem assim.

A tosse da vaca pode não ter sido uma pneumonia. Mas ela anda resfriada. Os benefícios não foram retirados, como insinuam as oposições à direita e à esquerda. Mas foram, sem dúvida, modificados e a nova configuração dificulta-lhes o acesso por parte dos trabalhadores. Em relação a esse necessário esclarecimento, a presidente, o governo e o envergonhado PT faltaram com a verdade.

Na votação que aprovou a MP 665, a primeira dos ‘ajustes, o PT contribuiu com 54 votos em uma bancada de 64 deputados. O PCdoB entregou 11 de seus 13 votos. E a classe trabalhadora que confiou nas duas legendas ganhou motivos para se sentir traída.

Difícil mesmo será para os partidos governistas convencer seus tradicionais eleitores de que o ajuste era necessário e que será aprovado para o bem deles. E que depois da tempestade do arrocho virá a bonança, com recompensas para os trabalhadores na forma de mais empregos e benefícios, que estarão imunes ao apetite dos tubarões, “nem que a vaca tussa”.

Do outro lado, a oposição afirmou durante a campanha que 2015 seria um ano de sacrifícios na economia e que o governo precisaria cortar na carne. Quase ganhou a eleição. Bem, as pessoas mudam de ideia e com os parlamentares contrários ao governo não seria diferente.

Na votação da MP 665, os 51 deputados do PSDB que compareceram ao plenário votaram contra os ajustes. Outras legendas de oposição, como PPS e Solidariedade, acompanharam maciçamente os Tucanos. Apenas 8 deputados do DEM ousaram ser os estranhos do ninho, por conta de alinhamento ideológico com a proposta.

Mas os deputados do PSDB foram eleitos para isso? E o que pensam sobre os ajustes os mais ilustres economistas alinhados com o partido? Armínio Fraga, provável czar da economia em um governo Aécio, afirmou em várias entrevistas que considera ainda tímidos os ajustes. Ao jornal O Estado de São Paulo de 24 de janeiro respondeu com um “sinceramente, acho pouco” quando perguntado sobre se repetiria seu colega Joaquim Levy.

Senador mais votado da safra passada, o tucano José Serra disse em palestra à consultoria GO Associados, também no início do ano, que considera “modesto o ajuste fiscal promovido pela nova equipe econômica”. Não é difícil encontrar na internet declarações de Gustavo Franco no mesmo sentido.

Então, se defenderam um conjunto de propostas que contemplava os apertos na economia, realinhamento tarifário, cortes em benefícios e em gastos do governo, como é que os pragmáticos deputados tucanos agora tentam em bloco derrubar a tentativa, ainda tímida segundo seus próprios economistas, de promover ajustes? Quando é que faltaram com a verdade, na campanha ou agora?

Bem, a verdade é que se mudaram de ideia e não contaram para ninguém, restou ao menos o consolo de posar de defensor dos direitos dos trabalhadores. O que, convenhamos, é um bom antídoto para quem tenta neutralizar a ação do Partido dos Trabalhadores sobre esse segmento.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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