A Direita sai do armário

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Não interessa se a multidão teve o tamanho divulgado pela Polícia Militar ou o calculado pelo Datafolha, ainda que a diferença estimada pelas duas fontes na manifestação de 15 de março em São Paulo tenha sido o equivalente à população de João Pessoa. O fato é que foi um bocado de gente. O mesmo verificou-se em algumas dezenas de cidades importantes por todo o país, por mais discrepante que fosse a inexata aritmética de organizadores, PMs e institutos de pesquisa.

Independente do que se contabilizou nas avenidas, a realidade é que o governo enfrenta rejeição inédita e hesita nas respostas à sociedade. Falha na construção de uma base coesa e, apenas agora, cerca de 100 dias após a posse, define os interlocutores para o necessário e desgastante diálogo com um Congresso pulverizado e movido a interesses às vezes pouco republicanos. Mas as dificuldades encontradas, quando não proporcionadas, pelo governo não serão tratadas agora por aqui. O tema é outro, embora ambos tenham inequívoca relação.

O fato mais relevante após as duas baterias de manifestações e algumas de panelas é o novo posicionamento dos militantes (ultra)conservadores. Finalmente, a Direita política brasileira saiu do armário para as ruas. O grupo é numeroso, hegemônico em muitos segmentos da sociedade, mas esteve anestesiado por mais de uma década. É como um ator que andava meio apático, mas que agora volta a mostrar a cara e ocupar o seu legítimo espaço no proscênio.

Como já é cíclico na história brasileira, a Direita parte para a luta novamente carregando como estandarte a luta contra a corrupção, que costuma associar aos adversários. Foi assim lá atrás, na batalha contra Getúlio Vargas, na oposição ao governo Jango, nas exitosas campanhas contra Leonel Brizola e, agora, na tentativa de remover o PT do poder.

Na atual safra de protestos não é diferente, por mais que o DNA da corrupção possa provocar um Fla-Flu de discussões intermináveis. Como argumento para levar o povo para as ruas está funcionando, por mais que a repulsa dos manifestantes contra os ilícitos que roubam o Estado possa ser questionada. Tomada ao pé da letra, a aversão à roubalheira certamente levaria os indignados a também gritar palavras de ordem contra o Trensalão, o mais longevo dos escândalos da administração pública brasileira, e o mensalão mineiro, outro esqueleto dos anos 90. Isso para não ir muito longe.

Fosse ampla, irrestrita e apartidária a revolta contra a corrupção, a multidão reunida no Distrito Federal estaria lembrando os inúmeros atos criminosos que foras-da-lei instalados no governo local perpetraram contra os cofres públicos. Só que nunca é demais lembrar que o antipetista José Roberto Arruda, um desses governantes, liderava as pesquisas eleitorais para retornar ao poder em 2014, antes de ter sua candidatura implodida. Alguém gritou contra ele nos recentes protestos?

No Rio Grande do Norte, o senador que preside o DEM é investigado pela Justiça. Alguém protestou contra ele? Entre os manifestantes de todo o país, era possível observar cartazes contra Genoíno e José Dirceu, condenados à prisão pelo Mensalão. Alguém segurou faixas pedindo isonomia ou, ao menos, o julgamento do ex-governador mineiro Eduardo Azeredo? Afinal, ele foi um dos artífices do mensalão local e renunciou ao mandato parlamentar para escapar do STF. Nesse caso, por que a indignação não saiu do armário?

Por acaso, alguém protestou contra as empresas que corromperam, em conluio com integrantes do COAF, para escapar das bilionárias multas fiscais aplicadas pela Receita Federal? Não vi. Ou será que a atual fornada de manifestantes considera que a sonegação de grupos privados não é crime? Bem, então qual a diferença entre um corruptor do Petrolão e um sonegador parceiro da turma do COAF? Será que alguém inventou um “corruptômetro”, capaz de constatar que a petrorroubalheira é menos criminosa que a fiscoroubalheira?

Sem dúvida, a corrupção que correu à solta nos governos petistas revolta. Também é óbvio que lembrar da gatunagem praticada por políticos de oposição não torna os petistas menos corruptos. Para a Direita das ruas, o que interessa agora é combater o PT e Lula, o Leviatã petista. A lança para afrontá-los é o discurso da moralidade x corrupção. É fazer dele uma marca capaz de alvejar o lulopetismo, objetivo alcançado com êxito no atual round da luta.

A Direita sabe que o jogo que será decidido em 2018 está apenas começando e que o adversário anda meio claudicante. Cambaleante, mas não derrotado. Aprendeu que o inimigo já demonstrou poder de reação em outros tempos. Por isso, quer mantê-lo pressionado. Como apontam as pesquisas, mais de 80% dos manifestantes que estão nas ruas votaram em Aécio em 2014. Até aí, nenhuma novidade.

O que pode há de novo é o efeito que a imagem das ruas pode produzir sobre a fatia neutra e pendular do eleitorado. Este público esteve com o petismo por conta de mais uma década de inédita prosperidade. Mas jamais deu ao partido de Lula um cheque em branco de apoio incondicional. Para voltar a fidelizá-lo, o PT terá de trazer de volta a bonança. Do contrário, o discurso da corrupção não vai desgrudar dos petistas. O bolso vale mais que a moralidade na hora do voto. Afinal, como ensinou James Carville, é a economia estúpido.

Do outro lado, ainda é cedo para se apontar com clareza qual a oposição que se fortalecerá. A institucional não tem o protagonismo nas manifestações e assiste a ascensão de novos grupos, mais radicais à direita. Por enquanto, a oposição que foi às ruas tem de Angela Merkel a Marine Le Pen. Sendo assim, não está claro como ficará a correlação de forças entre os tradicionais e os novos antipetistas.

O fato é que até aqui a Direita foi convincente em circunscrever os assaltos ao Estado ao círculo petista. Por mais que isso na vida real revele-se tão verdadeiro quanto uma nota de R$ 3, a oposição antipetista tem o direito de acreditar nas mentiras e ilusões que vende nos protestos. Afinal, a arena política nunca foi ambiente para vestais. E não há porque ser diferente agora.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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