Os 10 mandamentos da Direita brasileira

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O dia 31 de março é para a democracia o que a Sexta-feira Santa representa para os católicos. Um dia de expiação, para se lembrar como a democracia e suas instituições foram covardemente violentadas e crucificadas em nome da ética, da liberdade e pela redenção dos pecados políticos. Só que como se sabe, não tardou e o manto da moralidade revelou-se falso, destinado apenas a encobrir um 1º de abril institucional.

Décadas se passaram e os personagens obviamente mudaram. Mas o DNA, nem tanto. Herdeiros e nostálgicos da bufa Redentora de 1964 se animam na tentativa de reproduzir a farsa na história. Tarefa, diga-se, em parte facilitada por um governo hesitante e momentaneamente impopular, mas que tem pela frente 45 meses de mandato, de acordo com o estabelecido pela Constituição. É prazo mais do que suficiente para avançar, retroceder ou até mesmo não sair do lugar. E com tanta inquietação, é temerário hoje arriscar qualquer previsão sobre a (in)capacidade de reação do governo.

Mas qualquer que seja a avaliação que Dilma 2.0 possa provocar, o fato é que o país funciona plenamente, alicerçado em regras constitucionais pactuadas em acordos entre os polos divergentes, como deve ser em uma democracia. No entanto, como em 1964, há setores que teimam em considerar irrelevante o arcabouço institucional que sustenta a democracia brasileira. E, como ocorreu há meio século, tais grupos estão à direita do centro político.

Por tradição, os (ultra)conservadores brasileiros habitam um terreno movediço, com regras customizadas de acordo com as perspectiva de chegada ao poder. Com base nessa lógica, o voto até pode ser um instrumento para se alcançar o governo. Mas não é o único. Assim, em mais um 31 de março, é sempre bom recordar os 10 mandamentos praticados pela direita brasileira.

    • A democracia emana do povo e para o povo. Mas do Nosso povo, o que significa inspiração divina.
    • O voto é um instrumento legítimo, desde que se reconheçam como mais valiosos os sufrágios dos mais ricos e estudados, que são gente como a gente. Quando os nossos votos não prevalecem, os golpes são válidos, necessários e legítimos.
    • Desde 2003, o Brasil vive o caos, a deformação dos costumes e a fragilização da economia. Antes, tínhamos um país próspero, civilizado, sem violência, feliz, alfabetizado, bem atendido na saúde, atendido com dignidade nos serviços públicos e com IDH de Primeiro Mundo.
    • Não roubarás. Mas quando não conseguir resistir à tentação, terá caído em pecado se não encontrar um Juiz amigo, daqueles capazes de arquivar até confissão de estupro.
    • Honrar pai, mãe e os bons companheiros conservadores acima de todos os outros.
    • Não matarás. Agora, se alguém morrer de fome, azar. Não é problema seu.
    • Investigações sobre a crise hídrica de São Paulo, Trensalão paulista, mensalão mineiro e caos fiscal do governo do Paraná, entre outros, são empulhações. O mesmo se aplica a apóstolos como Antonio Anastasia e Agripino Maia, vítimas de manobras demoníacas de falsos profetas.
    • Nas manifestações contra o governo, só não valem camisetas vermelhas. Todas as demais são aceitas e aquelas com mão sem um dos dedos, alusivas a Lula, são bem-vindas.
    • Choque de gestão é nosso mantra.
    • Sobre CPIs, eu investigo, tu és investigado e ele te investiga.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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