Sem Marta, o PT perde votos e a esquerda Chanel

MARTA

De saída do partido, Marta Suplicy fará falta ao PT. Sem ela, a sigla fica um pouco mais esvaziada bem na hora em que enfrenta a pior crise de sua história. Não custa lembrar que nos últimos tempos o ocaso de uma respeitável constelação ofuscou parte do brilho da estrela petista. A caça aos mensaleiros representou um desfalque em massa de lideranças históricas. O desencanto com os rumos tomados pelo governo Lula provocou o êxodo de outra leva importante, que se agrupou no PSOL. Mais recentemente, as urnas se encarregaram de varrer o prestígio de um grupo com nomes de destaque, como Eduardo Suplicy e Tarso Genro. E agora chega a vez de Marta partir.

A senadora tem voz e voto. Na carente periferia paulistana, especialmente nos extremos sul e leste, a elegante ex-prefeita goza de mais prestígio do que qualquer outro político da cidade. Chega a ser paradoxal que uma legítima representante da mais pura elite branca seja a liderança política com mais trânsito nas áreas de pior IDH da cidade. Também por isso, Marta fará falta ao PT.

Sobre a relação de Marta com regiões desassistidas, como Capela do Socorro no sul e Ermelino Matarazzo no leste, vale recordar o que ocorreu na eleição municipal de 2012. Desestimulada a participar da campanha do ex-auxiliar Fernando Haddad, já que pretendia ser novamente candidata ao cargo que ocupou no período 2001-2004, a ambiciosa Marta cruzou os braços e observava de longe a derrocada do correligionário, estacionado em um distante terceiro lugar nas pesquisas.

Convocada, em troca de um ministério, a participar do socorro de Haddad, foi decisiva para reverter a debandada de votos da periferia na direção de Celso Russomanno, que por algumas semanas chegou a liderar a corrida eleitoral. Os mapas por regiões da época foram muito claros. Lula ficou com os méritos por ter patrocinado a candidatura vitoriosa do atual prefeito, o Poste versão 2.0. Mas a reação só começou a ocorrer no momento em que Marta correu atrás de votos nas chamadas franjas da cidade. Não se deve esquecer que essas foram áreas diretamente beneficiadas pela construção dos CEUs e pela implantação do bilhete-único, iniciativas de notável alcance social e que foram marcas importantes da gestão da ex-prefeita.

Sem ela, o projeto político de curto prazo na maior cidade do país fica ainda mais comprometido do que já estava. Mas a perda vai além da questão eleitoral. Carente de quadros, o partido perde um nome de prestígio, capaz de dialogar com o público não-petista e de encarar de peito aberto os embates com a oposição. Desfalcado de Marta Suplicy, o PT fica sem alguém a política que poderia ajudar a legenda a melhorar a interlocução com a turma da Bolsa Chanel, sem perder votos entre os clientes do Bolsa Família.

Por outro lado, talvez não seja tão simples para a senadora convencer o seu tradicional eleitorado que ela tenha acumulado bons motivos para se bandear para o lado que lhe tascou o rótulo de Martaxa. Sem contar que também se esvai o charme de senhora dos Jardins que orbitava pela esquerda. É bem possível que a decisão de Marta enfrente rejeição. E nesse caso, o divórcio com o PT poderá se mostrar ruim para os dois lados.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

Anúncios