El Cid Gomes aumentou o cacife

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O ex-governador Cid Gomes é um político experiente. Quando chegou à Câmara dos Deputados na última quarta-feira, tinha plena consciência de que cumpria uma sessão de despedida. Diante dele, não estavam mais os 300 ou 400 achacadores, mas os carrascos que lhe decepariam o pescoço. E assim foi feito. A cabeça de Gomes foi servida na bandeja que Eduardo Cunha mandara lustrar. Mas será que o ministro demitido não percebeu antes que ele seria o prato do banquete? É óbvio que sabia.

Os cálculos políticos são engenhosos. Na atual conjuntura, permanecer no e com o governo pode representar desgaste. Cid Gomes tem a clara noção disso. Como também sabe muito bem que só mesmo o parlamento consegue perder em popularidade para a presidente da República nos dias atuais. Da forma como saiu, de espada desembainhada diante dos impopulares deputados e defendendo a presidente, Gomes saiu do governo direto para a terceira via.

Aos olhos do público, foi o valentão da solitária cruzada contra os tais “achacadores”. Defendeu o governo, brigou com o parlamento e ficou bem na foto. Sem cargo, fica imune aos índices de rejeição que rondam o Planalto. Ao lado do irmão, pode agora ficar espicaçando de longe deputados e senadores, livres do risco de perda de espaço político. Podem, enfim, jogar para a plateia, sem ter nada a perder. Só a ganhar!

Cid Gomes ganha um protagonismo que em outros tempos foi do irmão Ciro. A hora do caçula pode ter chegado. Com a demissão, não é mais governo e muito menos oposição. É apenas um combatente entrincheirado na batalha contra a impopular base governista no parlamento, com apetite de anaconda para o toma-lá-dá-cá. Pode funcionar para a torcida, cansada com o governo e sem entusiasmo pela oposição. O fato é que a demissão fez dele alguém maior do que era. Saiu do Planalto com a musculatura enrijecida após a conversa com Dilma.

Em 2010, Ciro Gomes sonhou com a candidatura a presidente. Era da base do governo, mas não necessariamente de Dilma. Na época filiado ao PSB, viu o projeto ser soterrado pelo governador Eduardo Campos, então presidente do partido e o mais lulista entre os não-petistas. Agora, a situação mudou.

Diferente do irmão, o guerreiro El Cid encontra a terceira via novamente órfã, desde que Marina Silva decidiu hibernar outra vez. E tem um partido para chamar de seu – privilégio que a ex-senadora jamais pode desfrutar. São handicaps nada desprezíveis para quem mira em 2018.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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