Sou a liberdade de expressão contra crime e castigo em nome de Deus e dos profetas

Charlie

O covarde atentado contra a redação do Charlie Hebdo é uma daquelas tragédias que de alguma forma marcam nossas vidas. Enquanto vasculhava entre as muitas hipóteses sobre o que realmente poderia ter levado os irmãos Kouachi a cometer a revoltante chacina, comecei a pensar em alguns episódios que colocaram a liberdade de expressão em rota de colisão com a religião.

Nessa viagem pelo tempo, fiz uma escala na metade dos anos 80, quando o cineasta francês Jean-Luc Godard provocou o santo ódio com o filme “Je vous salue, Maria”. Quem tem menos de 45 anos pode estranhar, mas naquela época Godard era cult. Muito chato, porém cult. O filme, como quase toda obra do autor em questão, era arrastado. Só que acabou virando sensação por conta das iradas reações da Igreja Católica, enfurecida diante de uma Maria dessacralizada nas telas, vivendo como uma mulher comum.

Em transição para a normalidade democrática, aquele Brasil de 1986, governado por José Sarney e com o conservador Paulo Brossard no ministério da Justiça, sucumbiu à pressão das lideranças católicas e proibiu a exibição do filme. O veto foi uma festa para cineclubes que exibiam cópias piratas.

Um pouco mais tarde, perto do final da década, Martin Scorsese lançou a Última Tentação de Cristo. No filme, como qualquer mortal antes da vida eterna, o Cristo em corpo de homem namorou, bebeu, amou e viveu intensamente antes de ir parar na cruz. Obviamente, o catolicismo tradicional não achou a menor graça.

Lembro que assisti as agruras do Cristo de Scorsese em um finado cinema que ficava em uma travessa da avenida Paulista. No dia, havia uma equipe de televisão na calçada entrevistando os poucos espectadores que eram martirizados pelos ameaçadores olhares dos ultrajados (era como se sentiam) católicos.

Do outro lado do mundo, mais ou menos na mesma época, a coisa foi mais séria. Furioso com o livro Versos Satânicos, considerado ofensivo ao profeta Maomé, o aiatolá Khomeini, líder da Revolução Islâmica vitoriosa no Irã, emitiu uma fatwa condenando à morte o autor da obra, o escritor Salman Rushdie. O decreto do líder político e espiritual do país ordenava que o acusado fosse morto por ter cometido o crime de apostasia. Felizmente, o referido apóstata está vivo até hoje.

Poderia ficar aqui elencando um sem número de fatos em que a intolerância religiosa abriu uma guerra santa contra a liberdade de expressão. Tem para todos os gostos e crenças, da Inquisição ao fundamentalismo islâmico, passando pelas confissões evangélicas ou por protestantes racistas da Ku Klux Klan, que em áreas brancas dos civilizados Mississipi ou Texas não hesitavam em mandar para arder nas fogueiras os opositores de credo e de cor.

Fatos abomináveis podem ser listados no prontuário de todas as religiões, porque sempre se pecou muito em nome da fé. Qualquer que seja ela. E mesmo que fossem instituições absolutamente puras, inatacáveis, com que direito as igrejas, seus deuses e profetas podem exigir imunidade em relação à crítica, por mais direta e satírica que ela possa ser?

Lanço a pergunta por que diante da barbárie cometida contra a equipe do Charlie Hebdo não faltaram análises parcimoniosas e com atenuantes em favor dos criminosos. A pusilânime coligação de condenação à iconoclastia e ao suposto desrespeito da revista francesa uniu do filósofo Tariq Ali a acadêmicos canhestros, em aliança com subintelectuais de aluguel de várias partes do mundo. Gente que defendeu limites à liberdade de expressão, “que não tem o direito de agredir símbolos sagrados das religiões”.

O que não tem limites na verdade é o totalitarismo da fé, que há milhares de anos, ou desde sempre, não consegue conviver com a crítica, com a sátira e, porque não dizer, com os ataques intelectuais. Afinal, é sempre mais fácil queimar uma Joana D´Arc, condenar a 1000 chibatadas o blogueiro e acusado de blasfêmia Raif Badawi, como acaba de fazer o regime wahhabista da Arábia Saudita, ou dizimar covardemente cartunistas iconoclastas.

Circunscrever a liberdade de expressão a qualquer limite é, antes de tudo, um ato de covardia, que apequena uma sociedade. Quem se considera ultrajado, alvo da injúria, caluniado e, por que não dizer, desrespeitado, que procure se defender com base na lei ou nos mecanismos legítimos de pressão. Menos civilizado e subdesenvolvido é o povo que permite que a liberdade de expressão se torne uma refém amordaçada pela intolerância, seja ela política, corporativa ou religiosa.

Por acaso, haveria motivos para poupar do escárnio de uma sátira o Papa que colaborou com os nazistas, o telepastor brasileiro que patrocina o Carnê da Oração Incessante ou o profeta por quem oram os Talebãns? Eles merecem algum tipo de clemência da crítica?

Prefiro que os pensadores de diferentes matizes, credos e ideologias direcionem energias para melhor entender e enfrentar o fundamentalismo que busca sobrepor-se a direitos que deveriam ser inalienáveis em todas as sociedades.

É evidente que o Ocidente e amigos têm imensa parcela de culpa na proliferação de grupos como Al-Qaeda, Talebãns, Exército Islâmico ou Boko Haram. Afinal, muitos deles foram estimulados e armados pelos Estados Unidos, europeus e até árabes aliados para combater o que seriam inimigos comuns, como a antiga União Soviética no Afeganistão ou o regime de Bashar Al Assad, na Síria. Tais intervenções armaram a hidra na forma de fundamentalismo, que mais tarde voltou-se contra os financiadores e antigos parceiros. E o problema virou um bicho de sete cabeças, contra o qual não sabemos como lidar.

Combater o radicalismo religioso, usando a islamofobia como antídoto, tampouco ajuda. É um erro grotesco, além de um preconceito odiável. Têm razão os muçulmanos ocidentais quando se sentem cidadãos de segunda classe nas suas sociedades, que adoram estigmatizá-los. Estão certos quando acusam países ricos do Ocidente de pouco caso com suas mazelas, como o dramático êxodo dos refugiados sírios, com os palestinos sem pátria ou com as meninas e adolescentes da Nigéria dizimados pelo Boko Haram. Mas encontrar nessas tragédias humanas qualquer justificativa para chacinas como a do Charlie Hebdo é pusilânime. Detestar os cartuns da revista é um direito. Calá-los à força é criminoso.

Em algum momento do final da década de 80, uma escola de samba do Rio de Janeiro, acho que a São Clemente, desfilou com um enredo que homenageava o profeta. Um trecho do samba dizia algo como “….nessa história árabe não leva fé, que o arroz nasceu de uma gota do suor de Maomé”.

Se fosse hoje, temo que algo assim poderia fazer do samba a razão para alguma reação trágica.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

Anúncios