Estelionato eleitoral

Alexandre Tombini (BC), Nelson Barbosa (Planejamento) e Joaquim Levy
Alexandre Tombini (BC) e Nelson Barbosa (Planejamento) ao fundo e Joaquim Levy (Fazenda) em destaque

Com a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, surgiu a discussão se Dilma praticou estelionato eleitoral na campanha. Quem não se lembra da peça publicitária do marqueteiro João Santana que passava a seguinte mensagem: se o Banco Central fosse Independente, “os banqueiros é quem mandarão na economia e não o presidente eleito pelo povo”, com isso “os empregos sumiriam” junto com “a comida dos pobres”. Tudo isso depois que a Marina Silva ensaiava colocar a questão da independência do BC no debate eleitoral.

Teve mais. Pela amizade de Marina com Neca Setúbal, herdeira do banco Itaú, choveram críticas na campanha oficial do PT como da militância na internet. O debate sobre a independência do Banco Central ficou distorcido. Marina e Armínio Fraga, escolhido por Aécio Neves para o Ministério da Fazenda em caso de vitória do tucano, foram trucidados pela militância petista nas redes sociais e também nos blogs ditos “progressistas”.

No meio da campanha, a presidente Dilma praticamente demitiu Guido Mantega do Ministério da Fazenda e afirmou “Governo novo, ideias novas”. O slogan da campanha da reeleição era “Mais Mudanças. Mais Futuro”, ou “Muda Mais”, de Franklin Martins, para pegar o clima de mudança que estava no ar.

Todo político deixa para montar um plano de governo depois de eleito. O plano que é disponibilizado na campanha é por pura obrigação da justiça eleitoral e serve apenas como parâmetro para o verdadeiro que surge após a vitória nas urnas. É incoerente Dilma falar a campanha toda que não vai promover “medidas impopulares” e acusar seus adversários de promovê-las caso vencessem? É. Mas Lula chamou para o Banco Central no primeiro governo um banqueiro que era filiado ao PSDB, Henrique Meirelles.

O primeiro Ministro da Fazenda de Lula foi Antonio Palocci não só manteve a política fiscal do governo FHC como fazia rasgados elogios a ela. Aliás, Palocci não era o primeiro nome da lista para o ministério. O primeiro era Aloizio Mercadante, que acabara de ser eleito Senador por São Paulo com 10 milhões de votos e não queria trair os eleitores abrindo mão do mandato de Senador. Tenho a impressão de que Lula comemora até hoje aquela recusa de Mercadante.

O PT “tucanou” em 2003 e precisou “tucanar” em 2015. As contas públicas estão esgarçadas tanto que o governo está tentando aprovar o Projeto de Lei que o deixa livre para não fazer o superávit primário. Dilma não poderia cometer “sincericídio” e dizer que o governo dela estava errado na política econômica, ou poderia e se comprometer a mudá-la. Foi mais ou menos o que ela fez: “O que tá bom vai continuar, o que não tá a gente vai melhorar”. Se é estelionato eleitoral ou não, cada um que tire suas conclusões.

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