Marta nunca foi Dilma

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Na coreografia da saída do governo, a novamente senadora Marta Suplicy não enviou apenas uma carta de demissão para Dilma. Disparou um míssil que alvejou a presidente em pleno voo para o Qatar, escala que fez a caminho da Austrália.

Dilma e Marta jamais foram amigas inseparáveis. Aliás, nem amigas eram. A escalação da senadora para o Ministério da Cultura foi uma compensação pelos tardios, mas no final das contas eficientes, serviços prestados na eleição de Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo em 2012.

Pré-candidata declarada à sucessão de Gilberto Kassab, Marta teve o desejo barrado pela cúpula nacional do PT, que trabalhava por Haddad, o novo e mais jovem “poste” lançado por Lula. Marta engoliu, mas jamais digeriu a desfeita.

Durante a campanha, fez que não era com ela, enquanto o correligionário patinava em um longínquo terceiro lugar. Quando foi convencida a arregaçar as mangas por Haddad, foi buscar os votos da virada onde cultiva um latifúndio eleitoral – nas populosas e carentes franjas das zonas sul e leste da cidade.

Haddad virou, Marta foi para o ministério, mas o relacionamento com a presidente jamais foi de intimidade. No meio do ano, quando a oposição ameaçava crescer, a ex-prefeita convocou aliados e empresários para um jantar que teve como trilha o coro “Volta, Lula!”. De temperamento tão difícil quanto sua ministra, Dilma registrou a desfeita.

A presidente ficou em Brasília até esta segunda-feira, véspera da viagem. O combinado era que no retorno todos os ministros entregariam o cargo para que Dilma, bem à vontade, desse a largada na reforma da equipe de auxiliares para o segundo mandato.

Se saísse no meio da reforma, Marta seria apenas mais uma entre demitidos ou demissionários. Por isso, resolveu se antecipar e ganhar os holofotes por algumas horas. Resta saber quais serão as implicações desse voo solo. E se o governo terá nela, de fato, uma dedicada aliada no Senado Federal que abrigará na próxima legislatura uma aguerrida constelação Tucana, com gente do calibre de Aécio Neves, José Serra, Aloysio Nunes, Álvaro Dias e Tasso Jereissati, entre outros.

Marta quer tentar de novo a prefeitura em 2016. Com ou sem Haddad no caminho. E agora, desconfia-se, com ou sem o PT ao lado.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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Um comentário sobre “Marta nunca foi Dilma

  1. Belo texto! E que jogada de mestre da Dona Marta. Basta fazer um passeio pela periferia de SP e perguntar quem foi o melhor prefeito para ouvir o nome dela.

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