Separados por um muro

Leonardo Rossatto (@leorossatto)

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Em 1989, eu tinha seis anos de idade. Foi o ano da maioria das minhas primeiras lembranças consistentes. O primeiro ano, por exemplo, em que acompanhei a Fórmula 1, empolgado com o fato do Senna ter sido campeão. Não tenho nenhuma lembrança do título do Senna em 1988, mas comecei a acompanhar a Fórmula 1 porque a Globo vivia falando “o campeão Ayrton Senna” e, bem, ter um brasileiro campeão mundial de qualquer coisa que fosse era bom.

Outra lembrança consistente de 1989 foi a da eleição presidencial. Eu não perdia nenhum horário político. Cantarolava slogans como “dois patinhos na lagoa, é Afif 22” sem nenhum juízo de valor. Tentei convencer minha mãe a votar no Collor porque para uma criança de seis anos fazia muito mais sentido votar num candidato parecido com o Héctor Bonilla do que num cara barbudo que parecia sempre estar bravo.

Daí, no fim de semana antes do primeiro turno da eleição, a TV foi tomada por uma notícia. Caiu o muro de Berlim. Como aquilo não fazia nenhum sentido pra mim, fui perguntar pra minha mãe. Não lembro as palavras exatas, mas foi mais ou menos assim:

– Mãe, por que tão falando que caiu um muro em Berlim?

– Ah, filho, tinha um muro no meio da cidade e ele caiu.

– Mas alguém se machucou?

– Não, filho, foi uma coisa boa.

– Mas por que foi uma coisa boa se o muro caiu?

– Porque tinham famílias que estavam separadas pelo muro e agora elas tão juntas.

– Mas não dava pra dar a volta no muro?

– Não, era um muro muito grande.

– Ah, tá.

Crianças de seis anos, em geral, não entendem nada de política. Não fazem ideia do que é o poder da mídia. Eu mesmo naquela época achava que o Senna não tinha perdido o campeonato de Fórmula 1, e sim que tinha sido roubado, como a Globo fazia parecer. Entre o primeiro e o segundo turno, fiquei sabendo o que era “capitalismo” e “comunismo”. Porque a percepção na época é que Collor x Lula realmente era uma briga entre o capitalismo e o comunismo. E que o capitalismo era bom e o comunismo era mau. Percepções de criança são as percepções mais sinceras.

Naquela época, a mídia tinha um poder bem maior do que agora. É meio difícil fazer esse exercício hoje, mas imagine o mundo sem Internet. Um mundo em que as fontes de informação são apenas o telejornal da TV e o jornal na banca. Mais que isso: sem TV fechada, só a tradicional TV aberta.

O que isso tudo tem a ver com o muro de Berlim? A queda do muro foi o começo de um processo que terminou dois anos depois, conhecido popularmente nos telejornais da época como “o Comunismo acabou!!! O Capitalismo venceu!!!”. Hoje em dia as pessoas fazem piadas do livro de Fukuyama, mas a percepção de mundo que tentavam nos vender era realmente a de “Fim da História”.

Uma das coisas que usaram na eleição de 1989 para provar essa “supremacia do capitalismo” foi justamente essa queda do muro de Berlim. Porque Lula tinha contato com sindicalistas da Alemanha Oriental e, para ele, o problema lá é que “eles não eram muito democráticos”, como ele mesmo comenta nessa entrevista de 1991.

Mas a questão é que a queda do muro fez algo mais importante do que “unir famílias”. A queda do muro expôs o outro lado. E a percepção de que o outro lado era uma coisa feia, opressiva e decadente fez toda a Cortina de Ferro ruir em apenas dois anos, após a primeira rachadura em seu alicerce, proporcionada pela queda do muro de Berlim.

Há 25 anos a configuração política do mundo começava a mudar. Como nenhuma mudança é fácil, as consequências estão aí até hoje: a Alemanha Oriental ainda é mais pobre que a Alemanha Ocidental, o Leste Europeu ainda tem muitas questões não respondidas.

Uma prova cabal disso é a Ucrânia: depois de perder mais da metade de seu PIB na década de 90, na maior recessão registrada no século XX em um país que não estava em guerra, até hoje pró-russos e pró-europeus ocidentais se degladiam por áreas geográficas e projetos políticos. Os ecos da queda do muro de Berlim estão no mundo todo, mas parecem soar mais fortes em Donestsk, Luhansk e Mariupol no momento.

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