A Escócia mais perto de sair de Londres

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Os cinco milhões de escoceses ainda não sabem que hino nacional cantarão a partir de 2015. No próximo dia 18, a Escócia realizará um referendo para decidir se permanece no Reino Unido ou se passará a ser um território independente de Londres. O que parecia ser apenas uma consulta tão previsível quanto a pontualidade do Big Ben, tornou-se agora uma disputa totalmente indefinida. E para aquecer ainda mais o que resta do verão britânico, na reta final da campanha os separatistas ganharam fôlego, o que deixou perplexos os partidos tradicionais.

Pesquisa divulgada neste domingo pelo diário londrino Sunday Times causou alvoroço e provocou suspense em todo o Reino Unido. O levantamento realizado pelo instituto YouGov apontou que o “sim” alcançou 51% e, pela primeira vez, passou a liderar as sondagens. A arrancada animou os partidários do desmembramento, ao mesmo tempo em que assustou o mercado e os líderes políticos dos três maiores partidos britânicos.

O impacto no mercado financeiro foi imediato já no primeiro dia útil após a divulgação do surpreendente resultado. O Lloyds Banking Group, que controla o Bank of Scotland, perdeu 1,7 bilhão de libras, ou 3,3% do seu valor. Sediado em  Edimburgo, o Royal Bank of Scotland (RBS) encolheu 2,8%. No setor de energia, a gigante SSE amargou queda de 2,7% em seu valor de mercado.

No mercado de commodities, a exasperação é, principalmente, com o petróleo. O Reino Unido é um importante exportador e a maior parte das reservas está na fatia do Mar do Norte que banha a Escócia. Indiretamente, a consulta popular poderia fazer o jogo virar contra os britânicos ingleses, galeses e norte-irlandeses, que se tornariam dependentes de petróleo importado de uma hora para outra.

Um inesperado choque do petróleo significaria para Londres uma pesada conta, que certamente inibiria a ainda incipiente recuperação econômica do país. E, ademais, não deixaria de soar irônico que o capitalismo britânico enfrentasse uma nova crise, agora causada justamente pelo povo que deu ao mundo Adam Smith, o mais clássico e cultuado pensador da economia de livre mercado.

Como não poderia deixar de ser, o efeito da ascensão do “sim” assusta o establishment político, dos conservadores aos trabalhistas, passando pelos liberais democratas. Uma vitória dos separatistas no referendo teria como consequência imediata a dissolução do gabinete do primeiro-ministro conservador, David Cameron. Engajado na defesa da integridade territorial da Grã-Bretanha, Cameron sofreria uma dura derrota pessoal em caso de revés diante do eleitor escocês.

Do lado trabalhista, a saída da Escócia representaria a perda de um fundamental ativo eleitoral. O território elege cerca de 60 representantes para a Câmara dos Comuns e geralmente o Partido Trabalhista arrebata mais de 40 cadeiras. Sem esse patrimônio, as chances do partido retornar ao governo seriam drasticamente reduzidas.

Assim, a manutenção do status quo da Escócia é um tema que promove o milagre de unir os tradicionais rivais. Como prova da inusitada aliança, o ministro da Fazenda George Osborne apressou-se em anunciar que conservadores, trabalhistas e liberais-democratas concordaram em discutir propostas de maior autonomia fiscal para a região rebelde, cujos detalhes serão anunciados antes do referendo.

A oferta, afirmou o ministro, contemplará mais autonomia sobre impostos, investimentos e bem-estar social e poderá ser implementada já na primeira sessão parlamentar após as eleições de 2015.

Estrela em ascensão no Partido Conservador, o prefeito de Londres, Boris Johnson, trata a campanha separatista como sendo de “automutilação” e disse que o desmembramento da Escócia equivaleria a uma “amputação” do Reino Unido e a um desastre comparável à perda dos Estados Unidos. “Mas seria ainda pior, porque os Estados Unidos eram uma colônia e a Escócia não”, afirmou.

Johnson e outras lideranças das principais forças políticas miram a ameaça escocesa olhando para um outro alvo. Eles sabem, e temem, que o êxito dos autonomistas não ficaria circunscrito à região célebre pela produção de uísque e pelo uso do kilt, a saia de tecido axadrezado popular entre os homens da Escócia. Avaliam que a ruptura daria mais combustível aos secessionistas da Irlanda do Norte, históricos e irreconciliáveis inimigos de Londres.

O debate entre Separatistas e Unionistas divide também as celebridades nascidas na Escócia. O ator Sean Connery, célebre como o primeiro e mais famoso James Bond, votará pelo “sim”. O técnico de futebol Sir Alex Fergurson, que permaneceu 27 anos à frente do Manchester United, declarou apoio ao “não”.

E até mesmo o Rio de Janeiro poderá sentir o impacto de uma vitória do “sim”. Caso o eleitor escocês decida pelo divórcio, o time olímpico da Grã-Bretanha, o famoso GB Team, poderá sofrer mudanças profundas.

Não custa lembrar que o maior atleta da história recente do Reino Unido, o ciclista hexacampeão olímpico Chris Hoy, é escocês. Além dele, nasceram na Escócia vários dos medalhistas britânicos em 2012. A separação poderia até mesmo excluí-los da próxima Olimpíada, já que a Escócia não é filiada ao Comitê Olímpico Internacional.

Pelo menos no esporte, a secessão por hora não seria um grande negócio para nenhum dos lados. Súditos da mesma Rainha, e assim será qualquer que seja o resultado do referendo, os britânicos sem dúvida seriam mais fortes permanecendo unidos. Pelo menos até o Rio-16.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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