Previsões de economistas e realidade política costumam brigar

Exame932

Petistas e antipetistas se esgrimiram nos últimos dias por conta da carta enviada pelo Santander aos correntistas de maior renda, ou Select no jargão do banco. A mensagem oferecia aos clientes especiais análises econômicas que estariam atreladas ao cenário político. O estudo vinculava o eventual sucesso eleitoral da presidente Dilma à turbulência dos mercados.

Nada mais rotineiro. Os tais “agentes de mercado”  sempre agiram assim e desde que o voto tornou-se universal tentam, com meios mais ou menos sutis, influenciar o público. Defendem, é claro, interesses e visões de mundo próprias de um segmento. É a regra do jogo. Não pretendo discutir questões éticas envolvidas, nem a lógica que permeia esse tipo de iniciativa. Mas gosto de números.

Como tal, e para iniciar a discussão, não há como deixar de lembrar da emblemática entrevista do então presidente da Fiesp, Mario Amato. Confrontado com a ascensão do então temível petista Luiz Inácio Lula da Silva, perto do dia da eleição de 1989 profetizou que se o ex-sindicalista vencesse, no dia seguinte cerca de 800 mil empresários correriam do país rumo à Flórida.

Bem, a profecia de Amato em parte se cumpriu. Enriquecidos na última década, de inegável progresso social e econômico para o país, hordas de empresários e de simples investidores compraram o que puderam não apenas na ensolarada Flórida, como também em outras regiões dos Estados Unidos. O único equívoco do profético Amato é que jamais ocorreu o histérico êxodo dos endinheirados assustados com a heterodoxia petista. Muito pelo contrário. Ficaram e ganharam muito.

É claro que as previsões catastrofistas sobre a economia brasileira no ciclo petista não se circunscreveram aos antipetistas nativos. No exterior, o megainvestidor George Soros e o ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, já fizeram das suas. O primeiro foi claro e direto. “Serra ou o caos”, profetizou em 2002. Não deu uma coisa, nem outra.

O último chegou a narrar suas desconfianças em relação ao lulopetismo no best-seller A Era da Turbulência (2007). No livro, admitiu que se enganou. Só que para quem confiou nele em 2002 e perdeu suas apostas, Inês estava morta e o dinheiro, perdido. Afinal, oráculo não aceita devolução!

Pouco antes da crise de 2008, momento antológico do capitalismo especulativo, legiões de “analistas” previam que o barril de petróleo “em breve” romperia a barreira dos US$ 200. A futurologia servia de deleite para xeiques, parasitas do mercado e titulares de ações da Petrobras, dona do novo “bilhete premiado” da praça, muito bem guardado na camada pré-sal.

Dar um simples Google na frase “petróleo a US$ 200” é tão didático, quanto divertido. Consultorias das mais diferentes pátrias (elas têm?), matizes e patrões, bancos como Goldmann Sachs e HSBC, mais as corretoras e o presidente Hugo Chávez formaram uma inusitada aliança que apostava na disparada das cotações. Todos erraram e levaram para a bancarrota muitos dos que acreditaram nos seus dotes de Mãe Dinah das finanças. Afinal, o onipotente e onisciente Deus Mercado também não aceita devolução!

Bem, eis que então chegou o momento da mudança e, com ele, novas apostas. A atual condução econômica está com o prazo de validade vencido, como os mercados já atestam. Sim, porque há um efeito-gangorra entre os principais indicadores do mercado e a popularidade da presidente. Quanto pior, melhor e vice-versa. Quanto mais Dilma cai, mais o mercado reage para cima. É assim que o mercado reescreve e reinventa a Lei da Gravidade. Tome-se como prova o desempenho dos papeis da Vale. Quanto mais Dilma sobe, menor o valor de face. Nada mais cartesiano.

Mas alto lá! A Vale acaba de anunciar que o lucro no segundo trimestre de 2014 praticamente quadruplicou em relação a igual período de 2013. Saltou de R$ 832 milhões para R$ 3,18 bilhões. Portanto, não deve ser por acaso que nas últimas semanas os papeis da empresa registraram ganhos importantes após um período de grande desvalorização. E então, a alta deveu-se à queda da presidente nas pesquisas ou à notável recuperação dos lucros? E o Santander, o mesmo do começo do texto, anunciou resultado trimestral melhor em 5,35% do que nos três primeiros meses de 2013. Bem, uma provável valorização teria então mais relação com o lucro em alta ou com a Dilma em baixa?

Prefiro concordar com a revista Exame, que na capa da edição de 932, publicada em 27 de novembro de 2008, perguntava: “Para que servem os analistas?” E completava: “E os economistas? E os gurus da economia? A atual crise escancara nossa incompetência em fazer previsões – e a imprudência do mercado em acreditar nelas”.

Há poucos dias, importantes bancos e consultorias esfregaram suas bolas de cristal sobre o cenário eleitoral. Para a MCM, Dilma tem 60% de chances de perder. Na contramão, a Eurasia aposta que a presidente tenha 60% de possibilidades de reeleição. De cara, uma delas já errou feio. A Tendência atribui a Dilma favoritismo na base de 55% a 45%. A Nomura vai de Aécio por 70% a 30%. A disparidade mostra que alguns desses gurus estão descalibrados.

Bom, mas afinal, em qual deles acreditar? Ou ainda, como perguntou a Exame, para que servem os analistas? Você se atreve a acreditar neles? Aliás, recentemente a Goldmann Sachs publicou seu estudo sobre Copa do Mundo. Até porque, oráculo que se preza faz previsão de tudo. De acordo com o trabalho, o Brasil tinha 48,5% de chances de ganhar o hexa. A Alemanha corria por fora, com meros 11,4%. Também nesse caso, o banco perdeu de goleada. Como no caso do petróleo a US$ 200, tomou um 7 x 1 da realidade!

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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