Irmãs de Sangue

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Relações entre irmãs sempre foram difíceis e imprevisíveis. Com aquelas duas não era diferente. É assim até hoje, aliás, mesmo depois de tanto tempo. Não há um meio que oriente as duas para uma solução.

Desde sempre, Isabel e Paulina viviam em pé de guerra. Qualquer faísca de discordância gerava um conflito de proporções inestimáveis. Tudo era motivo para disputa, ainda mais porque dividiam o mesmo quarto. Suas diferenças eram muito evidentes.

Isabel era mais velha, pouca diferença, e tinha a cabeça feita. Desde o início era apegada aos seus princípios e valores. Estudiosa, era xodó do seu tio Américo, rico empresário, de caráter duvidoso e postura assoberbada. Isabel, apesar de toda a sua natureza estudiosa, possuía também alguns lampejos de mania de grandeza. Em certos momentos, lhe faltava humildade. Porém, acima de tudo, se mostrou, ao longo do tempo, ser uma pessoa aberta ao diálogo, com capacidade de ouvir as pessoas e de decidir o que era melhor para si com base na opinião de quem se importava de fato com a sua vida. Aos 64 anos, hoje Isabel é muito bem-sucedida. Uma mulher da ciência, que gerou inúmeros avanços para a humanidade e também muita inveja do resto do mundo. Contradição inexplicável.

Paulina, em contrapartida, se via como uma vítima de injustiças, mas nunca parou para focar no que realmente lhe pudesse fazer a diferença na vida. Mesmo porque, sua mãe, Proença, lhe defendia e lhe mimava. Paulina nunca fazia nada de errado, segundo a mãe. Sempre a pobre coitada tinha razão. A preferência era clara. A verdade é que ela, Paulina, não queria saber de evoluir, estudar, e se dedicava principalmente a exaltar os defeitos de Isabel. Bateu o tempo inteiro na mesma tecla, com o apoio da mãe, mas não saiu do lugar. Ou melhor, saiu sim, para pior. Hoje, Paulina é mulher do tráfico. Aliou-se aos principais homens do meio e, mesmo sem técnica e prática apuradas, maneja uma arma para cima e para baixo. Sonha em um dia enfim matar Isabel, sua grande algoz. Mesmo por isso, não se sabe qual a sua idade atual. Falta-lhe identidade. Falta-lhe foco. Quem é a verdadeira Paulina? Ninguém sabe, ao certo.

Essa breve estória, uma metáfora, na realidade faz parte da História há milênios. Desde Isaac e Ismael, irmãos de sangue, que brigam pelo direito concedido por seu verdadeiro pai, Deus (Hashem ou Alá, como queiram). Os anos se passaram aos montes, mas o conflito continua sem que nenhuma luz apareça. Agora, Isabel e Paulina, ou melhor, Israel e Palestina trataram de herdar o que veio lá de trás para brigar até os dias de hoje.

No final das contas, essa foi, é e para sempre será uma história triste. Triste porque parece não ter fim. Porque o futuro já é passado. E o presente só vem embrulhado com uma bomba dentro.

Rodrigo Salomão é advogado e escritor

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