Por um país com menos Médicis, menos Marighellas. E mais Orlando Pinto Saraiva

Orlando Pinto Saraiva
Orlando Pinto Saraiva, Guarda Civil de São Paulo, que foi morto pelo guerrilheiro Carlos Lamarca

Alexandre Perin

Recentemente, estudantes, pais e professores da escola estadual Eurico Gastarrazu Médici em Salvador aprovaram a troca do nome do estabelecimento de ensino, retirando a homenagem a um dos presidentes da Ditadura Militar brasileira. Por escolha da comunidade foi adotado o nome de Carlos Marighella, inimigo número um do regime militar no mesmo período, assassinado em uma operação oficial de estado em 1969. A escolha, a despeito de democrática, levanta algumas ponderações que devemos avaliar: o caminho da tolerância e a ausência do radicalismo.

Esse não é um texto que visa minimizar a Ditadura Militar, bem pelo contrário. Ao longo dos 20 anos de ditadura, excessos foram cometidos em todos os lados, sobretudo do lado do governo, do regime totalitário. Esse artigo abrange o radicalismo que tem sido visto com alguma frequência na sociedade brasileira (como no caso dos linchamentos públicos recentes).

A questão é: em quê acrescenta o revanchismo? O que isso pode engrandecer a resolução de crimes, saber os paradeiros de desaparecidos, fazer justiça a quem deve ser feita? A troca de nome da escola seja uma decisão bastante acertada. Sempre fui contra decisões autoritárias de nomes de ruas, escolas, viadutos, etc. Não vejo nenhum sentido em ter uma escola com um nome de ditador, eleito sem legitimidade e provavelmente o mais cruel de todos os generais brasileiros.

Porém, meus questionamentos apontam contra a escolha feita: um indivíduo que optou pela luta armada, cometendo crimes contra a vida em prol de uma pretensa liberdade. Comunista, Marighella pretendia adotar no Brasil o mesmo regime opressor de seus inspiradores, uma ditadura de esquerda. Existe diferença? Ditaduras são iguais, sejam de direita ou de esquerda. Qual referencial para os jovens em se adotar como símbolo de uma escola uma pessoa que, a despeito de estar lutando contra um regime totalitário, optou pelo lado do crime?

A História (essa com “H”) nos mostra diversos exemplos de pessoas que se posicionaram contra a opressão, injustiça e desigualdade trilhando por caminhos não-violentos, de diálogo ou confronto de ideias. Martin Luther King Jr., Mahatma Gandhi, Nelson Mandela são expoentes da Desobediência Civil, da Luta Pacífica. Formas não-violentas de buscar um mundo melhor.

A mensagem da comunidade do outrora Colégio Médici assusta pelo radicalismo. Um sentimento de “desforra” que não poderia estar imbuído em um ambiente escolar. Marighella não pode ser um exemplo inspirador digno de receber o nome de uma escola. A sociedade brasileira já superou a ditadura. Agora deve buscar suas respostas, mas sem “ir a forra”. Esse tempo, felizmente, já passou.

E o Orlando Pinto Saraiva do título do texto? Era o nome do guarda civil paulista que viu um assalto a banco do grupo de Carlos Lamarca (outro líder guerrilheiro), que visava bancar as ações de guerrilha. Ao chegar ao local do crime, levou dois tiros pelas costas de Lamarca, atirador de elite, e morreu sem poder se defender. Um esquecido nome de um período obscuro da sociedade brasileira. Não vemos escolas, pontes e viadutos com seu nome. Poucas dezenas de pessoas sabem quem foi.

A verdade não está nem no preto, nem no branco, e sim em tons de cinza.

Orlando não foi um guerrilheiro. Um revolucionário. Orlando não foi um opressor. Um torturador. Orlando era um trabalhador. Um brasileiro comum. Orlando era um ninguém. Ou seja, Orlando era todos nós…

Alexandre Perin é filho de militar, que entrou como soldado em 1970 e se aposentou em 2004 no posto de capitão. E um dos maiores ensinamentos dele é a tolerância e observar todos os lados antes de opinar (@perin1979)

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