Carta a um ministro da ditadura

Foto: Folhapress

Caro ministro Célio Borja,

li com muita atenção sua entrevista publicada hoje na Folha de São Paulo. Lamentei, e me solidarizo, com sua bem-intencionada e ingênua crença sobre a duração do golpe de 1964.

Foi assim que interpretei aquele trecho em que o senhor falou que “supunha que seria uma intervenção cirúrgica”. Pois é, muitos como o senhor também acreditaram na história de que os “militares de formação democrática, Castello à frente, encurtariam a permanência no poder”.

O senhor vê, né ministro, quantos enganos de avaliação o senhor e seus parceiros (comparsas?) foram capazes de cometer!! O senhor acreditou que tudo seria “cirúrgico”, que Jango, “um pobre homem… um aprendiz de caudilho despreparado para governar”, como o senhor mesmo definiu, fosse um golpista e que as torturas, ou “brutalidades” como as classificou, ocorriam porque os facínoras “agiam à revelia”.

Bem, ministro, a longa escuridão que durou 21 anos, foi mesmo uma guerra!!! Na sua definição, é claro! E como guerra é guerra, o senhor honestamente admite que “às vezes havia conivência”, ao referir-se às torturas como prática de Estado. Eles (os torturadores) “achavam que tinha que ser assim. Senão, não ganhavam a guerra”.

Como o senhor foi candidamente induzido a tantos enganos de avaliação, permita-me imaginar que mais um entre os seus equívocos foi quando disse que a visão que se tem do regime é “absolutamente distorcida”. Afinal, o senhor cunhou um eufemismo para negar a ocorrência de uma ditadura no Brasil. “Ditadura nunca houve. O que se podia dizer é que havia um REGIME DE PLENOS PODERES”.

Certo! Isso, ministro, me remete mais àquela música PODRES PODERES, mas como imagino que o senhor esteja em uma fase mais para Lobão, não vai acabar se lembrando qual é. Sem contar que também não podemos esquecer que suas credenciais democráticas não são tão notáveis assim. Claro que induzido por enganos conjunturais, o senhor não apenas apoiou a ditadura, como presidiu a Câmara dos Deputados nos bons tempos do general Geisel, quando a ditadura matou, entre outros, Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho. E, de quebra, novamente como ministro, atuou na frustrada operação para salvar do impeachment o presidente Collor de Mello. Mas nada como ser fiel aos pares. Afinal, ele era um dos seus desde os velhos tempos, não é?

Mas foi bom esse diálogo, ministro. Ah, imagino que o senhor não tenha lido a entrevista daquele coronel reformado, chamado Paulo Malhães, que outro dia confessou ter participado de muitas sessões de tortura e de assassinatos de presos políticos. Com muita expertise no tema, ele contou que arrancavam as arcadas dentárias e os dedos dos mortos para não permitir a identificação, e extraíam as vísceras para evitar o incômodo dos corpos ficarem boiando nos rios para onde era atirados.

Claro que o senhor, muito temente a Deus, certamente não ficou sabendo que seus comparsas (como é mesmo o coletivo de golpistas e de torturadores?) de regime eram capazes dessas atrocidades. E como tudo isso acabou, ministro, certamente não vou desejar que seus filhos e netos um dia passem pela mesma dor. Não vou não, ministro. Nem tanto pelo senhor, mas pela história desse país, por formação humanista e por defender até a morte que mesmo a mais imperfeita das democracias é sempre muito melhor que qualquer REGIME DE PLENOS PODERES.

No fundo, ministro, desejo apenas que o senhor se recolha também ao mesmo sarcófago para onde foram seus renitentes parceiros da Marcha da Família. Porque para o lixo da história, o senhor já foi!

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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