Eu quero a Copa, mas não desse jeito

2014fwc_op_reg_4c_s.inddPor Rodrigo Salvador

Quando eu me debruço sobre o assunto Copa do Mundo, penso em duas frentes: a Copa em si, e a organização do evento. Começo pelo primeiro. O futebol é apaixonante. E esta opinião não é uma exclusividade brasileira. Para falar só de países que são modelo de gestão, podemos olhar para Alemanha, com resultados de ponta no torneio e mais de 40 mil pessoas de média de público na sua liga nacional.

Outro exemplo são os Estados Unidos, país sem tradição no esporte, mas cuja população demonstrou mais interesse em assistir a estreia da sua seleção na Copa em 2010 do que nos jogos finais da NBA. Além disso, podemos ver a influência direta do esporte na política de vários países, do Barcelona como ícone do movimento pela independência catalã à torcida do Al Ahly sendo participante direta em manifestações pelo Egito. Ou seja, não faz qualquer sentido questionar a paixão do brasileiro pelo futebol, argumentando que tal paixão atrasa nossa sociedade. Não se compara a sua casa com a do vizinho que não se sabe sequer o nome. O futebol é elemento social e político sim, no Brasil e no mundo.

Não sendo o futebol um vilão, podemos olhar com outros olhos para o seu expoente, a Copa do Mundo. Não quero pensar na Copa da TV, mas na que roda o mundo. O evento, assim como outros eventos de dimensões mundiais como as Olimpíadas, é capaz de destruir fronteiras e colocar a humanidade em sintonia. Evidente que é possível que isso aconteça sem o evento, mas o estímulo que a Copa traz não pode ser ignorado. E, sendo um evento agregador, como não querer que ele aconteça ali, do outro lado da nossa rua? A Copa no nosso país é uma oportunidade de trocarmos de vizinhos sem sairmos de casa. E, se bem pensada, é uma oportunidade de aprender com pessoas que sabem coisas que a gente não sabe, e capitalizar com dinheiros de que não dispomos.

E é aqui que entra o engate entre as duas frentes que citei. É esta expressão que nos causa frisson: “se bem pensada”. Por tudo que foi dito, a Copa é um presente para o mundo todo, mas que tem um potencial incrível para virar um pesadelo para o país-sede.

Vamos pensar nos exemplos: a África do Sul recebeu a Copa de 2010 com festa. A Copa passou e resolveu poucos problemas do país. Em 2002, Japão e Coréia do Sul mostraram a eficácia que se espera do povo oriental, e sofreram pouco também porque – importante dizer – organizaram apenas meia Copa cada. Além destes, de 1990 pra cá, Itália, Estados Unidos, França e Alemanha foram sedes, sendo que todos tinham força econômica para tal. Ainda assim, a Itália passa hoje por uma crise econômica similar a de outras sedes recentes de Copa, Eurocopa e Olimpíadas, como por exemplo Espanha, Portugal e Grécia. Com isso, a escolha da sede é uma tarefa delicada. Para a Copa do Mundo, a FIFA escolheu seguidamente, e não à toa, 3 dos 5 países do BRICS. Por isso, é importante saber que o Brasil era sim um dos candidatos mais interessantes a sediar o evento. Ou isso, ou a Copa passaria sempre, e apenas, por Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra.

O problema não foi a escolha do Brasil como sede. Foi o que o país fez com esta escolha. A organização da Copa no Brasil ser um desastre não nos causa surpresa, infelizmente. Já é quase um clichê citar Ronaldo quando diz que “Copa não se faz com hospitais”. Ouso dizer que ele tem razão na frase. Razão que se desfaz quando ignora que saúde não se faz com estádios. E aqui é preciso definir uma prioridade: Copa ou saúde? Eu imagino, num Brasil ideal, a verba da Copa sendo gasta sim com a Copa, mas o retorno deste investimento (que não é pouco) sendo aplicado de forma coerente, para o bem-estar do brasileiro.

Não lembro, também, de nenhuma previsão de gastos com estádios ter sido plenamente satisfeita. E tenho até medo de pensar de onde veio o dinheiro a mais que foi aplicado nas obras. Aqui em Curitiba, o dinheiro gasto na Arena da Baixada foi mais que o dobro do previsto, e as obras de mobilidade na cidade ou foram inchadas ou canceladas.

Concluo com isso que a discussão sobre a Copa deve ser responsável. Ao criticar a organização, não criticar o evento, porque assim podemos abrir mão de imensos ganhos culturais e econômicos futuros por conta de erros pontuais. Da mesma forma, ao defender o evento, não defender uma organização danosa e corrupta deste. Eu me entristeci demais com os acontecimentos dos últimos 5 anos. Mas nem por isso deixei de comprar cinco ingressos pra assistir a Copa em cinco cidades diferentes e vivenciar oportunidades que não vivenciaria em praticamente nenhuma outra situação.

Por fim, gosto de ter em mente que, em uma sentença, o termo “mas” desmente o que foi dito anteriormente, dando valor apenas ao que vem depois dele. Assim, o título deste texto poderia ser “Não desse jeito, mas eu quero a Copa”. Não, a organização não tem o mesmo peso do evento por si só. Tem mais. Ao menos, deveria ter.

Rodrigo Salvador (@novosomsalvador) é matemático industrial e coxa branca – torcedor do Coritiba/PR.

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2 comentários sobre “Eu quero a Copa, mas não desse jeito

  1. veja bem, este povo que está no governo já fez tudo de ruim para o nosso povo e para o nosso país,mesmo com a cúpula ou seus chefões presos na papuda e outros sendo processado, mesmo assim ainda tem a cara de pau de querer governar o país mais um mandato, preste atenção povo brasileiro, acho que chega de tanta humilhação para todos nós.

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