Revolução, golpe e contragolpe

Manifestante exibe bandeiras da Rússia e da Crimeia em um antigo tanque das Forças Armadas da União Soviética, durante protesto em frente ao prédio do governo de Simferopol, na Crimeia Foto: AP
Manifestante exibe bandeiras da Rússia e da Crimeia em um antigo tanque das Forças Armadas da União Soviética, durante protesto em frente ao prédio do governo de Simferopol, na Crimeia
Foto: AP

A Ucrânia elegerá no dia 25 de maio um novo presidente. O último eleito fugiu e um interino vai tentando pilotar até o dia da votação o que sobrou de território que jamais comportou-se como nação.

A travessia não será fácil, considerando-se que o país em questão é um território fragmentado em 24 províncias, com diversidade étnica e falta de unidade linguística. Nesse caldeirão de culturas, povos e idiomas não cabe o conceito de nação. Coisa que a Ucrânia de fato nunca foi desde quando teve um pedaço anexado à Polônia, depois uma porção unida à Lituânia, outra ao Império Austríaco e, mais tarde, como república socialista dentro da União Soviética.

Todas as diferenças entre os ucranianos estão confinadas em uma área mais ou menos do tamanho do estado da Bahia, que abriga população equivalente à de São Paulo. O frágil e artificial arranjo geopolítico forjou um país em que o norte sonha em ser reconhecido pela União Europeia, não tem quase nada em comum com o sul, mais fiel a Moscou do que a Kiev. São desiguais em tudo. Para a população do norte, a queda do presidente Viktor Yanukovitch foi resultado de uma revolução que expeliu um corrupto do poder. Para os ucranianos do sul, onde está a Crimeia, o dirigente foi vítima de um golpe de estado, que derrubou um presidente democraticamente eleito. Por isso, querem dar o contragolpe da anexação à Rússia E, na verdade, quem tem razão? A resposta, depende do freguês.

Não é fácil entender o que acontece na Ucrânia. Talvez nem mesmo os habitantes do país consigam explicar. Certo mesmo é que só o voto não será capaz de resolver os impasses. Nunca é demais recordar que a Crimeia foi um presente dado em 1954 por Nikita Krushev à então segunda maior república da velha União Soviética. Naquele ano, comemoravam-se 300 anos da união entre cossacos ucranianos e moscovitas governados por Ivan, o Terrível. Além das boas intenções, o líder soviético queria mesmo era algum equilíbrio étnico na região, para onde migraram milhares de cidadãos de origem russa.

O desejo de ontem da liderança soviética é parte importante do problema de hoje. Há russos como nunca no território. Os ucranianos do norte não admitem perder um pedaço para o urso de Moscou. Os do sul, não se sentem europeus e não querem saber de união com a UE. Se isso já parece complicado, pior ainda é tentar adivinhar a preferência dos moradores da próspera e industrial Donetsk, localizada mais perto da fronteira com a Rússia do que com Kiev ou com a Crimeia. Não esqueçamos de que a cidade tem na população 48% de russos e 46% de ucranianos. E para eles, foi revolução ou golpe que afastou Yanukovitch do poder? Querem ficar na Ucrânia, que precisa de Donetsk, ou preferem o aconchego da Rússia?

A honestidade intelectual pede prudência na interpretação dos fatos ocorridos e do que está por acontecer. O desfecho parece tão distante, quanto imprevisível em um conflito que vai muito além dos limites da política. O desacordo invade também a seara do choque de civilizações, como o previsto por Samuel Huntington, e envolve nacionalismos que potencializam diferenças diante das perspectiva de mudança no polo hegemônico. Nesses casos, o fantasma da balcanização é sempre real.

Chega a ser também irônico que a Crimeia esteja no epicentro dos conflitos. Foi lá, em fevereiro de 1945, que Josef Stálin, Winston Churchill e Franklin Roosevelt se encontraram para a Conferência de Ialta, que definiu o fim da II Guerra e a partilha das áreas de influência de cada um. Bem ou mal, os três líderes saíram de lá com um acordo. Na Crimeia de hoje, um tratado de paz está mais para utopia do que para realidade.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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