Manga com leite para os pobres não mata

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O Bolsa Família é um manancial de votos. O Mais Médicos, idem. Só que não há nenhum motivo para não tê-los, como aliás reconhecem até mesmo críticos do governo.

Aécio Neves é um deles. Falou que se eleito vai reformular o Mais Médicos. Pretende fazer ajustes e garante que até os médicos cubanos apoiarão as mudanças que promete fazer. Eduardo Campos criticou o que chama de “ausência de porta saída” para o Bolsa Família. No entanto, em momento algum ousa defender a extinção do programa. Mas ambos apoiam com moderação. Afinal, a tradição no Brasil indica que o investimento em programas sociais, benefícios trabalhistas ou mesmo em educação gratuita é alvo certo para os críticos equivocados.

Foi assim, por exemplo, quando Getúlio Vargas patrocinou a legislação trabalhista em grande parte ainda vigente. Naquele tempo, de relações menos sofisticadas e de desprezo pelas práticas democráticas, GV aprovou na marra e de forma autocrática as regras que modernizaram as relações entre capital e trabalho. Ele optou pela via autoritária para criar a CLT, por meio da qual o operário nacional ganhou o direito de gozar férias, descanso semanal remunerado e de, enfim, escapar da condição de semi-escravidão em que se encontrava. Benefícios que, infelizmente, a nascente burguesia tupiniquim se negava a conceder a quem trabalhava em suas empresas.

Décadas mais tarde, o governador Leonel Brizola, forjado nos fornos do varguismo, lançou no Rio de Janeiro os Cieps, as escolas de tempo integral que ficariam conhecidas como ´brizolões´. A iniciativa foi combatida à esquerda pelo PT e à direita pelos partidos conservadores. O argumento que unia os críticos dos dois lados condenava a escola de tempo integral por ser cara demais para um estado que tinha outras prioridades. Até porque, pecado extremo, aquelas unidades de ensino tinham até piscina à disposição daqueles filhos das favelas cariocas. E assim que o segundo governo Brizola chegou ao fim, o ensino público de tempo integral recebeu o atestado de óbito. Desativadas, algumas daquelas escolas ainda hoje resistem. Mas são apenas fantasmas de concreto, sem condições para receber crianças de comunidades onde o tráfico recrutava soldados mirins em cada viela.

No caso das escolas em tempo integral, venceu a tradição nacional de achar que investimento em pobre é sempre caro. Afinal, aprendemos que os miseráveis podem sempre esperar mais um pouco, que a vez deles um dia vai chegar. Não podemos esquecer, claro, da teoria predominante durante o Milagre Econômico, em pleno ciclo militar. Dizia o célebre ministro Delfim Netto que era necessário primeiro fazer o bolo crescer, para depois reparti-lo. Quatro décadas depois, milhões ainda seguem na fila em busca do seu pedaço.

O tempo passa, mas os costumes resistem. Lembro daquela música do Chico Buarque, que sugeria jogar pedras na Geni. O Bolsa Família e o Mais Médicos são as atuais Genis, na mira do alto escalão e da classe média, que se negam a olhar para o andar de baixo. No Brasil, os miseráveis só merecem as mangas que apodrecem no pé e jamais o leite que alimenta. E se ousarem misturá-los, correm risco de morte, como na falsa lenda desmitificada por Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala.

Miseráveis que se sustentam dos favores de um governo perdulário e demagogo, independente do partido que esteja no comando, são seres indolentes que não se esforçam para sair pelos próprios méritos do estado de indigência, nos ensinam os críticos esclarecidos. Como se alguém no Brasil tenha prosperado sem algum empurrão do Estado! Não quer acreditar? Então diga uma coisa: quem recebe mais privilégios, o funcionário público que tem sua aposentaria integral preservada até morrer (e até depois dela por meio de pensões) ou o beneficiário do Bolsa Família?

Quem se beneficia mais com o rico e suado dinheiro dos impostos recolhidos dos brasileiros, o paciente do Mais Médicos ou o empresário que foi sacar dinheiro barato no caixa do BNDES? O gabiru do Bolsa Família está realmente custando mais caro para o Estado do que o filho do figurão que ingressa na universidade pública para receber, GRATUITAMENTE, o melhor ensino que o Brasil é capaz de oferecer? E qual a contrapartida para o país de quem tem recursos, mas estuda sem pagar nas universidades públicas, mantidas com os impostos de ricos e de pobres?

Estava me esquecendo daquela elite de trabalhadores privados que se beneficia, via incentivos fiscais, dos tíquetes refeição, alimentação, transporte e, agora, cultura. Tudo isso custa dinheiro para o erário, que aceita pagar a conta porque sabe que essas iniciativas têm grande retorno social. Bom, mas por que esses felizardos do mercado formal podem receber os tais benefícios e os do Bolsa Família não? Nem quero entrar no terreno das benfeitorias que o Estado proporciona a proprietários da cidade e do campo, sempre com recursos públicos. Mas deveria!

A verdade é que, desde que Cabral aqui desembarcou, o Estado brasileiro sempre foi pródigo em distribuir favores, recursos e oportunidades ao topo e, mais tarde, ao meio da pirâmide. Mas sempre que faz algum aceno para a base, estimula a indolência, se beneficia da ignorância e desperdiça energia e dinheiro com quem não merece. Se quiser mesmo resolver, “tem que promover o desenvolvimento”. E para solucionar o déficit de atendimento na saúde, “precisa adotar uma política para o setor”.

Nada mais perverso que esse discurso que olimpicamente se distancia e faz de conta que essas mazelas não são problemas nossos. Ninguém nega que desenvolvimento e políticas de saúde sejam fundamentais. Mas enquanto isso não vem, a fome e a dor não podem mais esperar. E, que se comam as mangas e se beba o leite. Porque juntos, não fazem mal a ninguém.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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