Datafolha lança dúvidas para todos

1405348

Os números não são como as cartas, que não mentem jamais. Eles não. Podem iludir e criar miragens capazes de hipnotizar. A mais recente pesquisa Datafolha sobre a corrida presidencial é em certa medida assim.

Para começar, a presidente Dilma ficou no mesmo lugar onde estava no levantamento anterior, realizado em novembro. No cenário mais provável, manteve os 47% de três meses antes. Pode até se dar ao luxo de comemorar discretamente o fato de que os dois rivais mais diretos somam agora 29%, contra os 30% da outra pesquisa, tendo 90 dias a menos para descontar a diferença.

É bom lembrar que nesse trimestre entre as duas pesquisas a presidente viu-se agarrada a um cardápio repleto de notícias ruins. A inflação cedeu pouco, a produção industrial não reverteu a curva de queda, começaram a pipocar deserções entre os médicos cubanos, o PMDB não deu trégua na refrega por mais espaço no governo, os mensaleiros foram para a cadeia, a balança comercial não reagiu, os prazos de entrega dos estádios da Copa foram para escanteio e os black blocs continuam tirando o sono, para não dizer vida, como a do cinegrafista da TV Bandeirantes.

Mesmo com toda essa sucessão de notícias desfavoráveis, Dilma não desce de um patamar confortável. Se não é suficiente para cantar vitória antecipada – e não é mesmo – a marca acima de 40% é alentadora quando não se tem um rival que já tenha batido nos 20%. A dúvida agora é saber por quanto tempo esse nível de fidelidade resistirá caso a presidente não consiga reverter a maré de eventos negativos.

Para sorte do Planalto, o vice-líder nas pesquisas continua em campo sem empolgar. Aécio Neves começou a pré-campanha empurrado por um latifúndio eleitoral, que é o estado de Minas Gerais. O problema é que não deslanchou fora das Alterosas.

Aécio não passa semana sem visitar cidades importantes do estado de São Paulo. Mas sem as companhias do governador Geraldo Alckmin e do ex-presidenciável José Serra nessas visitas, é pouco mais que um estranho no ninho tucano para o eleitor de São Paulo. Em relação à pesquisa anterior, perdeu dois pontos. Pode parecer pouco. De fato, fica dentro da margem de erro. No entanto, em nenhum outro levantamento apareceu com apenas 5% de vantagem sobre o governador Eduardo Campos. E aí reside o perigo de o tucano ser abatido no meio do caminho.

Para o ex-governador de Minas Gerais, terminar o primeiro turno atrás de Dilma, mas só dela, está dentro do script. O problema é ter a vice-liderança fustigada por Campos, um governador popular, jovem e que tem Marina Silva se aquecendo no banco, pronta para entrar na parada. Sem dúvida, a linha amarela está mais acesa do que nunca no ninho tucano.

Quando Marina começar a aparecer de forma mais ostensiva ao lado de Campos, é mais do que provável que o pernambucano venha a se beneficiar com a transferência dos votos que seriam para a ex-ministra, ainda a vice-líder nas pesquisas sempre que tem o nome mencionado nas simulações. Esse é um handicap inacessível a Aécio, que mais do que nunca precisa das estrelas do PSDB paulista na campanha para compensar o possível efeito Marina.

No confronto com o mineiro, até agora um aliado nas críticas ao governo Dilma, Campos ainda tem o bônus de ter sido um aliado de Lula. O passado como parceiro do petista lhe dá a vantagem da elasticidade do discurso. Pode esticar a corda na oposição a Dilma, ao mesmo tempo em que lembra o eleitor do pedigree de companheiro de todas as horas do popular presidente Lula. O que, convenhamos, não é pouco em uma batalha por uma vaga no segundo turno, que pode ser definida por fotochart.

O desafio de Campos, agora com status de pré-candidato que alcançou preferência na casa dos dois dígitos, é ampliar a colheita de votos entre os marineiros. Os de primeira viagem, mais fiéis, já embarcaram na canoa do governador de Pernambuco. Os que chegaram depois, em busca de um nome distante do mainstream político, ainda oferecem alguma resistência. Mas Campos conta com o carisma de Marina para dobrá-los.

Feitas as contas com base nos números do recente Datafolha, as ponderações entre os três competidores mais destacados ficariam nisso. Só que a pesquisa apontou os primeiros indícios de que um novo nome ameaça fazer alguns estragos. No único cenário em que foi mencionado, o pastor Everaldo Dias Pereira (PSC) já surge com 3%, marca suficiente para desgarrá-lo dos demais nanicos.

Na campanha, tem fé que pode fazer barulho. Ele se assume como candidato “de direita”, algo inédito na história das eleições presidenciais do Brasil e calibra o discurso na direção do eleitorado mais conservador, contra o casamento gay, a liberalização da maconha e o aborto. Para tentar materializar o milagre da multiplicação dos votos, defende o legado do presidente Lula e critica Dilma. É também aliado do pastor Marco Feliciano.

Se tem fôlego para ir muito longe, ainda é impossível saber. Mas não se deve esquecer que o falastrão Enéas começou a carreira eleitoral apenas como um folclórico nanico. A graça acabou quando na eleição presidencial de 1994 amealhou 7,38% dos votos, atrás apenas de FHC e Lula. Se chegar a tanto, Pereira pode ser até mesmo o responsável por um segundo turno. O inferno para Dilma. Coisa que para Aécio e Campos não seria de todo mal.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

Anúncios

Um comentário sobre “Datafolha lança dúvidas para todos

Os comentários estão desativados.