A direita sai da sombra

Everaldo Pereira

Assim como a cidade do Rio de Janeiro não tem zona leste, a política brasileira jamais teve um partido assumidamente de direita. É uma anomalia rara, que mascara posições e subtrai do eleitor um dos lados fundamentais do jogo político. Até por conta dessa deformidade, 2014 vai estabelecer um marco na errante história eleitoral brasileira. O próximo pleito será o primeiro a oferecer cardápio completo ao eleitor, com alternativas da esquerda à direita.

É claro que a opção disponível de um partido direitista, para que os interessados possam acolher e chamar de seu, não é das mais conhecidas na miríade de siglas à disposição do eleitor. É o pequeno PSC, o Partido Social Cristão, dono de uma bancada que reúne 15 integrantes na Câmara dos Deputados e um solitário parlamentar no Senado.

De todos eles, o mais conhecido é o deputado paulista Marco Feliciano, o pastor que obteve notoriedade a partir do momento em que foi alçado à condição de presidente da Comissão de Direitos Humanos, onde liderou uma tropa de choque conservadora contra propostas de liberalização em questões comportamentais.

O partido não explicita com todas as letras que está à direita dos demais. Mas o candidato da sigla para disputar a presidência da República, o Pastor Everaldo Dias Pereira, não esconde o jogo na missão de apresentar o seu evangelho político aos eleitores. “Sou conservador. Defendo os valores da família. Vou também combater os altos impostos. E se quiserem me chamar de candidato de direita, não tem problema”, diz ele, sem rodeios.

O pastor candidato sabe que pode estar abrindo as porteiras de um imenso latifúndio de votos, atualmente sem pretendentes com coragem para reivindicá-lo. Desde sempre, como em qualquer lugar do planeta que tenha gente em condições de votar, o Brasil tem uma considerável fatia de eleitores dispostos a acolher propostas como as defendidas pelo Pastor Dias Pereira.

Só que por aqui, as grandes máquinas partidárias jamais tiveram a iniciativa de calibrar um discurso na direção dessa clientela conservadora, que acaba votando de forma dispersa. Mas tal realidade começa a mudar, o que vai tornar o mapa eleitoral do Brasil mais parecido com aqueles das modernas democracias, especialmente das europeias.

No Velho Continente, desde sempre esquerda e direita têm cara e eleitores muito bem definidos, com opções para gostos moderados ou mais extremistas. Na França, por exemplo, a Frente Nacional está na labuta desde 1972. O partido de extrema-direita, fundado pelo general Jean Marie Le Pen, defende tudo aquilo que prega o Pastor Everaldo, com o acréscimo programático de propostas de caráter xenófobo. E age assim sem qualquer inibição, para ira da esquerda e desconforto dos centro-direitistas.

Uma das líderes mundiais em IDH, a moderna Finlândia registra a ascensão do ultradireitista Partido dos Verdadeiros Finlandeses, dono de uma expressiva fatia de 9,37% dos votos na eleição de 2012. Naquela ocasião, uma das principais bandeiras era a expulsão dos trabalhadores portugueses que migravam para a Escandinávia em busca de emprego.

Em países importantes como Alemanha, Itália, Espanha e Holanda, para ficarmos restritos apenas àqueles que se situam entre as maiores economias do continente, jamais o eleitor de direita deixou de ser atendido no cardápio de siglas. Mas é curioso constatar que os partidos de centro-direita geralmente buscam se distanciar das agremiações mais extremistas, embora suas políticas tentem cooptar o eleitor mais disposto a radicalizar o voto. Na França, por exemplo, os conservadores moderados ligados a Jaques Chirac e a Nicolas Sarkozy procuram evitar alianças com partidários da família Le Pen.

No Brasil, por ausência de partidos abertamente de direita, o voto que seria direcionado a essas siglas procura naturalmente as correntes antipetistas. O PSDB foi, sem dúvida, a alternativa mais atraente para essa vertente. O partido dos tucanos jamais foi um ninho de direita, mas por falta de opções e por ser identificado como o mais direto rival petista, acabava herdando esse eleitor órfão.

O possível fim dessa orfandade será um problema para o PSDB. Afinal, se conseguir encontrar um partido que o represente abertamente, não haverá razão para que o eleitor mais conservador procure os tucanos na urna eletrônica.

Jamais na história do Brasil houve um momento tão propício para que a direita política saia do armário, coisa que nem mesmo o partido de sustentação do regime dos militares ousou fazer. Mas agora, torna-se cada vez mais comum nos veículos de comunicação colunistas empunharem microfones e utilizarem espaços em jornais, revistas e blogs para combater a esquerda, os governantes petistas e os movimentos sociais com críticas assumidamente de direita. Ótimo para o jogo político que seja assim, com todas as cartas expostas sobre a mesa e com todas as cabeças da hidra muito bem identificadas.

Mas ainda faltam os partidos com coragem para escancarar tais posições. O Pastor Everaldo e seu pequeno PSC talvez tenham percebido que preencher esse vácuo pode ser o pulo do gato, a chance de deixar a condição de nanico e saltar para a mesa dos grandes jogos. Que podem trazer novidades reveladoras!

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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