Vergonha nacional

Leonardo Dahi

No auge das manifestações de junho do ano passado, quando o Brasil recebia a Copa das Confederações, o país foi tomado por protestos “contra a Copa” e eu fiz esse texto dizendo o quanto isso era ridículo.

Pois bem, a menos de cinco meses do início da competição, quando todos os estádios e obras relativas ao torneio estão prontos (ou em fase final), vemos um movimento nas ruas “Não vai ter Copa”. “Sem Direitos, sem Copa”, diz a família de um menino baleado pela PM que até agora não se sabe se estava na manifestação ou não.

Vamos tentar esquecer o fato de que, ao contrário do que eles querem acreditar, esse pessoal não tem força para impedir a Copa. Eu não tenho palavras para descrever a burrice de quem, após bilhões gastos, abre mão dos bilhões a mais que ela pode vir a retornar. Não consigo classificar de outra maneira que não com um mau-caratismo (ou inocência) enorme os líderes da revolta nacional que queriam o dinheiro da Copa em hospitais como se tudo por aqui funcionasse perfeitamente bem até a FIFA anunciar este país como sede do Mundial, lá em 2007. Como se a culpa, a panaceia dos nossos males, fosse a FIFA ou a Copa do Mundo.

2007… Estamos em 2014. Foram sete anos para dizer que não queríamos a Copa. Até mais, se lembramos que havia um lobby pela escolha do Brasil desde 2006 e que éramos o único candidato. Agora, sinto muito, já é tarde. Vamos fazer e vai ser sensacional. Se o Governo não fez a parte dele, façamos a nossa e façamos dessa Copa um momento especial. Não para as Copas, mas para nós. E isso não significa sair por aí protestando “contra tudo”. É receber quem vem pra cá de maneira cordial, é tentar não atrapalhar quem, brasileiro ou não, quer apenas assistir um jogo porque pagou caro por isso.

No auge da revolta popular, surgem grupos que, revoltados com a verba repassada às Escolas de Samba, prometem atrapalhar os desfiles na Marquês de Sapucaí. Ignorantes… Mal sabem, além do retorno que a festa gera, o quanto ela é importante para esse país. Tolos… Não sabem o quanto um samba-enredo – como qualquer música, qualquer forma de arte – pode ser muito mais útil que essa máscara que eles insistem em usar para protestar. Pretensiosos… Não sabem o quanto são inúteis para o progresso desse país.

imperio serrano

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O Brasil da juventude atual é um país apaixonado pela revolução. Isso dito assim pode parecer fantástico, afinal, o descontentamento é uma das principais formas de alcançar uma sociedade decente. Mas aqui no Brasil, isso é ruim. E é ruim porque, na verdade, não somos apaixonados pela revolução, mas sim por sermos revolucionários. Impulsionados por uma geração que, essa sim, lutou para mudar o país, temos a tal geração Y que adora romantizar as coisas para se posicionar como revolucionária, como líder, como o Edson Celulari na histórica Que Rei Sou Eu?, de 1989, ou o Cássio Gabus Mendes na não menos fantástica Anos Rebeldes

Uma juventude que usa bandeiras anarquistas, socialistas, ou fascistas sem, em muitos casos, sequer saber o que elas significam. Uma juventude que, como eu disse, romantiza os problemas brasileiros e nossa política para criar vilões e posar de herói. Que julga estar interferindo nos rumos da nação quando, na verdade, só está causando uma baderna e atrapalhando a vida de quem diz defender. Temos, atualmente, muitos Che Guevaras e Mandelas, e isso em nada tem a ver com esquerda ou direita, que acham que a luta armada – que, no caso deles, nem é tão armada assim (até isso eles romantizam) – é algo legal.

Bobos… A luta armada nunca é legal. Pode até ser mais emocionante de se estudar, de se inspirar, mas é algo, às vezes, necessário. E, agora, não é. Somos um país democrático com muitos problemas políticos, mas que está sempre aberto à mudanças. Lute por elas, mas lute com princípios, não com bagunça. Vote melhor, exponha seus descontentamentos de maneira mais clara, lute por uma bandeira mais sólida. Se a sua revolta ainda não deu resultado, sinto muito, a culpa é sua.

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No fundo, esse pessoal só quer mostrar para o Mundo que o Brasil não é futebol, bunda, caipirinha, praia e Carnaval. Um pessoal que passou a vida dizendo ter vergonha do nosso país por passar essa imagem. Coitados… Não sabem que, na verdade, nada disso nos envergonha lá fora. Não sabem que, na verdade e nesse momento, o nosso maior motivo de vergonha são eles mesmos.

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Um comentário sobre “Vergonha nacional

  1. Se você sair perguntando nas ruas: “Você prefere que o governo gaste bilhões e bilhões de reais para investimentos na copa do mundo ou melhoras os serviços públicos?”
    O que você acha que a maioria responderia?
    Lembre-se que a maioria da população brasileira é muito pobre.

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